“Vice” faz estudo pretensioso e errático da política americana

Novo filme de Adam McKay é complementar ao que foi iniciado pelo diretor em "A Grande Aposta"

por Matheus Fiore

Vencedor do Oscar de roteiro adaptado em 2016, o filme  “A Grande Aposta” foi uma grande virada na carreira de Adam McKay, que antes era popularmente conhecido por comédias despretensiosas, como “O Âncora”. De despretensioso, “A Grande Aposta” não tem nada. É um filme que se propõe a situar o espectador em um dos mais complexos e técnicos cenários possíveis: a crise financeira gerada pelo estouro da bolha imobiliária americana em 2008. De forma didática, verborrágica e descontraída, McKay obteve sucesso principalmente pelo roteiro, que se aproveita do humor para constantemente quebrar a quarta parede, facilitando uma comunicação direta e expositiva sem que isso soe forçado.

Outro aspecto essencial para o funcionamento da obra é seu estilo de filmagem e montagem: com uma câmera que quase nunca mantémseu eixo fixo e com cortes rápidos que retalham a imagem, “A Grande Aposta” funciona justamente por despejar informações de forma didática e, mesmo assim, conseguir fazer a narrativa funcionar tanto para os que compreendem plenamente como funciona a bolsa de valores americana, como para quem apenas tem uma ideia superficial baseada no que a própria obra nos entrega.

“Vice”, novo filme de McKay, acompanha uma história bem diferente, mesmo trazendo uma linguagem similar. Dessa vez, o escopo é fechado não em um evento, mas na mente por trás de um evento: o ex-vice-presidente americano Dick Cheney (Christian Bale). Seguimos a carreira de Cheney do momento no qual sua esposa, Lynne (Amy Adams) lhe dá um ultimato quanto a seu comportamento irresponsável e inconsequente, que o faz mudar de vida e, posteriormente, tornar-se o vice-presidente dos Estados Unidos, até o fim de seu período como político, em 2008. Em suma: vemos a transformação de um sujeito sem perspectiva em um dos grandes manipuladores do jogo político estadunidense.

Adam McKay (de casaco mostarda) orienta o elenco no set

Pelo fato de Cheney ser um sujeito enigmático e fechado, há pouquíssimo material disponível acerca de suas conversas, planos e feitos, e o próprio longa-metragem admite a dificuldade em apresentar reconstruções precisas dos fatos. Portanto, a escolha de Adam McKay é por assumir seu filme como uma tentativa de chegar a alguma verdade por meio de mistura de imagens de arquivo e ficção encenada. O objetivo não é apresentar um estudo aprofundado da carreira de Dick Cheney, mas compreender sua ascensão e importância para algumas das decisões políticas mais importantes do século. Cria-se, então, um universo no qual o filme opera de acordo com os pensamentos do narrador (Jesse Plemons) e, portanto, tem uma visão dos fatos inevitavelmente influenciada – muito do que é projetado é deliberadamente caricaturado, porque McKay admite a impossibilidade de compreender o que de fato aconteceu naquele ambiente.

Ao tentar desenvolver a trama de Cheney enquanto segue os desdobramentos dos atentados de 11 de setembro de 2001, “Vice” encontra seus maiores problemas. O roteiro parece indeciso: não sabe se foca exclusivamente no seu protagonista, na contextualização política do período, ou em criar uma espécie de estudo dos elementos que possibilitaram as crises políticas da atual década acontecerem. O texto, assinado pelo próprio McKay, tem sérios problemas de foco, e, por ir e voltar dos assuntos, acaba por não desenvolver suficientemente nenhum deles. O resultado é um filme que, mesmo que deixe suas intenções políticas bem claras, não consegue fazer nada com tais ideias se não pelo uso de frases projetadas na tela, algo totalmente anti-cinematográfico e simplista demais.

McKay tenta chegar a uma verdade por meio da mistura de imagens de arquivo e ficção encenada

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No papel principal, Christian Bale acaba sendo um dos principais atrativos de “Vice”. Construindo um personagem que sempre é influenciado pelo meio em que está, Bale opta por uma postura que, inicialmente, é mais observadora, e, posteriormente, mantém uma personalidade introspectiva, mas torna-se manipuladora. É interessante observar, por exemplo, que algumas das grandes tramas políticas de Cheney acontecem por baixo dos panos, fora do alcance da câmera, o que faz com que o próprio espectador se sinta distante daquele personagem. O Cheney de Bale não é um sujeito que se esforça para conquistar pelo carisma; na verdade, ele é um personagem símbolo do cenário político americano: absorve tudo que ouve e se molda de acordo com essas situações. Não é de se espantar, portanto, que, quando o protagonista demite um amigo, este comente: “não posso te julgar, em seu lugar eu faria o mesmo”. A faceta política Cheney é, do começo ao fim, um produto da Casa Branca.

O universo inteiro da obra de McKay lança um olhar extremamente cínico para o mundo político americano. Bem como fez quando retratou com desdém o submundo de Wall Street em “A Grande Aposta”, aqui o cineasta vê todo o cenário político como um jogo essencialmente patético. A diferença de “Vice” é que essa visão de que tal universo é ridículo se faz presente não só na narração ou na montagem, mas na própria construção da mise-en-scène. Sam Rockwell, por exemplo, encarna um George Bush cômico, de feições caricatas e atitudes infantilizadas, como o foco no pote de M&Ms que o político mantém em sua mesa.

O universo inteiro da obra de McKay lança um olhar extremamente cínico para o mundo político americano

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O que torna “Vice” diferente de “A Grande Aposta”, porém, é que, se o filme de 2016 disseca um evento com o máximo de detalhes para o espectador, o de 2018 trabalha de forma manipulativa, pois isso serve ao propósito de seu protagonista. A ideia de McKay é apresentar a política como um espaço de múltiplos interesses financeiros, e o diretor faz isso evidenciando como Cheney e a empresa na qual foi CEO, a Halliburton, teve uma valorização estrondosa graças às escolhas políticas do próprio Cheney. Enquanto “A Grande Aposta” partia do dinheiro para chegar a uma crise estrutural, “Vice” parte da política para chegar a uma questão econômica.

Essa diferenciação faz de “Vice” o oposto e complemento de seu antecessor. É um filme que, apesar de ambientar-se na política por quase toda sua metragem, nos mostra como, por trás das cortinas, o denominador comum de todas as decisões é o dinheiro. McKay parece interessado em compreender como o atual estágio do capitalismo se tornou não só predatório, mas tóxico e incontrolavelmente corrupto. De despretensioso, McKay não tem nada, mas até que o cineasta é bem-sucedido nesse estudo das engrenagens da América do século XXI, mesmo que o apego à estilização impeça que análises mais profundas sejam desenvolvidas.

nota do crítico

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