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# Procura-se: Público disposto a ler bons textos, independente do tamanho
- URL: https://www.b9.com.br/procura-se-publico-disposto-a-ler-bons-textos-independente-do-tamanho/
- Published: 2011-12-21T18:07:47.000Z
- Updated: 2011-12-21T18:07:47.000Z
- Author: Fábio M. Barreto
- Tags: Cultura, Opinião, jornalismo, star trek, #wp, #wp-post

![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2011/12/nerve1.jpg)

Meses antes de sequer imaginar que teria a chance de conhecer William Shatner na última **Comic-Con**, fui surpreendido por sua série de entrevistas – **[Raw Nerve](http://www.biography.com/tv/shatners-raw-nerve/episodes?ref=b9.com.br)**, no canal **Bio** \- com atores de **"Jornada nas Estrelas"** e outras celebridades. Cheguei a acompanhar o **Mind Meld** \- no qual Shatner e Leonard Nimoy batiam papo sobre a série e os filmes – mas não carreguei muita coisa, de fato, daquelas conversas.

Nessa nova fase, porém, um Bill mais experiente e contemplativo surgiu e essa versão fez com que toda essa relação de amor e ódio estabelecida ao longo dos últimos 20 anos (por conta de minha devoção inabalável a **"Guerra nas Estrelas"**, claro) fizesse sentido. Se não falhe a memória, na entrevista com Walter Koenig, ele disse algo inesquecível:

> “Quero conhecer as pessoas, quero entender o que faz com que elas funcionem, como pensam e por que pensam”.

Por mais idealista que possa soar, Shatner definiu a essência de qualquer comunicador, que, antes de comunicar, precisa compreender qual mensagem precisa transmitir. É um pensamento indispensável nos dias de hoje com o público pulverizado, maior acesso à informação e, seja na publicidade, seja no jornalismo, com clientes perdidos no tiroteio de opções.

Em meus anos de faculdade, ninguém questionava a validade do trabalho do jornalista. Não havia opção à escola da reportagem e ao grande veículo impresso, rádio ou programa de TV, logo, boa parte das conversas de dedicavam a preparar a técnica, manter a ética e respeitar aquela neutralidade utópica que, de fato, nunca existiu. Veio a Internet. Boom. A escola clássica despencou e o resultado é uma imprensa perdida, em busca de novos formatos, de novas rendas, mas, acima de tudo, em busca de uma razão para continuar existindo.

\[quoteright\]“Seu texto é muito longo, ninguém lê”\[/quoteright\]

Aproximando esse cenário do meu dia a dia como correspondente de entretenimento, um dos mais afetados pela nova mídia, a coisa piora um pouco, pois quando não se existe mais o elemento “especial” da proximidade com o astro e se a janela de lançamento caiu de 1 ano para 3 meses, o que sobra? É aí que William Shatner acerta em sua definição, é aí que editores brasileiros – especialmente os online – precisam lembrar das razões que os levaram a essa profissão e focar no objetivo do que fazem, é aí que todo mundo precisa se concentrar, mas ninguém sabe o que fazer.

Qualquer blog consegue traduzir entrevistas, pegar fotos, repercutir feeds de notícias e se chamar de *“site de notícias”*; quem faz isso vai ter milhares de concorrentes exatamente iguais, fato, mas estamos falando de jornalistas ou de verdadeiros redatores que, felizmente, puderam se expressar sem o filtro da grande imprensa. Negada que faz isso para tentar ficar famosa quer saber de hit, não do efeito que seu trabalho causa nas pessoas.

Quantas vezes não ouvi *“seu texto é muito longo, ninguém lê”*. Eu luto contra essa mentalidade e já perdi muito trabalho por isso. Não é reclamação, foi uma opção. Ouvi isso hoje, aliás. Aquela desculpinha do “ninguém lê texto grande na internet” não cola, desculpe. Se a internet é realmente o novo canal de comunicação, significa que todas aquelas pessoas que aprenderam a apreciar a boa matéria apurada e informativa, ou aquela opinião fantástica do articulista preferido, desaprendeu e vai ser obrigado a “análises” de quatro parágrafos? Duvido. Quando digo Hollywood é de todo mundo, falo do acesso; hoje, pulverizado e quase sempre insosso criado pelo atual sistema de assessoria de imprensa, que encara o profissional como uma mera ferramenta do departamento de marketing.

Olhando esse cenário, um modo de escapar da cobertura rasa e do nivelamento por baixo – o que realmente matou o jornalismo, por conivência de editores e preguiça de “repórteres” que não vivem sem **IMDB** ou **Wikipedia** – é justamente a compreensão que Shatner busca em suas aventuras como entrevistador.

\[quoteleft\]Em algum lugar nessa internet de Deus e o Diabo deve existir um público disposto a ler bons textos\[/quoteleft\]

Claro que a fofoca sempre vai existir como filão milionário ao revelar as últimas estripulias de gente relevante como as Kardashians ou Lindsay Lohan, entretanto o cinéfilo quer e precisa conhecer seus ídolos, sejam eles atores ou diretores. Com o avanço tecnológico, as chances do cinéfilo se arriscar como produtor de conteúdo é gigantesca com um blog ou até mesmo fazendo seus próprios filmes. A existência de uma base de informações confiável e relevante se torna fundamental e precisa ser oferecida em algum lugar que não os extras dos Blu-Rays.

Ao entendermos como as pessoas bem-sucedidas tomam suas decisões, o que as inspira, onde procuram talentos, o que julgam valioso nos dias de hoje, podemos compreender melhor o mercado do entretenimento, planejar nosso próximos passos e, sem dúvida nenhuma, aprender com erros dos outros. Foi algo que James Cameron comentou uma vez, sobre a importância das referências e da manutenção do conhecimento:

> “Ninguém mais faz filmes bons sobre H.P. Lovecraft, por que muita gente errou demais quando tentou; já sabemos o que não fazer”.

De certa forma, esqueceram da função do jornalismo, a de reportar e registrar, e só querem saber de resolver o problema: voltar a vender. Mudou-se o fim, perdeu-se o meio, danou-se tudo.

Alterando levemente as palavras de Shatner, quero conhecer meus entrevistados e meus ídolos, quero entender o que faz com que eles funcionem do modo como funcionam, quero saber como pensam e por que pensam.

Quero entende-los e compartilhar essas descobertas, pois sei que, em algum lugar nessa internet de Deus e o Diabo exista um público disposto a ler bons textos, independentes de seu tamanho, que clame por informação e ainda se empolgue com as declarações com alguém capaz de te emocionar na tela e te deixar orgulhoso fora dela. Se a velha imprensa já perdeu, que, pelo menos, encontremos um bom meio de continuar o trabalho no mundo online. Pode chamar de idealista, mas eu prefiro ser chamado de jornalista.