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Oscar 2016: entre o retrocesso e o regresso

Quem deve levar o pequeno homem dourado no ano mais imprevisível (e polêmico) dos últimos tempos

26.fev.2016

Retrocesso

Quatro minutos e trinta e cinco segundos: é essa a duração do curto vídeo que reúne todos os vencedores negros da história do Oscar, com direito a cenas dos filmes que renderam suas indicações e trechos de seus discursos de agradecimento. A um só tempo, a falta de representatividade na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é falha histórica, problema crônico e sintoma de uma indústria que ainda se recusa a reconhecer a diversidade.



Pelo segundo ano consecutivo e pela primeira vez desde o biênio 1998-99, todos os indicados nas categorias de atuação são brancos. “Straight Outta Compton”, cinebiografia do grupo de rap N.W.A., foi lembrado apenas pelo trabalho de seus roteiristas — brancos. “Creed: Nascido Para Lutar”, carregado pela força de Michael B. Jordan e a direção segura de Ryan Coogler, ambos negros, acabou recebendo somente uma indicação, para seu ator coadjuvante — branco. Idris Elba, tratado como um dos potenciais concorrentes no início da temporada, se tornou o primeiro da história a levar o prêmio do Sindicato dos Atores e sequer ser indicado ao Oscar, juntando-se às omissões mais claras de 2015, como David Oyelowo e Ava DuVernay (respectivamente, protagonista e diretora de “Selma”).

A falta de representatividade na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é falha histórica

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Muito em função da pressão exercida por figuras como Spike Lee e Jada Pinkett Smith, que conduziram a campanha #OscarsSoWhite a outro patamar, mudanças com o intuito de promover uma renovação no quadro de membros da Academia foram anunciadas nas últimas semanas, mas os gritos por boicote ainda ecoam, com promessas de marchas em diversas cidades americanas, incluindo Los Angeles, sede da festa, e enorme expectativa pela atuação de Chris Rock, apresentador desta edição.

A raiz do problema, no entanto, segue carente de solução. Faltam, na indústria, papéis e oportunidades que correspondam à variedade de posições ocupadas por não-brancos em todos os segmentos da sociedade. É alarmante notar, por exemplo, que as três últimas atrizes negras premiadas (Lupita Nyong’o, Octavia Spencer e Mo’Nique) venceram por papéis que podem ser resumidos, nesta ordem, como escrava (“12 Anos de Escravidão”), empregada doméstica (“Histórias Cruzadas”) e mãe abusiva (“Preciosa”).

Igualmente estarrecedor é perceber de que o Oscar entrou na contramão da história nos últimos anos.

O progresso da virada do século, evidente pelo salto no número de indicações para não-brancos (foram 17 nos anos 90 e 29 nos 2000), agora chega a um momento complicado. Passada mais de metade da atual década, apenas sete negros (de um total de 120 profissionais indicados) foram lembrados nas quatro categorias de atuação, e somente dois subiram ao palco para buscar uma estatueta.

O retrocesso se torna gritante na comparação com o passado recente. Em entrevista ao programa Good Morning America, Will Smith comentou o problema com base em sua experiência: nas duas vezes em que foi indicado, em 2002 e 2007, o ator perdeu para colegas negros (Denzel Washington e Forest Whitaker). “Para mim, aquilo foi gigante. Mas parece que estamos indo na direção errada”, disse.

Hoje, um cenário como este parece utópico, e avaliações semelhantes ou ainda mais desoladoras podem ser feitas no que diz respeito a outras minorias, como latinos (Iñárritu é o único nas principais categorias) e pessoas LGBT (a artista Anohni, autora da canção de “Racing Extinction”, se tornou a segunda transexual indicada ao prêmio na história, mas não foi convidada pela Academia para se apresentar na cerimônia, como farão Lady Gaga, The Weeknd e Sam Smith, e escreveu uma carta poderosa anunciando boicote).

A urgência da busca por maior representatividade é uma questão de humanidade. Do contrário, a realidade continuará sendo uma seleção de indicados “mais branca que uma luta entre um Yeti e Tilda Swinton debaixo de uma nevasca”, nas palavras do apresentador e comediante John Oliver.

Oscar

O Regresso (e outras coisas)

Tratando dos indicados nas principais categorias e sem o intuito de necessariamente prever o futuro, algumas curiosidades saltam aos olhos. Caso confirme o favoritismo e desbanque George Miller (“Mad Max: Estrada da Fúria”), Alejandro G. Iñárritu (“O Regresso”) se tornará apenas o terceiro diretor premiado duas vezes consecutivas, unindo-se a John Ford (“As Vinhas da Ira” e “Como Era Verde Meu Vale”, 1940-41) e Joseph L. Mankiewicz (“Quem é o Infiel?” e “A Malvada”, 1949-50). Outro que deve se tornar recordista é Emmanuel Lubezki, favorito a conquistar o prêmio de melhor fotografia pela terceira vez seguida, após vitórias por “Gravidade” e “Birdman”. Ele deverá somar mais uma estatueta na conta de “O Regresso”.

A ansiedade que têm ocupado as discussões deste ano é compreensível, mas injustificada: aos 41 anos, DiCaprio ainda deve ter uma longa estrada repleta de troféus pela frente

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Leonardo DiCaprio, o protagonista do filme, deverá mesmo conquistar seu primeiro Oscar após cinco indicações (três como ator principal, uma como coadjuvante e outra como produtor). A ansiedade que têm ocupado as discussões deste ano (e a internet) é até compreensível, mas parece injustificada: aos 41 anos, ele ainda deve ter uma longa estrada repleta de troféus pela frente. Na comparação com nomes históricos do cinema, a pressa faz ainda menos sentido. John Wayne e Henry Fonda só ganharam o Oscar depois dos sessenta, Paul Newman ganhou um honorário antes de ganhar um de verdade e o próprio Jack Nicholson, que é um dos recordistas entre os homens, com doze nomeações e três vitórias, ganhou seu primeiro quando tinha quase 40 anos, bem próximo da idade que DiCaprio tem agora.

Oscar

“O Regresso” é líder no número de indicações, aparecendo em 12 categorias. O segundo filme mais celebrado é “Mad Max”, com dez. Curiosamente, nenhum deles aparece entre os roteiros, que têm “Spotlight” (original) e “A Grande Aposta” (adaptado) como francos favoritos. Das cinco adaptações, aliás, apenas Carol não emplacou como melhor filme; já entre aqueles escritos para a tela, há três longas nessa condição: “Straight Outta Compton”, “Ex Machina” (também indicado em Efeitos Visuais) e “Divertida Mente” (aposta segura entre as animações).

Sylvester Stallone deverá receber as honras e repetir o momento de aclamação já visto no Globo de Ouro

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Certeira também parece ser a vitória de Brie Larson (“O Quarto de Jack”) como melhor atriz. Ela pode se tornar a primeira desde Sandra Bullock (“Um Sonho Possível”), em 2010, a conquistar o prêmio na categoria logo em sua primeira indicação pela Academia. Entre as coadjuvantes, é mais difícil ter tantas certezas. Alicia Vikander (“A Garota Dinamarquesa”), que também nunca havia sido indicada, surge como favorita após o prêmio do Sindicato dos Atores, mas pode sofrer por ter trocado de categoria durante a temporada — ela havia sido lembrada como atriz principal no Globo de Ouro e no BAFTA. Em ambos os casos, quem venceu como coadjuvante foi Kate Winslet (“Steve Jobs”), que aparece logo atrás na corrida ao lado de Rooney Mara (“Carol”).

Entre os homens, Sylvester Stallone (“Creed”) deverá receber as honras e repetir o momento de aclamação já visto no Globo de Ouro. É apenas a terceira indicação ao Oscar de sua carreira, mas alguns fatos já são dignos de nota: em 1977, com “Rocky: Um Lutador”, ele se juntou à dupla formada por Charles Chaplin (“O Grande Ditador”) e Orson Welles (“Cidadão Kane”) por ter sido lembrado como ator e roteirista no mesmo ano. Agora, se junta a outro seleto grupo: o de atores indicados duas vezes pelo mesmo personagem. Bing Crosby, Peter O’Toole, Al Pacino, Paul Newman e Cate Blanchett haviam conseguido o feito antes do lutador.

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