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Spotlight

Com discrição visual e técnica, “Spotlight” amplifica impacto dos fatos no espectador

Em direção quase neutra, Tom McCarthy evita o elogio fácil e se reserva ao “jornalismo de verdade”

12.jan.2016

⚠ AVISO: Pode conter spoilers

Durante a cerimônia de premiação da Associação de Críticos de Los Angeles realizada nos últimos dias, Aaron Sorkin (vencedor do Oscar por “A Rede Social”) aproveitou a oportunidade para definir “Spotlight – Segredos Revelados” como “magnífico” e dono de um roteiro “perfeito”. Partindo de alguém de estilo tão facilmente reconhecível, os elogios revelam bastante sobre o trabalho do diretor Tom McCarthy e de seu co-roteirista, Josh Singer, e a forma como ele tem sido recebido.

O filme, centrado no desvendar de uma série de abusos acobertados pela Igreja Católica por uma equipe especializada do Boston Globe, possui pontos de contato interessantes com “The Newsroom”, série de televisão criada por Sorkin como uma espécie de ode ao bom jornalismo (seja lá o que isso signifique para além do discurso apaixonado de seu autor). No entanto, o que chama a atenção é algo que vai além da mera comparação entre as duas obras: na era do espetáculo, da celebração e auto-celebração de cineastas e escritores espalhafatosos, muitas vezes como o mesmo Sorkin, valorizar uma observação contida dos acontecimentos parece tão urgente quanto reconhecer o valor (ético, moral, político) de suas denúncias.

O diretor Tom McCarthy, à direita

O diretor Tom McCarthy, à direita

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A confiança de McCarthy no material possibilita que seu registro seja quase neutro: não com relação aos fatos, que seu filme trata com a sobriedade necessária, mas no que diz respeito à maneira de filmá-los. As dinâmicas entre personagens se sustentam em um esquema básico de plano e contraplano que faz transbordar novas pistas e reações para movimentar a trama.

Os cenários (escritórios, bares, corredores) carregam peso pela banalidade, por falta de cor e/ou espaço (a casa de um dos jornalistas é símbolo disso) — estão sempre entre a monotonia da sala de reuniões e a escuridão da vizinhança. Trata-se de uma direção procedimental, que não chama atenção para si, a serviço de uma história procedimental, que não precisa chamar atenção para si — ou, ainda, de uma busca por discrição que é tanto dos personagens quanto do próprio diretor.

O quebra-cabeças da construção da reportagem deixa pouca margem para que o espectador complete as peças. O expediente aqui, de carga mais dramática do que de suspense, é de trilhar o mesmo caminho que a equipe do jornal: seguir pistas, confirmar informações, debater, fazer tudo outra vez. Quando Garabedian (Stanley Tucci), advogado de muitas das vítimas, pergunta por que Robby (Michael Keaton), editor da Spotlight, repete tudo o que ele diz, a resposta é precisa:

Eu gosto de deixar as coisas claras”

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A confiança de McCarthy no material possibilita que seu registro seja quase neutro: não com relação aos fatos, mas na maneira de filmá-los

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Vale notar, ainda, que a continuação do diálogo acima (“Talvez você devesse ter deixado as coisas claras cinco anos atrás” é o que retruca o advogado) insere um componente importante na discussão: a conivência geral, de mídia, população e estado, com relação aos crimes cometidos pela igreja. Esse é um aspecto tratado pelo filme de modo competente nas sequências em que o senso de comunidade parece mais evidente — quando Sacha (Rachel McAdams) observa jovens andando de bicicleta após entrevistar um suspeito, ou quando Matt (Brian d’Arcy James) deixa um aviso para os filhos na porta da geladeira.

É de se elogiar, por exemplo, que McCarthy não se renda a caracterizações brutas como padres com expressões vilanescas e criancinhas assustadas apenas para acrescentar choque visual em algo que já é escandaloso simplesmente por existir.

Momentaneamente, o olhar se desvia das ruas de Southie quando o filme decide investir no grupo central de personagens. São os casos da visita de Ben (John Slattery) a Mike (Mark Ruffalo), da situação deste último com a esposa, e das interações entre os repórteres do Globe com profissionais de outros diários, como o Herald. O diretor pesa a mão, em especial por sua falta de habilidade para administrar tensões pessoais e conduzir certas relações que, apesar de algum valor para a reportagem, possuem pouco impacto dramático.

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Também discreta, a câmera passeia em movimento pelas salas, prédios e tribunais, registrando dois tipos distintos de inquietação: a da equipe e a dos criminosos

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Embora excelente em termos gerais, o elenco sofre um pouco quando explorado separadamente, porque há trechos, como os mencionados, em que se exige deles uma individualidade que o restante do roteiro não estrutura. Nesse departamento, quem se destaca é Keaton: seu Robby é seguro nas relações com o chefe (Liev Schreiber) e o antigo colega (Jamey Sheridan) e capaz de aguentar o peso das denúncias contra funcionários do colégio em que estudou. Felizmente, a condução do fio principal da trama ajuda a evitar que tais complicações prejudiquem o encadeamento dos eventos, e a retomada do rumo no terceiro ato, apesar das distrações, é significativa.

O grande mérito de McCarthy é ser reservado, evitando o elogio fácil, igualmente inspirador e aborrecido, ao “jornalismo de verdade”. Essa opção pela retração transparece, inclusive, no trabalho do diretor de fotografia, Masanobu Takayanagi, que havia retratado as ruas de Boston recentemente em “Aliança do Crime”.

Também discreta, a câmera passeia em movimento pelas salas, prédios e tribunais, registrando dois tipos distintos de inquietação: a da equipe, por consequência das descobertas, e a dos criminosos, pelo ineditismo do confronto. A lógica se completa quando o foco retorna para a newsroom e tudo se aquieta — é a hora de organizar as ideias, como no processo de recolha que sucede a disseminação.

Retornando à frase de Sorkin, é possível imaginar que o elogio se dê pela proximidade de discursos e pelo distanciamento de estilos. “Spotlight” é mais forte por isso: McCarthy e equipe completam sua parte do procedimento com competência, sem alarde maior do que o necessário, e deixam que a audiência dê conta do impacto, ampliado pela dureza dos próprios fatos.

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