“Velvet Buzzsaw” é tão vazio quanto o mundo que se propõe a criticar

Novo longa de Dan Gilroy é superficial em suas críticas e indeciso quanto ao seu tom

por Matheus Fiore

Dan Gilroy é um diretor com uma carreira ainda curta, mas que já conquistou certa notoriedade na indústria. Seu primeiro longa-metragem, o ótimo “O Abutre”, de 2014, o alçou ao estrelato rapidamente. Na trama, Jake Gyllenhaal (em seu melhor trabalho até hoje) vive um aspirante a cinegrafista que, durante as madrugadas, dirige sua van em busca de acidentes ou crimes para, então, filmá-los e vender para a televisão. A sátira, obviamente, desdenha dessa busca pelo sucesso e do sujo mundo do entretenimento televisivo. “Velvet Buzzsaw”, terceiro trabalho de Gilroy – que em 2017 ainda lançou “Roman J. Israel”, com Denzel Washington –, retoma o modelo de sátira para, dessa vez, falar sobre o mundo da arte.

A primeira cena de “Velvet Buzzsaw” é uma introdução eficiente não só dos personagens, mas de todo o universo no qual a trama está ambientada. Acompanhamos a chegada de Morf Vandewalt (Gyllenhaal) a uma exposição de arte. Morf é um renomado crítico de arte e chega para analisar as últimas peças exibidas pela curadora Rhodora Haze (Rene Russo). Na cena, a câmera altera sua perspectiva a todo momento, alternando entre os pontos de vista de Morf, Rhodora e dos outros personagens principais, como a assistente de Rhodora, Josephine (Zawe Ashton), o artista Piers (John Malkovich) e algumas outras figuras peculiares como Gretchen (Toni Collette).

A trama de “Velvet Buzzsaw” tem seu ponto de virada quando Josephine encontra, na casa de um vizinho morto, uma pequena coleção de obras de arte inéditas. As obras conquistam a atenção de Josephine e das demais pessoas do meio, e acabam inaugurando uma nova e bem sucedida exposição. O problema é que essa coleção atrai uma maré de eventos estranhos, que colocam em risco a vida de todos os personagens. “Velvet Buzzsaw”, então, acompanha um pouco de cada um desses personagens em suas rotinas e como eles reagem aos terrores trazidos pela “maldição”.

Essa alternância de pontos de vista é uma característica constante ao longo da narrativa. Se analisarmos sob uma estrutura clássica de roteiro, o protagonismo da obra reside nas mãos de Josephine. Na prática, porém, a obra alterna entre ela, Mort, Rhodora e Piers ao longo de seus quase 120 minutos. Mesmo que não seja necessariamente um problema, essa falta de foco em um só personagem acaba sendo um dos equívocos de Gilroy na condução de “Velvet Buzzsaw”, já que mesmo que os personagens vivam em ritmos parecidos, cada um tem um objetivo diferente e, portanto, a trama diversas vezes parece não estar sendo desenvolvida, apenas reiterando a mesma ideia sem aprofundar nem ela, nem os personagens. A escolha de um dos personagens para guiar a trama ou até mesmo o uso de cada um deles para desenvolver um pouco da crítica que norteia o roteiro poderiam trazer melhor refinamento para a narrativa.

A ideia de Gilroy é utilizar os múltiplos personagens para construir uma exposição na qual exibe os diferentes “personagens” do meio artístico. O crítico prepotente, esnobe e muitas vezes sem critério de Gyllenhaal; o artista arrogante e pseudo-intelectual de Malkovich; as figuras da indústria da arte representadas pelas personagens de Ashton, Russo e Collette. Sátiras do tipo não são novidade no cinema. No ano passado, um dos finalistas do Oscar de Filme em Língua Estrangeira e vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o sueco “The Square – A Arte da Discórdia”, de Ruben Östlund, também analisou o mundo da arte, mas mais focado no pós-modernismo e na perda de tato da sociedade europeia do século XXI.

A primeira cena é uma introdução eficiente não só dos personagens, mas de todo o universo da trama

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Gilroy, mesmo que tenha feito críticas ao capitalismo em “O Abutre” – as motivações do protagonista são definidas por meio de planos que mostram o desejo do personagem por bens como carros e jóias –, passa longe de uma abordagem similar a de Östlund. A ideia é focar exclusivamente na sátira da indústria e ignorar alegorias políticas ou sociais, mesmo que seja impossível não pensar nelas ao se observar o olhar desesperançoso e julgador de Gilroy.

O problema é que até mesmo essa sátira é feita de forma extremamente superficial, pois o roteiro se contenta em apontar o quanto a sociedade artística é vazia, arrogante e hipócrita, mas nunca desenvolve nenhuma ideia a partir disso. Não há um diagnóstico da situação nem interesse em apontar caminhos e, pior, não há um bom uso da situação criada. Todas as críticas feitas são as mais superficiais possíveis – ao ponto de os personagens mais arrogantes da obra terem como toque do celular composições de Vivaldi e Beethoven, para pontar o quão elitista é aquele universo.

Em vez de fazer todo o peculiar universo criado funcionar em prol do desenvolvimento de uma ideia central, “Velvet Buzzsaw” só consegue mesmo é reiterar as mesmas ideias por duas horas. É um longa que, após construir um universo interessante e apresentar personagens com potencial, faz todos eles se curvarem diante de um cenário de terror que nunca é plenamente aproveitado.

O filme faz seus personagens se curvarem diante de um cenário de terror que nunca é aproveitado

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Conforme o terror se torna o gênero dominante de “Velvet Buzzsaw”, nem mesmo a análise da indústria feita pelo roteiro consegue sobreviver. Vemos uma total sobreposição da forma sobre o conteúdo, e as ideias de Gilroy esmaecem enquanto a obra fica mais violenta. As críticas desaparecem enquanto os personagens passam a ser apenas potenciais vítimas em um cenário slasher. Também prejudica a obra o fato de o terror e a sátira nunca se unirem de fato. São duas chaves que parecem existir paralelamente, com a narrativa alternando entre ambas até que só uma exista. No fim das contas, o que temos é, no máximo, personagens caricaturais em um cenário de horror – o que, claro, não é um problema, mas deveria ser melhor aproveitado para desenvolver e aprofundar ideias.

Se pelo menos “Velvet Buzzsaw” se assumisse como uma obra de terror, certamente poderia ser um longa mais bem sucedido. Infelizmente, a impressão que passa é que a obra fica no meio do caminho em todas as ideias apresentadas. Dan Gilroy constrói, com um modelo de narrativa dependente do elenco coral para criar essa exposição de situações que servem de ponte para criticar a indústria, um filme que acredita ter muito a dizer, mas que pouco diz de fato. É, no fim das contas, um filme tão oco e superficial quanto a sociedade artística que se propõe a criticar.

nota do crítico

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