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# “Serial” é o novo “Breaking Bad”
- URL: https://www.b9.com.br/serial-e-o-novo-breaking-bad/
- Published: 2014-12-17T11:30:54.000Z
- Updated: 2014-12-17T11:30:54.000Z
- Description: A internet conta os segundos para o final de Serial - o podcast mais bem sucedido de todos os tempos
- Author: Guga Mafra
- Tags: Cultura, Braincast, jornalismo, #wp, #wp-post, podcast

Eu e mais alguns milhões de pessoas pelo mundo estamos ansiosamente esperando a quinta-feira, 18 de dezembro de 2014\. Nesse dia vai ao ar o último episódio da primeira temporada de **[“Serial”](http://serialpodcast.org/?ref=b9.com.br)**, uma série que virou febre no mundo inteiro (relembre o [**“Qual É a Boa?”**](https://www.youtube.com/watch?v=HKhL97rKbiA&ref=b9.com.br) do Alexandre Maron).

Mas com algumas peculiaridades: “Serial” é um podcast. É só áudio. Não foi produzido por um grande estúdio nem vai ao ar numa grande emissora. E a história é real. Ela está acontecendo enquanto você lê esse artigo. Provavelmente o último episódio não vai trazer conclusão alguma.

Bom, acho que chegou a hora de eu explicar do que se trata a série antes de falar do fenômeno que ela é. Lá vai:

Em um bairro pobre perto de Baltimore, nos Estados Unidos, uma menina de 18 anos, Hae Min Lee, filha de imigrantes coreanos, desaparece. Um mês depois, seu corpo é encontrado em uma cova rasa num parque distante. Em algumas semanas seu ex-namorado, Adnan Syed, um rapaz muçulmano, filho de imigrantes paquistaneses, é acusado de tê-la matado, inconformado com o término do namoro dos dois. O rapaz vai a julgamento.

A principal testemunha é um amigo seu, Jay, que diz que ele planejou tudo. Baseado principalmente no testemunho de Jay, Adnan é condenado a prisão perpétua pelo crime. Ele alega inocência.

\[quotedireita\]“Serial” é um podcast. É só áudio. Não foi produzido por um grande estúdio nem vai ao ar numa grande emissora. E a história é real.\[/quotedireita\]

Tudo isso aconteceu em 1999\. Adnan faz parte de uma comunidade de imigrantes muçulmanos, que se organizou para levantar fundos e ajudar a provar sua inocência. Uma pessoa dessa comunidade se aproximou de Sarah Koening - jornalista e produtora do conhecido programa de rádio **[“This American Life”](http://www.thisamericanlife.org/?ref=b9.com.br)**, que conta histórias diversas da vida de pessoas que vivem nos Estados Unidos - pedindo ajuda para divulgar a o caso.

A equipe do “This American Life” estava mesmo pensando em fazer uma espécie de documentário em série, em que cada episódio contasse uma parte de uma história. E o caso de Adnan Syed veio a calhar.

No primeiro episódio da série, que Sarah Koenig narra em primeira pessoa, ela explica que vai investigar e contar a história na medida em que vai descobrindo os acontecimentos. E que não sabe onde vai dar.

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![Serial Podcast](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/12/serial4.jpg)

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![Serial](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/12/serialogo.gif)

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### Audiência equivalente a uma série de TV de sucesso

Os produtores de Serial alegam ter 1,5 milhão de ouvintes por episódio. É equivalente a audiência semanal da maior rádio dos Estados Unidos. Ou de uma série de TV de sucesso.

E a comparação que todo mundo tem feito, é essa, com a TV. Além dos números de audiência, a relação que ela cria com a audiência é similar. Danny Züker, um dos produtores de **“Modern Family”**, [postou no **Twitter**](https://twitter.com/DannyZuker/status/530407487376064512?ref=b9.com.br) que a série é o seu "TV show" favorito.

E por isso o programa tem sido tratado como o *"renascimento do podcast"*. É um pouco agridoce escrever isso aqui, porque eu trabalho com podcasts há um bom tempo, já dei palestras falando o quanto o formato é bom e tem bons números. O próprio “This American Life” tem mais de um milhão de ouvintes (só que levou 4 anos pra conseguir isso). Mas acho que “Serial” foi o primeiro a atingir o nível *"até a minha mãe"* de popularidade e entendimento, no principal mercado do mundo.\[/colunadireita\]

\[quoteesquerda\]“Serial” foi o primeiro a atingir o nível “até a minha mãe” de popularidade e entendimento\[/quoteesquerda\]

\[colunadireita\]*"Até a minha mãe ouve"* ou *"até a minha mãe sabe o que é"* são as frases que a gente diz quando quer explicar que um formato ou programa é simples o suficiente ou popular o suficiente. Deixou de ser nicho. Deixou de ser algo que nerds, geeks e aficionados falam entre si.

Talvez porque os smartphones finalmente passaram a ter aplicativos de podcasts fáceis o suficiente. Ou talvez porque esse era mesmo o tempo necessário para que o formato se tornasse maduro. Ou talvez porque faltasse um programa interessante e viciante como “Serial”.

O fato é que a série já carrega o formato nas costas. Durante a pesquisa para esse artigo, eu cheguei a achar [outro podcast](http://www.slate.com/blogs/browbeat/2014/11/26/serial%5Fpodcast%5Fspoilers%5Fno%5Fthanksgiving%5Fepisode%5Fso%5Fwe%5Fdiscuss%5Falternative.html?ref=b9.com.br) onde os apresentadores debatem o último episódio de “Serial”. Um podcast sobre outro podcast.\[/colunadireita\]

![Sarah Koenig e a produtora  Dana Chivvis](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/12/serial3.jpg)

Sarah Koenig e a produtora Dana Chivvis

### Gonzo-new-journalism-podcast

Uma das coisas mais legais de “Serial” é o uso criativo que eles fazem da produção de áudio. Música, trilha sonora, depoimentos gravados, narração, efeitos sonoros... tudo é combinado de uma maneira única - boa parte já utilizada em “This American Life”, verdade seja dita - mas que ficam muito mais evidentes em um programa seriado de tema único como esse.

Ao contrário de muitos podcasts, que tem diálogos e interações, boa parte de “Serial” é apenas narrado por Sarah Koenig. E mesmo assim, todos esses componentes são capazes de dar ritmo e identidade para a obra.

\[quotedireita\]Ao contrário de muitos podcasts, que tem diálogos e interações, boa parte de “Serial” é apenas narrado por Sarah Koenig. E mesmo assim, a obra tem ritmo e identidade.\[/quotedireita\]

Ao invés de simplesmente contar o caso em ordem cronológica, a série foi divida em capítulos, cada um focado em um aspecto do caso - O crime, as evidências, os depoimentos, a investigação, o julgamento... Esse formato torna o grande número de informações fornecidas mais inteligível, mas também permite que algo que seria puramente jornalístico se torne um pouco de entretenimento. Dessa forma não é preciso estabelecer todas as evidências e informações logo no começo. E os ouvintes podem balançar de um lado para o outro: *"Adnan é inocente"*, *"É culpado"*, *"meu deus, é impossível chegar a uma conclusão"*.

O que é legal, porque é justamente como a própria Sarah Koenig se sente. Ela mesma faz questão de dizer em vários momentos do programa, que não sabe qual é a verdade da história. É possível perceber que ela estabelece um relacionamento com Adnan ao longo da investigação. E que ao mesmo tempo se força a manter os pés nos chão e simplesmente não começar a advogar a favor dele. Acaba sendo um pouco de jornalismo gonzo e um pouco de new journalism.

Em entrevista ao **The Guardian**, a própria Sarah Koenig afirmou que o formato de contar uma história de forma seriada é antigo. *"Não é uma idéia original. Talvez seja na forma de podcast, e tentar fazê-lo como um documentário é bem, bem difícil"*, ela disse.

> "Mas tentar fazer de forma seriada é tão velho quanto \[Charles\] Dickens".

O fato de ela usar o verbo "tentar" duas vezes é uma boa evidência de como tudo é muito experimental e nem ela sabe o resultado que terá.

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### Final decepcionante

Quando **“Lost”** acabou, muitos fãs ficaram decepcionados. Eu inclusive. Sem querer reacender a discussão aqui, mas a decepção foi basicamente porque a série era cheio de elementos intrigantes que no final não significavam nada. Deixou uma sensação de história incompleta. O autor criou o início mas não o fim. \[/colunadireita\]

\[quoteesquerda\]A temporada acaba, mas a vida de Adnan Syed e outros envolvidos continua. Os milhões de ouvintes vão ficar atentos aos jornais para saber o veredicto do recurso que será apresentado em janeiro de 2015\[/quoteesquerda\]

\[colunadireita\]Esse sentimento é justo com uma história de ficção. Mas “Serial” é sobre uma história real, que ainda está em andamento. A temporada acaba agora, em dezembro de 2014, mas já sabemos que haverá um novo recurso no tribunal em janeiro.

Esse talvez seja o aspecto mais curioso de “Serial”. Além de contar uma história que vai continuar depois que a série acabar, a própria obra se confundiu com a história. As investigações da Sarah Koenig, acabaram levando o caso a ser adotado por uma ONG que trabalha para provar inocência de condenados injustamente. E o programa pode acabar influenciando a decisão dos juízes, não só pela repercussão, mas por toda a investigação feita e contada nele.

### Repercussão

Embora a temporada acabe esse mês, a vida de Adnan Syed e outros envolvidos continua. Os milhões de ouvintes vão ficar atentos aos jornais para saber o veredicto do recurso que será apresentado em janeiro de 2015\. No **Reddit**, fãs formaram um fórum para contribuir com investigações sobre o caso, com o objetivo de realmente desvendá-lo.

Outros fãs juntaram 25 mil dólares por meio de crowdfunding para abrir um fundo escolar em nome da vítima, Hae Min Lee. E um terceiro grupo juntou as duas idéias e lançou [um projeto de crowdfunding](http://gizmodo.com/crowdfunding-idiots-want-to-hijack-serial-1671399016?ref=b9.com.br) para criar uma ferramenta que ajude a desvendar o caso.

Nas redes sociais, fãs divulgam suas próprias investigações. Existem vídeos no **YouTube** mostrando os locais do crime. A loja da **Best Buy** onde o crime alegadamente ocorreu tem agora seus comentários moderados pelo **Yelp**, pelo excesso de piadas e referências ao crime. A própria Best Buy postou um tweet infeliz sobre o assunto e depois o deletou pedindo desculpas. O cereal **Cheerios** [também postou](http://adage.com/article/media/serial-tweeters-brands-jump-npr-s-podcast/296202/?ref=b9.com.br) a clássica piadinha com as palavras *Serial/Cereal*

E até a **MailChimp**, patrocinadora do programa, [virou meme](http://knowyourmeme.com/memes/subcultures/serial?ref=b9.com.br) por causa do seu excelente spot onde uma criança pronuncia *"mailkimp"*.\[/colunadireita\]

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![Serial](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2014/12/serial5.jpg)

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### Se eu não falo inglês, o que eu tenho a ver com tudo isso?

Eu sei que eu escrevi um longo artigo falando sobre o sucesso de uma série fora do Brasil, apenas com links em inglês. Desculpe por isso. Mas eu não poderia deixar você desinformado sobre o assunto.

\[quotedireita\]Se você não puder participar do frenesi de “Serial”, sugiro que comece a acompanhar o que é feito no Brasil\[/quotedireita\]

Não dá pra legendar áudio. Mas é possível encontrar [uma transcrição do primeiro episódio aqui](http://www.thisamericanlife.org/radio-archives/episode/537/transcript?ref=b9.com.br). Um [pessoal no Reddit está se organizando](http://www.reddit.com/r/serialpodcast/comments/2jkgyf/transcripts%5Fof%5Fserial%5Fepisodes/?ref=b9.com.br) para transcrever os outros episódios. E o [**Daily Mail** fez um bom resumo](http://www.dailymail.co.uk/news/article-2830737/New-hope-convicted-murderer-brilliant-high-school-girlfriend-case-cult-podcast-hit-Serial.html?ref=b9.com.br) da história (com várias fotos). Você pode usar um tradutor online para conseguir entender tudo.

Mas mais importante do que isso é o impacto que isso traz para a produção como um todo. Se um documentário em podcast é visto como uma série de sucesso nos Estados Unidos, então o formato pode ser reproduzido aqui.

Aqui no **Brainstorm9** mesmo temos 4 podcasts semanais. O **[Braincast](https://www.b9.com.br/braincast9/)**, do qual eu participo semanalmente, e também o **[Anticast](https://www.b9.com.br/anticast/)**, o **[Mupoca](https://www.b9.com.br/mupoca/)** e o **[Mamilos](https://www.b9.com.br/mamilos/)**. O pessoal do **Nerdcast**, que é o maior podcast do Brasil há oito anos, também já experimentou com formatos de [Audiodrama](http://jovemnerd.com.br/nerdcast/nerdcast-342-audio-drama-t-zombii-a-gravacao-dos-mortos/?ref=b9.com.br) e [até RPG](http://jovemnerd.com.br/nerdcast/nerdcast-395-rpg-cyberpunk-1-o-grande-assalto/?ref=b9.com.br).

E tem muito mais coisas legais sendo produzidas em língua portuguesa. Então, se você não puder participar do frenesi de “Serial”, sugiro que comece a acompanhar o que é feito no Brasil. Quem sabe não sai daqui o próximo hype?

**\> Créditos:** Foto Equipe Serial - Meredith Heuer/[Post-Gazette](http://www.post-gazette.com/ae/tv-radio/2014/11/16/Podcast-Serial-examines-15-year-old-murder/stories/201411090050?ref=b9.com.br)