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# Quando a TV dá voz às mulheres que têm medo de falar
- URL: https://www.b9.com.br/quando-tv-da-voz-mulheres-que-tem-medo-de-falar/
- Published: 2014-12-16T12:19:34.000Z
- Updated: 2014-12-16T12:19:34.000Z
- Description: A importância da mídia no debate dos recentes casos revelados nos EUA e também no Brasil
- Author: Letícia Arcoverde
- Tags: Cultura, televisão, #wp, #wp-post

Recentemente os EUA receberam uma onda de notícias sobre casos de estupro em universidades famosas e renomadas, que fazem pouco ou quase nada para investigar os casos e punir os responsáveis. Uma estudante da Columbia [passou a carregar um colchão](http://www.huffingtonpost.com/2014/10/29/carry-that-weight-columbia-sexual-assault%5Fn%5F6069344.html?ref=b9.com.br) pelo campus em protesto até que seu estuprador fosse expulso, gerando apoio e um movimento no país.

Um relato anônimo de uma aluna da Universidade da Virginia [na **Rolling Stone**](http://www.rollingstone.com/culture/features/a-rape-on-campus-20141119?ref=b9.com.br) (posto em dúvida pela própria revista posteriormente) descreveu o descaso da universidade e os problemas estruturais que fazem com que poucas estudantes tenham coragem de denunciar seus agressores. Aqui no Brasil, denúncias na faculdade de Medicina da **USP** mostram situações parecidas.

As alunas que contam suas histórias, pública ou anonimamente, sempre dizem conhecer mais casos de mulheres que sofreram o mesmo mas não quiseram se expor. E um dos comentários mais frequentes é: mas por que elas ficam caladas? Os homens que fazem isso são criminosos, e merecem punição, então por que elas não denunciam?

Essa pergunta não tem resposta simples, mas ultimamente a TV americana se esforçou para respondê-la.

![TV](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/12/tvw5.jpg)

\[colunadireita\]No episódio 6×08, *“Red Zone”*, de **“The Good Wife”**, Alicia é chamada pelo seu irmão para auxiliar uma estudante universitária vítima de estupro. Durante uma audiência interna, a aluna, Jody, não tem direito a advogado, precisa confrontar seu agressor, e acaba sendo mais questionada pelas figuras de autoridade da universidade do que o contrário.

É apenas com a ajuda silenciosa de Alicia, que assiste ao procedimento e envia instruções para a aluna via mensagens de texto por baixo da mesa, que ela consegue virar o jogo. E é só após ameaçar a universidade com um processo que a escola expulsa o aluno agressor – com acusações menores, em nada relacionadas à violência sexual.

Alicia diz à aluna que elas podem continuar com a ação contra a escola, mas a estudante desiste. Fica claro que o processo pelo qual ela passou – que deveria existir para protegê-la – exigia demais dela. Na universidade fictícia, havia uma “parede do estupro”, na qual 60 vítimas haviam escrito os nomes dos seus agressores, anonimamente.

Quantas haviam tentado fazer o mesmo que Jody, mas falharam por não ter a ajuda de alguém poderoso como Alicia? Apesar do fim melancólico da trama, Jody recebeu uma resposta mais consistente do que a maioria das estudantes reais que apareceram nas notícias.\[/colunadireita\]

\[expandido\]

![TV e Mulheres](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/12/tvw2.jpg)

\[/expandido\]

\[quoteesquerda\]The Good Wife, Scandal e Elementary abordaram o tema de mulheres que sofreram caladas\[/quoteesquerda\]

\[colunadireita\]Recentemente, no episódio 4×07, *“Baby Made a Mess”*, **“Scandal”** trouxe à série o ex-marido de Abby, que batia nela quando eles eram casados. Ele surge como um candidato ao Senado prestes a receber apoio da Casa Branca, onde Abby trabalha. Abby luta contra a situação à sua maneira, recebe ajuda de Olivia – que tenta garantir que a oponente dele ganhe a eleição – mas sempre chega à mesma conclusão: ela não quer se expor como vítima, pois ela sabe que no minuto em que o fizer, será estigmatizada e julgada da mesma forma que seu agressor. É preciso que um outro assessor vaze a história para que o candidato deixe a corrida eleitoral. E Abby questiona Olivia sobre o que acontece com as mulheres que protagonizam escândalos depois que eles passam.

<img src="https://storage.ghost.io/c/b8/a4/b8a4ba23-e08d-42f7-b459-b1bcab5b8867/content/images/38-media-tumblr-com/da5a78fb71e33e4a17108483a3399c1c/tumblr\_neoqsxzzgz1tccwq5o7\_250.gif" alt="TV e Mulheres" width="245" height="160" size-full">

<img src="https://storage.ghost.io/c/b8/a4/b8a4ba23-e08d-42f7-b459-b1bcab5b8867/content/images/38-media-tumblr-com/b82cfcd0b84bd28d841d992f85e55d1f/tumblr\_neoqsxzzgz1tccwq5o8\_250.gif" alt="TV e Mulheres" width="245" height="160" size-full">

Logo depois, foi a vez de **“Elementary”** questionar esses temas, de um jeito que serviu ainda para dar mais profundidade a uma personagem nova que chegou à série com uma história própria de abuso. Após ter sido vítima de um sequestrador que a torturou e estuprou, a nova protegida de Sherlock, Kitty, veio para Nova York pois queria começar de novo.

No episódio 3×05, *“Rip Off”*, a filha policial de Gregson, o capitão da NYPD, é agredida por um outro policial com a qual ela teve um relacionamento. Mas ela não quer que a agressão se torne pública, pois sabe que será vista como vítima pelo resto da NYPD, e isso prejudicaria sua carreira. Como alguém que nunca passou por situação parecida, Gregson não consegue entender.\[/colunadireita\]

\[expandido\]

![TV e Mulheres](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/12/tvw3.jpg)

\[/expandido\]

\[quotedireita\]A importância da TV mostrar casos que normalmente ficam ocultos. Faz pensar sobre o assunto e questionar como agir e quem ouvir da próxima vez que encontrar algum tipo de injustiça\[/quotedireita\]

É aí que Kitty intervém para explicar a ele como era insuportável ser vista apenas como vítima mesmo por pessoas que a queriam ajudar. Diz que cabe à filha dele decidir se expor ou não, pois é ela que vai sofrer as consequências. No fim, Gregson entende e respeita a decisão da filha – e descobre que Kitty se adiantou e ameaçou o policial agressor, fazendo com que ele deixe a NYPD.

Quando o sistema oficial, que deveria proteger essas mulheres, falha tão repetidamente, elas acabam com poucas opções. Ou se expõem e carregam um fardo publicamente – como faz a estudante com seu colchão na Columbia – ou se silenciam.

Com sorte, elas encontram uma Alicia para mandar mensagens por baixo da mesa, uma Kitty para agir off-screen ou um assessor para vazar informações, e assim conseguem obter algum tipo de justiça também silenciosa. Mas isso só acontece quando elas têm apoio de outras pessoas que acreditam nelas e entendem o que elas estão passando, da forma que o sistema não faz. Em um mundo sem Alicias e Kittys, quem faz esse papel?

Está aí a importância da TV mostrar casos que normalmente ficam ocultos, de tentar responder essa e outras perguntas que não têm resposta fácil. Faz você pensar sobre o assunto – e, quem sabe, se questionar como deve agir e quem precisa ouvir da próxima vez que encontrar algum tipo de injustiça.

  
![Spoilers](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/12/spoilers3.gif)

\--------------- Este post foi publicado originalmente no [**Spoilers.tv.br**](http://spoilers.tv.br/?ref=b9.com.br).