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# Outros 90%
- URL: https://www.b9.com.br/outros-90/
- Published: 2012-02-27T11:07:12.000Z
- Updated: 2012-02-27T11:07:12.000Z
- Author: Larissa Tollstadius
- Tags: Criatividade, #wp, #wp-post

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2012/02/lari001.jpg "lari001")

> Rocinha, “Maior comunidade das Américas”, no Rio de Janeiro

No mundo, aproximadamente um bilhão de pessoas moram em assentamentos informais. A precariedade das condições de habitação de muitos já foi retratada no **B9**, quando o [Saulo](http://www.twitter.com/saulomileti?ref=b9.com.br) nos falou [de um cemitério](https://www.b9.com.br/27983/web-video/above-and-below-vida-e-morte-no-mesmo-lugar) superpovoado – por vivos.

Diante desse cenário, uma exposição – **“Design with the other 90%: Cities”** (há um livro homônimo) - pretende apresentar os esforços mobilizados para interferir nessa situação. Apresentada nos corredores do prédio das **Nações Unidas** (cujo projeto teve participação do **Niemeyer**) entre outubro do ano passado e janeiro desse ano, atualmente está disponível para ser exibida na instituição que contatar os organizadores.

A mostra tem como mote seis temas: Trocar, Revelar, Adaptar, Incluir, Prosperar e Acessar. Visitando [seu site](http://www.designother90.org/cities/solutions?ref=b9.com.br), na seção “Soluções/Prosperar”, me deparei com algo familiar: A luminária *“Cristal de Luz”*.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2012/02/lari002.jpg "lari002")

> Luminária Cristal de Luz “Lakshimi” (“Deusa da Prosperidade”)

\[quoteleft\]Podemos parar pra pensar na discrepância entre as “nossas residências” e as moradias de 1 bilhão de outras pessoas\[/quoteleft\]Descobri então que essa peça é um dos produtos da **[COPPA-ROCA](http://www.coopa-roca.rj.gov.br/?ref=b9.com.br)** \- associação de mulheres moradoras da Rocinha (Rio de Janeiro). Foi olhar a foto e me lembrar de **“Cruel”**, o penúltimo espetáculo de dança produzido pela também carioca **[Deborah Colker](http://www.ciadeborahcolker.com.br/2009/02/16/cruel?ref=b9.com.br)**.

Se espetáculo e exposição nos colocam a refletir sobre a crueldade das ações humanas e assim podemos parar pra pensar na discrepância entre as “nossas residências” e as moradias de 1 bilhão de outras pessoas, também podemos concluir: não há apenas com que se lamuriar, existem soluções exequíveis.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2012/02/lari003.jpg)

A existência de soluções, talvez não seja uma novidade tão grande. Mas muitas vezes elas ficam condicionadas a apresentação no meio acadêmico. Na televisão e outros meios de comunicação tradicional e de massa, é mais fácil encontrarmos divulgada a violência e a pobreza como situações aparentemente imutáveis, ao invés dos exemplos de mudança e orgulho.

> Muitos se enganam ao pensar que os moradores dos assentamentos informais não possuem identificação e vínculo sentimental com o território urbano que ocupam.

Pensar na remoção como primeira alternativa denota falta de sensibilidade para com essa parcela da sociedade. Por que não pensarmos em como colaborar para a criação de espacialidades saudáveis e seguras nos lugares já apropriados/conquistados?

O site apresenta quase 20 soluções, das quais 4 aconteceram em solo brasileiro: [Reurbanização de Diadema](http://www.designother90.org/cities/solutions/diadema-reurbanization?ref=b9.com.br) (Diadema-SP), [Urban Mining](http://www.designother90.org/cities/solutions/urban-mining?ref=b9.com.br) (São Paulo-SP), Cristal de Luz (Rio de Janeiro-RJ), [Favela Painting Project](http://www.favelapainting.com/?ref=b9.com.br) (Rio de Janeiro-RJ) (projeto que eu já conhecia, pois além de já ter circulado notícia dele pela internet, recebeu atenção especial da mídia tradicional). Através dessas estão representadas grandes comunidades brasileiras: Santa Marta e Rocinha no Rio de Janeiro, Heliópolis e uma série de comunidades de Diadema em São Paulo.

De fato é um recorte pequeno, focado apenas no sudeste, e isso não é à toa. Alguns fatos me chamaram a atenção: o interesse de estrangeiros em atuarem por aqui - como é o caso do projeto Urban Mining, o qual teve apoio de pesquisadores da universidade **ETH Zürich**; e do Favela Painting, o qual é uma intervenção de uma dupla de artistas holandeses – e a participação dos moradores nas intervenções. Característica que parece ser comum a todos os projetos.

Particularmente, a ideia que mais me atraiu foi o trabalho feito em Heliópolis: produção de módulos construtivos através da reciclagem de “lixo”. Atende aos princípios da sustentabilidade (e parece ser eficaz) e da inclusão social, além de algo muito significativo: respeita a estética e os hábitos de construção vernaculares.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2012/02/lari004.jpg)

> “Como todas as sociedades estão divididas em classes, castas, etnias, nações, religiões e outras confrontações, é absurdo afirmar a existência de uma só estética que a todos contemple com suas regras, leis e paradigmas: existem muitas estéticas, todas de igual valor, quando têm valor”, Augusto Boal