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# No novo "West Side Story", Steven Spielberg enfim faz seu filme de fã
- URL: https://www.b9.com.br/west-side-story-critica-review-spielberg/
- Published: 2021-12-08T21:23:19.000Z
- Updated: 2021-12-08T21:23:19.000Z
- Description: Remake presta contas diretas ao filme de 1961 e é muito feliz (ainda que limitado) para traduzir sua dinâmica vibrante ao cinema contemporâneo
- Author: Pedro Strazza
- Tags: Cultura, Cinema, etica, Música, steven spielberg, #wp, #wp-post

Não deixa de ser uma afirmação para lá de segura nos dias de hoje dizer que **“West Side Story”** é um clássico do cinema, mas ela também é capciosa no sentido de sugerir que a obra sozinha nasça com toda a pompa de predestinação que os desígnios do cânone impõem.

Escrevo isso não para contestar o status de prestígio do musical dentro dos confins do legado da velha Hollywood, mas para atentar à posição dita “intocável” de uma produção que é feliz também por suas imperfeições. O filme de Robert Wise e do coreógrafo Jerome Robbins persevera no imaginário sempre numa condição de apesar, afinal: apesar da falta de química do casal principal interpretado por Natalie Wood e Richard Beymer (a ponto de render prêmios aos coadjuvantes no **Oscar**), apesar do colorismo e dos comentários raciais equivocados da história, apesar até mesmo do descompasso evidente no estilo dos dois diretores, é muito difícil assistir a produção sem se deixar afetar pelo impacto emocional de sua versão nova-iorquina de **“Romeu e Julieta”**, sobretudo nos momentos finais onde a tragédia se avoluma como uma força equilibrada nos próprios pés.

Me parece ser justo dessa sobrenaturalidade que **Steven Spielberg** parte com sua versão do musical, um remake que chega não apenas com a aura do marco de cinquenta anos da primeira adaptação como da própria relação do diretor com o material - o longa é dedicado ao pai do cineasta e ele mesmo [vem recontando em entrevistas](https://www.vanityfair.com/hollywood/2020/03/a-first-look-at-steven-spielbergs-west-side-story?ref=b9.com.br) toda a relação especial que o musical da Broadway teve durante a infância. Em tempos nos quais a indústria existe cada vez mais para ressuscitar e reempacotar imagens de um passado de sucesso, o “West Side Story” de 2021 não deixa de ser mais um desses projetos que toma o original de base formada como legado, mas tal relação aqui não é unidirecional. Longe da contestação, do distanciamento e da releitura, Spielberg refaz o caminho de Wise e Robbins da sua posição de direito enquanto nome veterano da nova Hollywood, e é deste eixo de velho e novo carcomidos pelo tempo que a produção se encena.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/12/DF-30640_R3.jpg)

Steven Spielberg (à frente) no set com Rita Moreno

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/12/WSS_Ver_C_Tony_Mari_sRGB.jpg)

É importante notar a disposição desses elementos pois ela sozinha já remove o diretor do modo de operação que definiu sua safra mais “nobre” de filmes na última década, onde prestou contas de forma direta com os cinemas de sua formação - de **“Lincoln”** com John Ford a **“Ponte dos Espiões”** com Frank Capra. Por ser um remake, “West Side Story” impele menos Spielberg ao revisionismo que o trabalho de recriação, com a narrativa a todo momento buscando atuar como reflexo contemporâneo da forma precisa e muito dinâmica do filme de 61.

Assim, faz algum sentido que o ângulo político da história seja atualizado aqui para um comentário superficial da gentrificação na cidade, com as ruínas dos prédios demolidos servindo mais para remover da adaptação o fundo de cena “teatral” que tanto definiu o antecessor. A localização do musical em Nova York é apenas uma desculpa para “West Side Story” trazer a um cenário urbano a tragédia shakespeariana e no remake isso segue uma verdade máxima. Mesmo com o filme abrindo com um sobrevoo da câmera sobre os destroços, essa situação atua no exercício de refazimento discreto, de priorizar o impacto emocional dos atores da trama sobre sua contextualização na região mais vulnerável.

Não que Spielberg também caia na armadilha da sobriedade para seu primeiro musical, porém, e por esse lado o filme é de fato deslumbrante como boa parte da crítica faz parecer neste primeiro momento de recepção. Muito pelo bom trabalho de **Janusz Kaminski**, diretor de fotografia do diretor há quase trinta anos e que aqui faz com elegância a transição dos travellings definidores do cinema do cineasta para o gênero enquanto dilui as cores fortes do original com uma sensibilidade estonteante. O resultado é potente e um momento em que a câmera enquadra de cima **Ansel Egort** sozinho sobre uma poça já justifica a qualidade desse exercício, mas Kaminski ainda trabalha muito bem alinhado com **Justin Peck**, coreógrafo do Balé de Nova York que atualiza os balés de Robbins para dentro da narrativa dinâmica e dos cenários acidentados da produção de maneira adequada aos espaços maiores habitados nas cenas.

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![](https://www.b9.com.br/wp-content/uploads/2021/12/DF-01761_R2.jpg)

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\[quotedireita\]A narrativa a todo momento busca atuar como reflexo contemporâneo da forma precisa e muito dinâmica do filme de 61\[/quotedireita\]

É muito fácil se deixar levar pela fluidez dos números musicais e do drama que se encena a partir daí, mas conforme o filme avança se nota também o quanto ele atua enquanto simulacro moderno do antecessor. O novo “West Side Story” não chega a ser um vazio narrativo, mas sua condição de existência enquanto emulação não vai longe conforme os efeitos se fazem diluídos dentro da própria equação. Isso porque o esforço maior do remake mora mesmo na tarefa de tornar esta nova versão numa sobreposição da anterior, uma fantasmagoria de si mesma, e o ato mais intencional dessa prática é a presença de **Rita Moreno** como Valentina: no papel de "contraparte" feminina de Doc, um personagem desde sempre usado como perspectiva de fora dentro da briga dos Jets e dos Sharks, a atriz serve para projetar o filme de Wise e Robbins para dentro do musical de Spielberg aos olhos do espectador, ainda mais por realocá-la a outro papel de viúva cinquenta anos depois de interpretar Anita - e é justo desse sentimento de perda que busca-se remoer.

O roteiro de **Tony Kushner** nesse sentido não deixa de ser eficiente em todas as alterações da estrutura do texto da peça de Arthur Laurents, sobretudo por individualizar ainda mais o romance de Tony (Egort) e Maria (**Rachel Zegler**) dentro da história das gangues - o que é ótimo; se há uma tradução fiel da versão de 61 para 2021, com certeza é a dificuldade de obter alguma emoção romântica dos protagonistas. Além disso, é uma operação que se traduz como tentativa de desenrolar a ópera inerente do musical, com Tony ganhando um histórico mais presente na prisão e seus impulsos à violência melhor demarcados para justificar o assassinato de Bernardo (**David Alvarez**) pela morte de Riff (**Mike Faist**). Isso vale também para o musical, a ver pela escolha peculiar de localizar a canção *“I Feel Pretty”* logo após o conflito dos grupos ou a mais acertada transformação de *“Cool”* em um duelo cantado de paz e ódio. Ainda há as atenuações adequadas aos tempos atuais, vide a cena da tentativa do estupro de Anita (**Ariana DeBose)** que enfim ganha um julgamento moral sobre o verdadeiro crime em questão.

Tudo isso é interessante nos limites do remake, mas não agrega tanto à tragédia além do artifício, e este efeito resume o longa. Ausente o revisionismo, resta à direção de Spielberg apenas uma orquestração dos atos que termina um tanto desconectada dos propósitos originais, alimentada por seus gestos grandiloquentes que, apesar de continuarem muito deslumbrantes, não chegam a lugar algum dessa vez. Mesmo a encenação diferente da morte de Tony, com Chino (**Josh Rivera**) no campo de visão de Maria para acentuar a tragédia, não é capaz de evitar o desfecho frio deste “West Side Story”, um que assim como o próprio Chino desta versão é ao mesmo tempo muito operístico e pouco emocional para o próprio bem.

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\[quoteesquerda\]O esforço maior do remake mora na tarefa de tornar esta versão numa sobreposição da anterior, uma fantasmagoria de si mesma\[/quoteesquerda\]

Se tudo é muito ciente e pouco sentido, do comentário político à abordagem do material, esta posição do filme não deixa de ser um ponto peculiar dentro da carreira de Spielberg, para sempre o nome fundador da Hollywood de hoje e de toda sua cultura de produções com grande alcance e domínio, até porque sugere mesmo um puxa e repuxa interno ao diretor com o material que escapa de projetos passionais como seu **“As Aventuras de Tintim”**. Posto dessa forma, “West Side Story” se relaciona menos com seus longas “sérios” e “maduros” para funcionar como a outra ponta de um eixo formado com **“Jogador N° 1”**, pois se ali era sobre como Spielberg se relacionava com o legado maldito que formou dentro da cultura de massa, aqui ele enfim realiza o movimento prescrito na premissa da adaptação do livro de Ernest Cline e faz seu filme de fã, em todas as suas limitações (de diâmetro bem amplo, claro) e prazeres imediatos.

Mais curioso que isso só mesmo como a produção se arranja neste momento em que o gênero musical volta a ganhar força em Hollywood, e aí sim talvez seja válido lamentar pelo estranho antagonismo de elementos que acontece na leva de 2021\. Se projetos como **“Tick, Tick… Boom!”** e **“Em Um Bairro de Nova York”** sobram em substância e boas intenções o que não tem em forma, investidos demais no conforto do digital para fabricar narrativas artificiais incapazes de contemplar seus atos, “West Side Story” é o caso diametralmente oposto, o de um musical com ótima noção do que realiza com os vastos recursos à disposição, mas incapaz de ir muito além por sua proposta diminuta com o gênero.

*"West Side Story" estreia nesta quinta-feira, 9 de dezembro, nos cinemas brasileiros.*

*A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde [sobre o melhor curso de ação](https://projetocolabora.com.br/ods3/vacina-sim-mascara-e-distanciamento-tambem/?ref=b9.com.br) após completar o esquema vacinal.*

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