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# "WandaVision" precisa do tom de mistério mais do que aparenta
- URL: https://www.b9.com.br/wandavision-critica-review-marvel-studios/
- Published: 2021-01-15T20:02:54.000Z
- Updated: 2021-01-15T20:02:54.000Z
- Description: Primeira série do Marvel Studios no Disney+ brinca com paródias de clássicos da TV norte-americana, mas força dos capítulos iniciais está mesmo nos momentos de perturbação da ordem
- Author: Pedro Strazza
- Tags: Cultura, Cinema, Disney+, etica, marvel, #wp, #wp-post, Disney, Entretenimento

É proposital e talvez um tanto autocongratulatório da parte do **Marvel Studios** que seja **“WandaVision”** o projeto escolhido para marcar simultaneamente o retorno do estúdio ao calendário de lançamentos e a primeira incursão de seu universo de heróis pelo **Disney+**. Isso porque além da “grande homenagem à história da TV” a série focada nos personagens da Feiticeira Escarlate (**Elizabeth Olsen**) e do Visão (**Paul Bettany**) também envolve na premissa uma interação muito consciente de formatos já sedimentados no mainstream norte-americano, no caso o do acesso à sitcom pelas tramas rocambolescas dos filmes da marca - que por sua vez já há alguns “capítulos” se assemelham mais e mais ao estilo de uma grande novela bilionária.

O resultado, para a absoluta surpresa de ninguém, é o pastiche. Pelo menos nos dois primeiros episódios lançados esta semana no streaming da Disney, o seriado criado por **Jac Schaeffer** e dirigido por **Matt Shakman** é bastante consolidado na ideia de se apropriar do formato envelhecido de clássicos da televisão nacional para canalizar uma narrativa de perturbações consumada desde o primeiro momento pelo espectador. É tirar da nostalgia a raiz de um pretenso normal artificial: embora apareçam desmemoriados e vivendo uma pacata vida secreta, tanto o Visão quanto a Feiticeira Escarlate se encontravam numa posição muito diferente da última vez que foram apresentados ao público, com o primeiro morto em consequência da ação do vilão Thanos e a última segura depois de salvar o mundo junto dos Vingadores durante respectivamente os eventos de [**“Guerra Infinita”**](https://www.b9.com.br/90046/vingadores-guerra-infinita-e-o-filme-que-todo-fa-de-super-herois-sonhou-na-vida-e-apenas-isso/) e [**“Ultimato”**](https://www.b9.com.br/106829/vingadores-ultimato-o-fim-e-o-legado-do-universo-marvel/).

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/01/brd-101-01352_r_crop.jpg)

O diretor Matt Shakman (à esquerda) orienta Elizabeth Olsen (ao centro) e Paul Bettany (à direita) no set

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/01/eKrIIYLswMc2bFfF1pyY6esberq.jpg)

Respostas sem dúvida são esperadas a partir desta drástica transição de cenários, mas por ser uma série é um tanto óbvio que “WandaVision” há de aproveitar esta condição como gancho de sua narrativa. Como dito anteriormente, os dois capítulos inaugurais (e o terceiro com outro clássico, segundo aqueles que já tiveram acesso prévio na imprensa) se ensaiam como recriações fiéis de **“The Dick Van Dyke Show”** e **“A Feiticeira”** para brincar com a normalidade da relação dos dois heróis, com disrupções ocasionais apontando a incongruência em movimento. Quem se diverte nessa tarefa é Shakman, cuja direção aproveita o resgate da forma antiquada para reforçar estes rompimentos, desde o uso de cores em determinados elementos ao belo momento de tensão com Fred Melamed no final do piloto - além das referências fofas nos "intervalos comerciais".

O maior acúmulo destes “acenos” no segundo episódio aponta que a tendência é desse desconforto se ampliar entre os protagonistas ao longo da temporada e na mesma progressão temporal das homenagens (os anos 50 e 60 já foram contemplados), mas o fato é que o seriado parece bem mais confortável quando incita incongruências que na revelação gradual da conspiração. Entre os capítulos iniciais, o primeiro se sai razoavelmente melhor por focar na manutenção da recriação para contextualizar o espectador, o qual o próximo já não mantém pela necessidade de forçar uma dualidade de movimentos. A série busca forçar um exercício de paranoia similar ao de [**“Rua Cloverfield 10”**](https://www.b9.com.br/64352/rua-cloverfield-10-e-uma-nova-forma-de-ver-o-apocalipse-e-as-franquias/) ao deixar o público na dúvida sobre se tal simulacro é de criação externa ou da própria Feiticeira Escarlate, mas no fim o que interessa mesmo é como esta ilusão se fragmenta.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/01/original_1610458458_WVO0360_101_comp_v013_r709_v02.jpg)

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\[quotedireita\]O seriado parece bem mais confortável quando incita incongruências que na revelação gradual da conspiração\[/quotedireita\]

Neste sentido o paralelo mais óbvio é com **“Twin Peaks”**, embora a fórmula de “WandaVision” beba de outras tantas obras da TV e do cinema que brincam com a metalinguagem da narrativa televisiva tradicional. A problematização do “mistério da temporada” já há tempos deixou de ser tema e tornou-se recurso de narrativa, e o programa tocado por Schaeffer e Shakman aposta nisso como centro gravitacional para dar algum contorno à brincadeira maior de ver dois super-heróis vivendo uma vida de subúrbio em meio a recriações de época.

Há muito a se considerar dentro desta proposta, incluindo aí o vazio existencial de tocar essas recriações sem sair da zona de conforto das críticas já feitas a tais ideais de vida (e neste momento [vale muito a leitura do texto de Tim Grierson](https://melmagazine.com/en-us/story/wandavisions-lazy-nostalgia-isnt-as-smart-as-it-thinks?ref=b9.com.br) sobre a reta inicial de “WandaVision”), mas pelo menos por agora a questão maior é saber se o seriado da Marvel é capaz de contornar o problema inevitável do seu encaixe no universo do estúdio. Se os episódios de “WandaVision” se saem melhor quando expansivos na sugestão de um mal maior ou de uma perturbação à ordem vigente, como evitar que tudo seja posto a perder dentro do engatilhamento pré-determinado com outros filmes e seriados?

O problema no fundo seria o mesmo de ver “Twin Peaks” pela primeira vez ainda nos anos 90 já sabendo da identidade do assassino de Laura Palmer: sem o mistério de seu atrativo inicial, o que sobra além de algumas referências e homenagens? A série precisa menos do drama de distorção jogado em aberto que de cenas como do engasgo e de aparições súbitas de figuras como o do apicultor.

*Os primeiros dois episódios de "WandaVision" estão disponíveis no Disney+.*

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