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# “Warcraft” parece feito para agradar fãs antigos, mas não para conquistar novos
- URL: https://www.b9.com.br/warcraft-parece-feito-para-agradar-fas-antigos-mas-nao-para-conquistar-novos/
- Published: 2016-06-04T01:22:20.000Z
- Updated: 2016-06-04T01:22:20.000Z
- Description: Fã confesso de “Warcraft”, o diretor Duncan Jones desperta no espectador a vontade de revisitar a série de jogos — mas não necessariamente de insistir na franquia no cinema
- Author: Virgílio Souza
- Tags: Cultura, Cinema, filme, review, #wp, #wp-post

Em muitos sentidos, **“Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos”** marca um momento importante na carreira de seu diretor, Duncan Jones. Reconhecido no circuito independente e elogiado pela crítica graças a **“Lunar”** e **“Contra o Tempo”**, dois roteiros originais de ficção científica levados às telas com orçamentos modestos para o gênero, o cineasta agora se torna parte de uma franquia milionária, baseada em um videogame de sucesso que conta com uma legião de fãs bem consolidada, da qual ele mesmo faz parte.

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A mudança de escala é significativa, mas os desafios não se concentram somente no tamanho do projeto e nas demandas geradas pelo grande volume de efeitos digitais, suas realizações mais evidentes. Dois outros aspectos são relevantes nesse processo: uma espécie de maldição das adaptações de jogos e a própria natureza de “Warcraft”.

![O diretor Duncan Jones, à direita, no set](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/06/war2.jpg)

O diretor Duncan Jones, à direita, no set

![Warcraft](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/06/warposter.jpg)

Jones parece ciente dos obstáculos: *“O histórico recente de filmes baseados em videogames é complicado”*, [ele reconhece](http://www.engadget.com/2016/05/30/warcraft-duncan-jones-interview/?ref=b9.com.br). Em retrospectiva, experiências desastrosas como **“Mortal Kombat”**, **“Street Fighter”** e **“Prince of Persia”** são parte da regra, não das exceções. Diante dessa realidade, a [missão do diretor](http://www.indiewire.com/2016/06/duncan-jones-warcraft-christopher-nolan-moon-mute-interview-1201682897/?ref=b9.com.br) consiste em construir um universo de fantasia interessante o suficiente para atrair não-familiarizados e, a partir daí, deixar que personagens e trama conduzam o público adiante.

Nesse sentido, o sucesso é relativo. O visual dos mundos de Draenor e, principalmente, Azeroth segue os moldes de outros exemplares da categoria: a computação gráfica cria espaços enormes e os preenche com cores e formas exuberantes, formando desde vales arrasados e montanhas congeladas até escadarias em mármore e castelos imponentes. Em termos de proporção, as imagens remetem tanto à construção da natureza de **“Avatar”** quanto às edificações da Terra Média de **“O Senhor dos Anéis”**, mas o pouco frescor alcança resultados menos inspirados, como uma versão aprimorada de **“Dungeons & Dragons”** que nunca decola.

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![Warcraft](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/06/war4.jpg)

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Passeando pelos cenários, a câmera até consegue oferecer profundidade e imersão, mas jamais se desvencilha desse aspecto derivativo. O encanto da descoberta é praticamente inexistente, porque algo muito parecido com o que está em tela já foi visto e revisto à exaustão. Há, ainda, uma estranha sensação de que o filme busca disfarçar seus efeitos computadorizados com o intuito de criar certo realismo ao mesmo tempo em que tenta emular a aparência dos videogames, que seguem um caminho bastante diferente.

\[quotedireita\]O encanto da descoberta é inexistente, pois algo muito parecido com o que está em tela já foi visto e revisto à exaustão\[/quotedireita\]

Uma vez estabelecidas as bases desse universo, porém, Jones tem a oportunidade de trabalhar seus personagens e colocá-los em ação. Novamente, méritos e deméritos se assemelham em quantidade. Criados com o auxílio de tecnologia de captura de movimentos, os orcs são mais do que simples monstros. Esse é um traço que não existe apenas no roteiro, com suas tentativas de humanizar as criaturas não-humanas, sobretudo Durotan (Toby Kebbell) e Draka (Anna Galvin), mas também em termos de movimentação, trejeitos e demais elementos de sua construção física — essa é uma vantagem do longa em relação a seus pares.

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![Warcraft](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/06/war5.jpg)

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\[quoteesquerda\]Assim como nos jogos, não há distinções muito demarcadas entre heróis e vilões\[/quoteesquerda\]

Por outro lado, é terrível a direção dos atores que surgem em carne e osso, sem o disfarce de apetrechos digitais e grandes dentes postiços. Lothar (Travis Fimmel) é um herói insosso, um sub-Aragorn que funciona pouco no drama e menos ainda no humor; Medivh (Ben Foster) passa tanta credibilidade como sábio protetor quanto Llane Wrynn (Dominic Cooper) na condição de rei; e Khadgar (Ben Schnetzer), embora tenha um pouco mais de carisma, cumpre apenas seu destino óbvio como jovem aprendiz alçado à centralidade na trama.

É uma pena que o tom do filme seja tão irregular, contribuindo para desperdiçar uma série de dinâmicas promissoras. Sua origem nos videogames, mencionada anteriormente como um dos fatores determinantes na produção, é merecedora de destaque especial nesse sentido. Em “Warcraft”, o jogador pode controlar qualquer tipo de personagem, sem distinções muito demarcadas entre heróis e vilões. Por essa razão, Jones conscientemente estrutura o roteiro (ao lado de Charles Leavitt) de modo a conferir atenção similar a orcs e humanos.

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![Warcraft](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/06/war6.jpg)

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\[quotedireita\]Embora seu esforço seja visível, Duncan Jones não consegue conferir carga dramática ao material\[/quotedireita\]

O paralelismo existente entre as duas espécies tem seu valor. As relações entre pais e filhos, guerreiros e tropas, força bruta e magia — que existem em ambos os lados — são o que o longa tem de melhor. No entanto, essas questões sofrem pelo ritmo oscilante da narrativa, que abandona lutas durante o clímax para se dedicar a subtramas absolutamente desimportantes, em decisões que enfraquecem tanto a guerra quanto o que existe além dela.

Tais elementos se atropelam constantemente, despejados aos montes sem que seja dado o tempo necessário para sua compreensão. Em certo sentido, parecem ser apenas possíveis caminhos para a franquia em eventuais continuações, faíscas que o filme, indeciso, nunca transforma em fogo. Além disso, o elo de ligação entre os povos, a mestiça Garona (Paula Patton), não justifica sua relevância como personagem, servindo somente como acessório.

É surpreendente, em um sentido bastante negativo, que Jones não consiga conferir carga dramática a esse material, repetindo o que havia realizado em situações ainda mais complicadas, como uma história de um homem só (“Lunar”) e uma mini-trama em loop (“Contra o Tempo”). Embora seu esforço seja visível, aparente tanto nas escolhas mais básicas de roteiro quanto na formatação da ação, a soma dos fatores é mais monstruosa do que humana. No fim das contas, a vontade que o filme desperta não é de revisitar a franquia nos cinemas, mas de retornar aos jogos já conhecidos — esses, sim, sinônimos garantidos de diversão.

![Nota 2 Crítico Filme](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2016/05/nota-2.png)

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