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# Preso a necessidades de validação, "Coringa" joga no seguro
- URL: https://www.b9.com.br/preso-a-necessidades-de-validacao-coringa-joga-no-seguro/
- Published: 2019-10-02T20:13:45.000Z
- Updated: 2019-10-02T20:13:45.000Z
- Description: Filme de Todd Phillips deseja ser levado a sério ao nível do cinema de arte, mas é incapaz de ser algo além do exercício de emulação mais básico
- Author: Pedro Strazza
- Tags: Cultura, Cinema, DC, Joaquin Phoenix, Robert De Niro, #wp, #wp-post

Entre a exibição (e vitória) no **Festival de Veneza** e a estreia nos cinemas, **“Coringa”** já vem despertando emoções intensas no público pelo aparente caráter controverso de sua concepção que tanto alardeia nos trailers e materiais de divulgação. É uma medida que se por um lado revela parte do status esquizofrênico da cultura pop de hoje - aonde vamos chegar na confusão de expectativa com o debate? - também dá indícios daquilo que parte da audiência espera com o filme, porque para além do cerne do assunto as discussões acaloradas sobre a suposta inflamabilidade do longa escondem em parte uma questão que passa pelo campo da legitimação: "devemos nos preocupar com as repercussões desta obra, mesmo ela sendo uma produção de gênero?" parece se perguntar o espectador ao comentar o caos do noticiário criado em cima da estreia do projeto.  

Esta dúvida não deixa de evocar parte do olhar de julgamento com que o público observa a ascensão do filme de super-herói como grande chamariz da indústria hollywoodiana nestes anos 10, uma trajetória que embora mais ou menos recente (os primeiros grandes experimentos dos estúdios remontam ao **“Superman”** de Richard Donner, afinal) não deixa de ser natural aos caminhos de qualquer produção de gênero na História. Ainda que os caminhos sejam distintos entre si, o ciclo é o mesmo no percurso da marginalização até a aceitação final pelas camadas do “mainstream” como parte essencial da máquina, desde o faroeste e o noir nos anos 30 e 40 até subgêneros como o slasher nos anos 70 e 80.  

No caso específico do longa de **Todd Phillips**, porém, a diferença para outros “colegas” que passaram por escrutínio parecido nos últimos tempos é que não apenas ele reconhece sua posição perante este processo histórico, mas o abraça como obstáculo a ser superado. Isso porque “Coringa” é, acima de tudo, uma produção que nasce disposta a se “elevar” de sua condição de filme de super-heróis para alcançar os supostos níveis superiores do circuito de arte, despindo-se de necessidades inscritas em sua categoria para perseguir valores mais nobres e adultos. O que a história de origem do principal vilão do Batman quer aqui é uma validação externa o qual escapa dos conformes dos fãs já iniciados, capaz de englobar todo e qualquer tipo de público em torno de seus temas nobres.  

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2019/09/8ff4-ietnfsp7785709.jpg)

O diretor Todd Phillips (à esquerda) conversa com Joaquin Phoenix no set

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2019/10/MV5BNGVjNWI4ZGUtNzE0MS00YTJmLWE0ZDctN2ZiYTk2YmI3NTYyXkEyXkFqcGdeQXVyMTkxNjUyNQ@@._V1_.jpg)

Para tanto, o longa não perde tempo em estabelecer o quão diferente é sua estrutura dos “moldes”. Dos primeiros minutos silenciosos que terminam com o protagonista abandonado e humilhado num beco de Gotham City aos violoncelos graves da trilha sonora recorrente da islandesa Hildur Guðnadóttir, Phillips busca a todo momento reforçar ao público que seu projeto está bem mais próximo de adjetivos como “denso”, “dramático” e (especialmente) “sério” durante os esforços para contar nas telas a história de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), jovem de silhueta frágil que vive com a mãe na região pobre da cidade e que atua como palhaço para ajudar a pagar as contas enquanto não vê sua carreira de comediante deslanchar. Nada parece estar a seu favor, entretanto, pois além de estar debilitado por doenças mentais sua mãe também se encontra fragilizada e a condição de Gotham tende a piorar perante ondas de crimes cada vez maiores e o acentuamento do abismo entre ricos e pobres.  

É exatamente deste sentimento de acuamento e desespero, alinhado à sensação quase perpétua de gravidade dramática do roteiro escrito por Scott Silver e o diretor, que “Coringa” busca tirar sua maior força para se provar como produto de valor, uma noção que só se acentua conforme o aceno a **“Taxi Driver”** e **“O Rei da Comédia”** se torna uma emulação quase literal de narrativa. Tomar referências como aliterações estéticas e de conteúdo são quase constantes no caminho do longa, pois além de Scorsese e a menção direta a Charles Chaplin a própria composição de Fleck por Phoenix não deixa de repetir grande parte de seu trabalho físico com **“Você Nunca Esteve Realmente Aqui”** e **“O Mestre”** \- os dois projetos que consagraram o ator como este artista de fragilidades que borram a linha entre o físico e a saúde mental.  

A questão, porém, não é sobre o quanto “Coringa” é capaz de repetir antepassados e se portar como uma produção “para adultos”, mas o que o filme pode proporcionar para legitimar esta posição que tanto ambiciona. E conforme a narrativa avança, a ausência de uma distinção entre estas duas frentes começa a fazer com que o longa revele as francas vulnerabilidades do próprio raciocínio pretensioso.  

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⚠ **AVISO**: A partir deste ponto o texto contém **SPOILERS** do filme. Não diga depois que não foi avisado.

\[quotedireita\]O filme busca a todo momento reforçar ao público que está próximo de adjetivos como “denso”, “dramático” e (especialmente) “sério”\[/quotedireita\]

É um problema que começa exatamente sobre o princípio mais básico de movimento da narrativa, dado que para além do deslumbre do valor de produção é difícil identificar na obra algo maior aos propósitos cronológicos de sempre. Embora almeje a provocação e o choque, “Coringa” acaba por ser um filme bastante inocente naquilo que se propõe a realizar pois no fundo, após conseguir a validação de “obra artística” de seu espectador, ele tem pouco ou (para ser exato) nada a oferecer no campo temático, como se importasse a Phillips apenas o ato de completar uma lista de pré-requisitos para alcançar o status de cinema adulto - e com a exceção da nudez e o sexo, de fato não sobram muitos elementos a se ticar desta lista, ainda que a própria noção de completismo não faça o menor sentido.  

Não ajuda muito também que toda e qualquer possibilidade de manifestação de algo mais controverso seja barrada da trama, que reduz a uma equação maniqueísta muito bem camuflada toda a espiral de loucura de Fleck enquanto vítima do sistema. É um tanto divertido observar o quanto uma produção tão arraigada num sentimento de ira termina reduzida a disparar insultos generalistas, pois seus protestos da altura do “contra tudo isso que tá por aí” apenas acentuam o vazio da atmosfera concebida pelo diretor - além do discurso final do protagonista no programa do personagem de Robert De Niro (aqui para representar outro aceno óbvio a "O Rei da Comédia"), nada pode soar tão ridículo quanto as manchetes dos jornais clamando em letras garrafais para “matar os ricos”.  

Neste sentido, o que é talvez a melhor herança do longa não à toa acaba sendo algo relativo somente à caracterização, na Gotham cujo retrato enfim escapa do olhar “de cima” e se situa melhor no conflito das classes ricas e marginalizadas para dar voz à raiva de Fleck perante as injustiças que sofre na pele. Mas mesmo isso termina raso perante a lógica segura de Phillips, cujo exercício de ambientação é realizado somente para reconstruir a origem pecaminosa da cidade sob o mesmo olhar de sempre - e neste ponto vai ser curioso observar a reação ao filme de quem, há três anos, reclamou de [**“Batman vs Superman”**](https://www.b9.com.br/64102/desorganizado-e-barulhento-batman-vs-superman-e-um-monstro-sem-forma-definida/) por reencenar a morte de Thomas e Martha Wayne pela enésima vez.  

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2019/09/rev-1-JOK-19666_High_Res_JPEG.jpeg)

\[/ladoalado\]

\[quoteesquerda\]Embora almeje a provocação e o choque, “Coringa” acaba por ser um filme bastante inocente naquilo que se propõe a realizar\[/quoteesquerda\]

Trazer a família Wayne para o centro dos acontecimentos do roteiro, aliás, é o maior indício do vazio discursivo de Phillips com o projeto, cuja sede pelos grandes temas não se verifica naqueles que de fato explora. A vítima maior desta lógica termina sendo o próprio protagonista, cujo arco é subaproveitado não apenas pelo viés genérico de toda a suposta dualidade de sua vilania, mas porque o filme não abraça de fato sua espiral de loucura em nenhum momento - culpa, de novo, deste caráter isentão da narrativa, que não hesita em eliminar cenas cruciais para a trajetória de Fleck (como quando sobe a trilha sonora no momento que vai se apresentar pela primeira vez no palco) mas acompanha sua descida ao inferno de uma lógica didática a fim de impedir que a ira de “Coringa” saia de seu controle.  

Retomando a discussão do início do texto sobre levar a sério ou não o gênero que tanto atormenta parte do público, quando em meados dos anos 50 escreveu sobre a trajetória do faroeste no cinema, o crítico francês André Bazin chegou a definir como “metawestern” o conjunto de produções da categoria concebidas no pós-guerra que exibiam alguma vergonha de pertencer a esta tipologia e buscava justificar sua existência em outras áreas, incluindo aí vertentes psicológicas, estéticas, políticas e morais. Se “Coringa” pertence ou não a uma subcategoria de “metasuper-heróis” esta é uma acepção que (felizmente) só as próximas gerações discutirão daqui alguns anos, mas, por agora, é apenas curioso como o longa de Phillips se iguala nesta relação de dessabor com suas origens, mas é incapaz de assumir para valer uma identidade para outro campo que não o filme de super-herói com um visual elegante apenas para impressionar. Em meio a tanta violência, quanta inocência.  

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