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# Ou isto ou aquilo
- URL: https://www.b9.com.br/ou-isto-ou-aquilo/
- Published: 2026-06-25T13:09:32.000Z
- Updated: 2026-06-26T22:10:21.000Z
- Description: Da era do "ou" para a era do "E"
- Author: Juliana Vilhena Nascimento
- Tags: Cannes Lions, Criatividade

Se você nasceu nos anos 70/80, é provável que você tenha lido "**Ou isto ou aquilo**", de **Cecília Meireles**. Eu li. E, como tantas crianças, cresci internalizando a ideia de que a vida era uma sucessão de escolhas excludentes: uma coisa ou outra. Um caminho ou outro. Uma identidade ou outra.  
Sabe aquela coisa do “cada escolha, uma renúncia?" Pois é: durante muito tempo, foi isso mesmo. Mas venho saindo de muitos palcos, conversas e leituras dos últimos anos com a sensação de que estamos entrando em uma era que desafia profundamente essa lógica.

Durante décadas, fomos treinados a perseguir especialização. Escolhia-se uma profissão, uma trajetória, um setor, uma identidade profissional. As carreiras eram relativamente lineares, os conhecimentos permaneciam relevantes por muitos anos e a estabilidade era tratada como um atributo desejável. Havia conforto em ocupar uma caixa bem definida.

A sensação que eu tenho, dentro da indústria criativa, é que todo mundo pensa que o jogo é de soma zero: para uma coisa nascer, outra precisa morrer. A internet ia matar a TV. O mobile ia matar a internet. A IA vai matar a criatividade. **Por que a gente precisa tanto de um bicho-papão?**

Eu tenho um palpite: penso que nossa indústria cai repetidamente na armadilha de confundir missão (razão de existir, propósito) com motor de monetização. Por exemplo: a TV como a conhecemos é um combo de produção de conteúdo com espaço de veiculação. E aí vem o meu ponto: se a atividade "core" das emissoras é a produção de conteúdo, elas podem continuar fazendo isso na internet, no mobile, no streaming. Desde que se preparem para tal.

![](https://storage.ghost.io/c/b8/a4/b8a4ba23-e08d-42f7-b459-b1bcab5b8867/content/images/2026/06/magnific_overhead-editorial-photog_EqXOSX4uuO.png)

Além disso, várias transformações simultâneas começaram a tensionar esse modelo. Estamos vivendo mais. As carreiras podem facilmente ultrapassar sete décadas. As habilidades técnicas se tornam obsoletas em pouco tempo. A inteligência artificial passa a executar com competência crescente tudo aquilo que sabemos ensinar. E os negócios, cada vez mais, são construídos na intersecção entre diferentes disciplinas.

Nesse cenário, uma pergunta tem martelado cada vez mais a minha cabeça: **e se tivermos sido treinados para um mundo que já não existe mais?** Afinal, a suposta oposição entre tecnologia e humanidade, entre carreira corporativa e empreendedorismo, entre marcas e autenticidade começa a perder força à medida que a complexidade do mundo aumenta. Será que não deveríamos começar a construir a era do “**E**”?

Uma era em que uma pessoa pode construir uma carreira em portfólio, ocupar diferentes papéis simultaneamente e usar repertórios diversos para alimentar uma mesma trajetória. Uma era em que um indivíduo continua a exercer julgamento, a pensar estrategicamente e a usar a tecnologia para amplificar sua capacidade e capilaridade de execução. Uma era em que pessoas, como **Oprah Winfrey**, entendem que sua marca pessoal não é somente um ativo comercial, e sim um catalisador para o seu legado.

Curiosamente, quanto mais camadas nosso universo ganha, menos úteis parecem as respostas simplistas. Mesmo em tempos de tanta polarização. **Cecília Meireles** certamente não tinha a inteligência artificial em mente quando escreveu seu livro. Mas gosto de imaginar que, se estivesse escrevendo para as crianças de hoje, ela as convidaria para escolher isto **E** aquilo.