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# “Passageiros” explora ficção científica, romance e ação, mas sem grande sucesso em nenhum deles
- URL: https://www.b9.com.br/passageiros-explora-ficcao-cientifica-romance-e-acao-mas-sem-grande-sucesso-em-nenhum-deles/
- Published: 2017-01-06T19:51:15.000Z
- Updated: 2017-01-06T19:51:15.000Z
- Description: Assim como em “O Jogo da Imitação”, o diretor Morten Tyldum abandona as questões mais provocativas em prol do convencional
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, filme, review, #wp, #wp-post

**⚠️ AVISO:** Contém spoilers

Escrito por Jon Spaihts antes mesmo que ele fosse contratado pela **Fox** para criar **“Prometheus”** e pela Disney para adaptar **[“Doutor Estranho”](https://www.b9.com.br/68030/cultura/visual-de-tirar-o-folego-e-o-grande-trunfo-de-doutor-estranho/)**, o roteiro de **“Passageiros”** frequenta as salas de executivos de Hollywood há quase uma década. Diferente do que costuma acontecer na indústria, pouco foi mudado entre a proposta inicial e a versão que chega aos cinemas agora. Os produtores provavelmente solicitaram um desfecho mais otimista (ou mesmo “feliz”), que combinasse com as figuras de Chris Pratt e Jennifer Lawrence e seus potenciais de bilheteria, mas as alterações não atingiram as ideias centrais que, em 2007, colocaram o projeto no topo da black list (lista de melhores roteiros ainda não desenvolvidos).

É raro ver um conceito original ser não apenas preservado ao longo de suas reedições, como também levado adiante pelo estúdio com alto orçamento e certa liberdade criativa. O problema é que, neste caso, o desastre estava anunciado desde o início, e Morten Tydlum, o diretor escolhido para a ocasião, apenas tratou de confirmá-lo: “Passageiros” definitivamente não sabe o que quer ser.

\[ltauto\]

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2017/01/pass2.jpg)

O diretor Morten Tydlum com os protagonistas no set

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2017/01/passposter.jpg)

*“\[O filme\] é um drama filosófico, uma comédia existencial, uma história de amor, um thriller de sobrevivência, um épico espacial”*, diz Spaihts [em entrevista](http://www.indiewire.com/2016/12/passengers-space-romance-jennifer-lawrence-chris-pratt-sony-black-list-1201761058/?ref=b9.com.br). O roteirista trata essa “passagem entre gêneros” como algo positivo, mas é ela quem condena o longa em primeiro lugar, principalmente porque os responsáveis nunca abraçam essa “fluidez”.

Tydlum, por sua vez, repete duas das piores marcas de seus trabalhos mais recentes. Como em **“Headhunters”**, ele enfileira plot twists como se não houvesse outro recurso possível, incapaz de criar algum senso de consequência entre as cenas; e como em **[“O Jogo da Imitação”](https://www.b9.com.br/55004/cultura/o-jogo-da-imitacao-traz-um-importante-discurso-progressista-e-benedict-cumberbatch-em-grande-forma/)**, abandona as questões mais interessantes em prol do que existe de mais convencional na trama. Ainda, o diretor não demonstra confiança ao articular suas metáforas: como se não confiasse no próprio texto, sempre usa a imagem para confirmar o que foi dito (se um personagem usa a ideia de um afogamento para ilustrar uma situação, é questão de tempo até outra personagem se afogar literalmente).

De todo modo, o primeiro terço do filme, quando tudo parece mais controlado, é o que funciona melhor. Após três décadas hibernando ao lado de outras cinco mil pessoas na nave Avalon rumo a Homestead II, uma colônia da Terra, Jim (Pratt) acorda inesperadamente. Ainda faltam noventa anos até o destino final, e o rapaz se vê obrigado a buscar soluções sozinho. Voltar a dormir é impossível, assim como estabelecer contato ou tomar um retorno na viagem.

\[ladoalado\]

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2017/01/pass4.jpg)

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\[quotedireita\]Trailers e o restante do material de divulgação escondem a provocação central do filme\[/quotedireita\]

Meio [**“Perdido em Marte”**](https://www.b9.com.br/61023/cultura/perdido-em-marte-e-um-dos-blockbusters-mais-espertos-e-divertidos-do-ano/) pela combinação entre habilidade e improviso, meio **“Robinson Crusoé”** pelos efeitos do deslocamento e da solidão no personagem principal, esse segmento inicial tenta se beneficiar do carisma de seu protagonista. As interações com o bartender-robô Arthur (Michael Sheen) são divertidas, mas incomoda um pouco que o diretor acompanhe seu processo de descoberta (e posterior desilusão) de maneira tão burocrática. Apesar do design curioso, a nave carece de personalidade, e as atividades que ocupam um ano inteiro são filmadas apenas em montagens rápidas, pouco preocupadas em preparar o ambiente para a grande virada a seguir.

Os trailers e o restante do material de divulgação escondem, mas o ponto-chave dessa aventura com dois dos maiores atores da atualidade não é uma provocação pequena. Depois de cogitar suicídio, Jim decide despertar Aurora (Lawrence), desesperado por companhia e insensível aos efeitos de suas ações — acordá-la significa também condená-la à morte ali, naquela mesma nave. Durante uma parte desse segundo capítulo, porém, a omissão prevalece, e o que se vê é um romance regado a piada sobre a vida no espaço, com acenos estranhos para **“Titanic”**.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2017/01/pass5.jpg)

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\[quoteesquerda\]Construído como o de um típico produto de ação, o desfecho não consegue ser envolvente ou criativo\[/quoteesquerda\]

Mesmo quando entrega sua grande revelação, Tydlum não aproveita os questionamentos que havia introduzido. Em vez de explorar os vários porquês espalhados pela trama, o diretor escolhe as saídas mais fáceis e pinta a ruptura do casal como a de um romance normal, que nada depende do contexto próprio da ficção científica e da gravidade do ocorrido. Dado o contexto, a cena em que a garota é surpreendida pelo rapaz no refeitório, por exemplo, não poderia se desenrolar como um acidente de percurso banal, terreno, quando, na verdade e nas palavras de Aurora, representa um improvável reencontro entre assassino e vítima.

Apesar do modo como sua personagem é tratada, Lawrence se mostra dedicada a dar ao filme alguma pulsão. Quando a câmera se volta pela primeira e única vez para o passado e ela assume a narração, “Passageiros” desperta legítima curiosidade. Olhar para as motivações e escolhas proporcionadas pela tecnologia parece ser uma tendência do gênero em tempos recentes (*“San Junipero”*, episódio da terceira temporada de **“Black Mirror”**, já havia tratado do tema com maior profundidade, ou ao menos mais concentrado em sua alegoria). Aqui, embora feita de passagem, essa reflexão revela uma atriz mais interessante do que o material oferecido a ela.

\[ladoalado\]

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2017/01/pass6.jpg)

\[/ladoalado\]

Na virada para o ato final, a direção confirma sua falta de rumo. Construído como o de um típico produto de ação, o desfecho não consegue ser mais envolvente ou criativo do que, digamos, aqueles dos trabalhos que consagraram suas duas estrelas (não é preciso ir longe: mesmo **[“Jurassic World”](https://www.b9.com.br/58405/cultura/jurassic-world-mantem-a-essencia-e-faz-jus-ao-legado-do-classico-de-steven-spielberg/)**, contestado por várias razões, conseguia aproveitar melhor as habilidades de Pratt no momento decisivo).

Tydlum, [que afirmava](http://www.indiewire.com/2016/12/passengers-space-romance-jennifer-lawrence-chris-pratt-sony-black-list-1201761058/?ref=b9.com.br) querer um filme *“intimista e focado nos personagens”* e, ao mesmo tempo, *“com escala épica”*, se mostra satisfeito em ter realizado o primeiro e passa a se concentrar apenas no segundo — como se as duas coisas existissem de maneira independente. Também ele, que dizia rejeitar *“roteiros que são apenas sobre salvar o planeta ou combater alienígenas”*, acaba se contentando em evitar a explosão de uma nave — como se esse ato heroico justificasse, sob qualquer perspectiva, os absurdos anteriores, inclusive com relação aos personagens com os quais ele diz se importar. Em um sentido geral, “Passageiros” é três filmes em um: ficção científica, romance e ação. É uma pena que nenhum deles tenha sucesso, e que colocá-los em sequência sem aparar as arestas apenas comprometa ainda mais o pacote completo.

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/09/nota2.png)

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