“Green Book” é a versão edificante (e vazia) do cinema dos irmãos Farrelly

Despido da provocação que acompanha seus filmes, Peter Farrelly se vê dependente da simpatia do elenco para recontar história de amizade de Frank Vallelonga com o músico Don Shirley

por Pedro Strazza

Existe um certo grau de franqueza por trás do prólogo de “Green Book: O Guia”, que logo nos primeiros movimentos da produção decide “adentrar” por uma boate típica dos anos 50 e 60 para encontrar uma banda de jazz que toca uma versão de “That Old Black Magic” de Frank Sinatra. O convite ao espectador é bastante evidente: retornemos ao passado onde as preocupações eram mais claras e mais fáceis de serem resolvidas, parece dizer o filme; permita que a “velha magia” te encante novamente.

Se este ato por um lado não deixa de ser parte de uma prática quase ritualística do público (há quem argumente que o cinema se faz no escapismo, mesmo quando direcionado a temas contemporâneos), aos olhos de Peter Farrelly a medida não deixa de oferecer um conjunto de vantagens propício a quem se encontra em um momento diferente na carreira. Acostumado com a presença do irmão Bobby e às convenções e liberdades da ficção das comédias de estúdio, o diretor não só está pela primeira vez sozinho no comando de um projeto como também lida aqui com uma trama fortemente calcada na realidade, adaptando para as telas a história da amizade entre o pianista Don Shirley e Frank Vallelonga, homem que por algum tempo serviu de guarda-costas e motorista do músico – e o fato do roteiro ter sido escrito em parceria com Nick Vallelonga, filho de Frank, e baseado em entrevistas e cartas de ambos parecem vir como uma espécie de chancela que garante que o cineasta mantenha-se ligado aos “fatos”.

É uma mistura um tanto inusitada, ainda mais dado o perfil do projeto e de quem o comanda. Se “Green Book” busca a padronização de seus atos perante o molde tradicional das cinebiografias, a carreira que Farrelly construiu ao lado do irmão no cinema vai na via oposta, pautando-se exclusivamente de comédias que sempre buscaram o chiste e a afronta às convenções adquiridas pela sociedade. É este conflito, no fundo, que move as atenções do público sobre o longa, mesmo a produção buscando acima de tudo o conforto da mais básica conciliação.

O diretor Peter Farelly (de colete verde) conversa com o elenco no set

“Green Book”, afinal, não deixa de ser um filme que mira no passado a resolução mais fácil dos problemas do mundo atual, especialmente por conta de sua premissa que desde sua passagem pelo circuito de festivais vem despertando comparações com produções como “Conduzindo Miss Daisy” e “Intocáveis”. São paralelos inevitáveis, até porque, a exemplo da relação de Miss Daisy com seu chofer Hoke e do tetraplégico Phillipe com seu enfermeiro Driss, o relacionamento entre Frank (Viggo Mortensen) e “Doc” Shirley (Mahershala Ali) busca uma mesma alegorização que traduza na tela a questão do racismo em chave humanitária, promovendo pelo trabalho o contato entre personagens avatares do negro e do branco para alcançar uma espécie de resolução espiritual ao preconceito – neste caso, a única diferença a princípio seria a inversão de posições, colocando o branco na posição de empregado do negro.

Nas mãos de Farrelly, entretanto, esta proposta é convertida para relações de classe, uma ideia que ao mesmo tempo lhe dá mais conforto narrativo e distorce as implicações da trama. A primeira se dá como facilitador por uma questão de repetição: o diretor, aqui, repete de seus trabalhos anteriores o jogo de estereotipações entre ricos e pobres, pintando a amizade entre os dois protagonistas como a intersecção de dois mundos distintos. Enquanto Frank é a síntese do “bronco” italiano, Shirley é o mauricinho engomadinho, duas representações bem caricatas que servem a Mortensen e Ali como pontos de partida para construir e revelar ao espectador novas camadas dos personagens à partir de suas interações.

O diretor repete de seus trabalhos anteriores o jogo de estereotipações entre ricos e pobres

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Mas se este redirecionamento temático do longa mune a narrativa de Farrelly de um conjunto de ferramentas melhor conhecidas por ele, é ela também que leva o filme a romper com a própria proposta, muito porque a divisão da obra entre questões raciais e de classe nunca chega a ser unificado em qualquer ponto da estrutura. Se a viagem feita pela dupla protagonista pelo sul dos Estados Unidos tem por propósito confrontar os “avanços” feitos por Shirley por conta de seu sucesso artístico – e não faltam momentos no tour que exalem este vazio, como quando o músico vê um grupo de negros trabalhando no campo de forma servil – a dinâmica entre contratante e contratado prefere jogar em cima da falsidade da posição de prestígio assimilada pelo jazzista, que traça um arco de reatamento com os laços sociais pela convivência com o motorista pobretão e pai de família. É uma verdadeira muralha chinesa que se constrói entre as duas partes, como se alguém se propusesse a contar a história de Ebenezer Scrooge dentro de uma variante simpática de “No Calor da Noite”, em busca de uma moral reconciliadora capaz de ofender ninguém.

Não é à toa, então, que “Green Book” em determinada altura passe a girar em falso em torno de suas questões, ainda mais quando alimentado pelas restrições impostas por Farrelly ao próprio cinema escrachado. Isso porque ao invés da provocação e do absurdo o diretor almeja no longa a saída mais digna, incorporando da realidade os desfechos que “salvem” os personagens (e, por consequência, o público) das situações de racismo por resoluções capazes de não afetarem o cenário ao seu redor. Se o artista não pode comprar roupas na loja para brancos, só resta abandonar o local sem testar nada; se a dupla principal é presa por uma resposta inconsequente do motorista ao preconceito de um dos policiais, uma ligação aos poderosos é o que basta para acabar com o problema; e se o maitre do restaurante onde Don iria se apresentar se recusa a permitir que ele jante no salão, só resta desfazer o combinado com o estabelecimento de elite e por vingança se apresentar na concorrência destinada aos negros “do povo”.

O filme é como se alguém quisesse contar a história de Ebenezer Scrooge dentro de uma variante simpática de “No Calor da Noite”

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Se por um lado esta decisão em teoria confere prestígio e superioridade moral ao julgamento da mensagem de união do filme, por outro fica claro como ele perde fôlego sem as crescentes mais energéticas da comédia tipicamente ácida de Farrelly, o que por sua vez só ressalta o caráter morno e repetitivo da história. Tudo que interessa a “Green Book” é a elevação de espírito que acontece nos entornos da amizade entre Frank e Don, mas a recompensa no final da jornada termina soando sem qualquer tom edificante porque seus personagens nunca parecem terem confrontado (ou sido confrontados em) suas crenças e valores.

Resta ao elenco, então, carregar nas costas toda a tarefa de criar qualquer cumplicidade entre o espectador e os personagens, uma medida que no fim – como sua trajetória no Oscar bem sugere – talvez seja quem redima o longa perante seus propósitos aos olhos da audiência. Em tempos difíceis e que exigem soluções mais elaboradas a problemas de natureza complexa, afinal, nada pode ser melhor que uma “velha magia” simpática que reitere ao público como tudo vai acabar bem.

nota do crítico

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