> ## Content Index
> Fetch the complete content index at: https://www.b9.com.br/llms.txt
> Use this file to discover other available public pages before exploring further.

# SXSW 2025 e o futuro do que não vai mudar
- URL: https://www.b9.com.br/sxsw-2025-e-o-futuro-do-que-nao-vai-mudar/
- Published: 2025-03-13T19:54:10.000Z
- Updated: 2025-03-13T19:54:10.000Z
- Description: Festival provoca reflexões sobre a obsessão pelo futurismo, antecipando transformações em meio a narrativas que nos levam a pensar, também, sobre a essência do que permanece
- Author: Maira Genovese
- Tags: Criatividade, SXSW, #wp, #wp-post

Em uma das sessões deste **SXSW 2025** focada na discussão sobre ferramentas para construir os negócios do futuro, os painelistas **Kate Baucherel** e **John Gauntt** – especialistas em tecnologias emergentes e cultura – receberam da plateia uma pergunta intrigante: falamos muito sobre o que vai mudar no futuro, mas por que não refletimos sobre o que irá permanecer, o que não mudará?

As conversas nos corredores e ruas de **Austin** traduzem esse sentimento. Se, por um lado, há discussões sobre as mudanças inevitáveis e os desafios trazidos por tecnologias como a Inteligência Artificial (IA), por outro, há também a compreensão de que aspectos fundamentais da existência e experiência humana tendem a permanecer centrais para a manutenção de relações e da própria sobrevivência da espécie.

Na esfera de mudanças inevitáveis, por mais que tenhamos já certa clareza sobre os desafios emergentes, a verdade é que ainda estamos, de forma coletiva, tentando entender que questões devem ser prioridade. Esse diagnóstico passa pela convicção errônea de que os impactos serão iguais para todos - ignorando elementos fundamentais para a leitura de contextos, o que gera confusão e incerteza.

No caso da IA, por exemplo, contextualização é fundamental. Em sua palestra no festival, o professor e escritor **Scott Galloway** destacou o assunto, pontuando que estamos analisando o impacto desta tecnologia pelos viesses errados - como ascensão e dominância da superinteligência e substituição de empregos. Para ele, a principal transformação está no papel que a IA pode ter sobre a autonomia humana e tomada de decisões, podendo nos tornar espectadores do próprio futuro. “Ela não vai te substituir, mas vai te tornar passivo”, afirmou **Galloway**.

![ People, Person, Crowd, Adult, Male, Man, Audience, Clothing, jeans, Pants, t-shirt](https://storage.ghost.io/c/b8/a4/b8a4ba23-e08d-42f7-b459-b1bcab5b8867/content/images/assets-b9-com-br/wp-content/uploads/2025/03/scott.jpg)

Scott Gallloway. Divulgação/SXSW

No outro lado do debate, há a certeza de que, apesar dessas mudanças, a tecnologia não é capaz de substituir a interação humana, tampouco os aspectos que nos equalizam como seres sociais dependentes de conexão em comunidade. E nada é tão humano quanto construir uma comunidade - processo que exige interesse genuíno pelo outro, consistência, compartilhamento de vulnerabilidades, escuta ativa e, acima de tudo, enxergar o mundo sob uma perspectiva empática, sob a ótica de quem está ao nosso redor. Nas nossas motivações mais enraizadas, conexão é um desejo e uma necessidade básica profundamente reconhecidos dentro do espectro humano mais primitivo.

Nesta interserção entre o novo e o (re)conhecido, existe ainda espaço para desafiar as fronteiras desses conceitos. Bruce Sterling, importante nome da ficção científica e especulativa, encorajou a audiência do **SXSW** a refletir sobre a possibilidade de usarmos novas tecnologias para reconstruir futuros imaginários do passado. Segundo ele, já estamos praticando uma espécie de "arqueologia digital" – trazendo de volta não apenas o que foi esquecido, mas também o que nunca chegou a existir. Aqui, falou-se do uso de IA para recriar máquinas projetadas nos anos 1960, nunca construídas, e para tornar funcionais objetos fictícios que nunca saíram do papel - propostas que distorcem nossa percepção sobre o significado de mudança e permanência.

Essa discussão se conecta diretamente com a ascensão do movimento de "newstalgia" discutido durante esses dias. Em um mundo saturado, a busca por conforto em elementos do passado reinterpretados sob novos formatos reflete o esgotamento do presente e o resgate de emoções e ideias por meio de estéticas e narrativas antigas. Para novas gerações, esse movimento tem sido escape das ansiedades do mundo moderno, permitindo a conexão com experiências não vividas, estimulando um espaço criativo inédito e, claro, resgatando o engajamento emocional.

A verdade é que, com tecnologias cada vez mais sofisticadas, o conceito de futuro se torna difuso, e previsões tornam-se mais complexas. Talvez por isso a importância de abordarmos, também, aquilo que permanece - nos territórios humanos, nas nossas características essenciais e na forma como costuramos a sociedade. Também na palestra de **Baucherel** e **Gauntt**, a dupla refletiu sobre a nossa obsessão com o futurismo, reforçando que, entre a habilidade de atencipar mudanças e a habilidade de controlar o que vai acontecer, há um espaço imenso. “Uma vez que algo previsto acontece, a previsão em si deixa de ter importância”.

---