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# Quem imagina o futuro, constrói o futuro
- URL: https://www.b9.com.br/quem-imagina-o-futuro-constroi-o-futuro/
- Published: 2025-03-09T21:11:09.000Z
- Updated: 2025-03-09T21:11:09.000Z
- Description: O amanhã é construído em comunidade, através de redes de conhecimento e resistência
- Author: Juliana Wallauer
- Tags: Cultura, SXSW, #wp, #wp-post

Quando pensamos no futuro, quem está fazendo essa imaginação? E se, por séculos, a construção do amanhã tivesse sido limitada a um grupo muito específico de pessoas? No painel "*Octavia Knew: How Black Women are Predicting the Future*" no **SXSW 2025**, as palestrantes trouxeram uma provocação essencial: o futuro que imaginamos depende de quem está sonhando. E por isso, a falta de diversidade no futurismo não é apenas um problema de representatividade – é um problema de inovação, de justiça e de sobrevivência.

## Futurismo por outras lentes

A conversa partiu da ideia de **histo-futurismo**, conceito usado pela escritora **Octavia Butler** para descrever como o estudo do passado e dos padrões históricos pode ajudar a prever o futuro. "Octavia Butler não era uma profeta, ela apenas prestava atenção", afirmou uma das palestrantes. Esse método de imaginar o futuro baseado na análise de padrões sociais, ambientais e políticos é o que norteia o trabalho das convidadas: **Shamika Klassen**, especialista em tecnofeminismo negro; **Carmela Wilkins**, designer e pesquisadora de sistemas alimentares; e **Lauren Williams**, artista e educadora que investiga como sistemas econômicos moldam a vida negra.

Para elas, imaginar futuros possíveis não é um exercício individual ou isolado—**é um trabalho coletivo**. "A ficção científica nos ensinou que o futuro é feito de grandes mentes solitárias que inventam o amanhã. Mas o futuro real é construído em comunidade, através de redes de conhecimento e resistência", pontuou Klassen.

## Oportunidades na destruição

Se o futuro está sendo constantemente moldado, o que acontece quando atravessamos períodos de crise? Para as palestrantes, momentos de ruptura podem tanto colapsar a imaginação quanto acelerar transformações. "O governo Trump mostrou que nada está fixo. O que parece imutável pode mudar da noite para o dia, e isso pode ser assustador—mas também pode ser libertador", refletiu **Williams**.

A instabilidade política e econômica não só limita a capacidade de imaginar alternativas, mas também pode criar brechas inesperadas. "As regras do jogo estão sendo quebradas o tempo todo. Se isso pode ser usado para oprimir, também pode ser usado para libertar", acrescentou **Wilkins**. A questão é: como transformar essa instabilidade em um caminho para construir o futuro que queremos?

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Foto: Juliana Wallauer

## IA, agricultura e a ilusão do progresso

Entre os temas mais impactantes da conversa, a relação entre inteligência artificial e agricultura trouxe questionamentos fundamentais sobre tecnologia, sustentabilidade e exploração. "73% dos trabalhadores agrícolas nos EUA são imigrantes. Se substituímos essa mão de obra por IA, qual será o impacto social?", perguntou **Wilkins**.

Além do impacto humano, há o impacto ecológico. "A IA aplicada à agricultura otimiza colheitas com um pensamento fabril—monocultura, pesticidas, fertilizantes em larga escala. Mas a natureza não funciona como uma linha de produção. Esse modelo apenas acelera o envenenamento do solo e a destruição da biodiversidade", explicou.

A alternativa? Buscar tecnologias que respeitem os ecossistemas em vez de tratá-los como máquinas a serem otimizadas. "Se a inteligência artificial é capaz de aprender, precisamos ensiná-la a observar como a natureza já faz seu trabalho, e não simplesmente forçá-la a seguir modelos industriais que já se provaram insustentáveis", provocou **Klassen**.

## História e desumanização

"Estudar história é estudar a humanidade. Se tentamos prever o futuro sem olhar para o passado, é como tentar aprender a ler sem conhecer o alfabeto." A citação de **Octavia Butler** ressoou forte na discussão sobre como padrões históricos se repetem e como, muitas vezes, esses ciclos se baseiam na desumanização de grupos vulneráveis.

Um dos exemplos mais chocantes foi a **comida como arma política**. "A escassez de alimentos não é apenas um problema ambiental. É uma ferramenta de controle. Da Palestina a Flint, Michigan, comunidades negras e racializadas estão há décadas tendo acesso à água e alimentos deliberadamente negado por interesses políticos", destacou **Wilkins**.

Outro padrão histórico se repete na maneira como sistemas exploram corpos negros e indígenas—seja na expropriação de terras, seja na apropriação cultural. "O que aconteceu com **Sarah Baartman**, exposta como um objeto exótico no século XIX, ainda acontece hoje quando a cultura negra é consumida e comercializada sem que suas comunidades tenham qualquer retorno", lembrou **Klassen**.

## Questionando o crescimento infinito e o futuro do capitalismo

Por fim, as palestrantes desafiaram a própria ideia de crescimento como sinônimo de progresso. "A única coisa que cresce infinitamente é o câncer. Um sistema econômico baseado em expansão infinita em um planeta finito é, no mínimo, insustentável", afirmou **Klassen**.

A conversa se aprofundou no futuro do capitalismo, trazendo a citação de **Ursula K. Le Guin**: **"Vivemos no capitalismo. Seu poder parece inescapável. Mas então, também parecia o direito divino dos reis.**" O que significa imaginar um mundo além do capitalismo? Para **Williams**, o primeiro passo é romper a ideia de que ele é o único modelo possível. "**Octavia Butler** escreveu: 'Não há nada de novo sob o sol. Mas há novos sóis.' Precisamos expandir nossa imaginação para além do que nos foi ensinado a aceitar como inevitável."

## Imaginar o futuro é um ato de resistência

Se o futuro é moldado por quem o imagina, então imaginar novos futuros é um ato político. "Se queremos um futuro diferente, precisamos de novas histórias, novas referências, novas possibilidades. E isso começa com quem está sonhando", concluiu **Klassen**.

A pergunta que fica para nós é: **quais futuros estamos dispostos a imaginar—e a construir?**

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