SXSW 2019: Você já ouviu falar de infraestrutura social?

Palestras de áreas diferentes do festival atentam para a importância crescente de espaços públicos comunitários em uma sociedade dominada pelas redes sociais

por Juliana Vilhena Nascimento / Chief Business Officer da F.biz

Hoje eu ouvi duas palestras que de alguma forma tangenciaram o assunto da infraestrutura social, por ângulos completamente diferentes.

Infraestrutura social é um conceito estabelecido entre arquitetos e urbanistas e basicamente define que bons espaços públicos – praças, bibliotecas, parques – são fundamentais pra saúde social e relacional dos habitantes de um bairro ou cidade, e por isso devem ser parte de qualquer plano diretor que deseje ser levado a sério. 

Erik Klinenberg, da NYU, contou que existe uma pesquisa cientifica feita por uma universidade em Chicago que estabeleceu correlação positiva entre longevidade média dos habitantes de um bairro e a quantidade de áreas comuns que ele possui. Bairros com maior infraestrutura social rendiam 5 anos a mais de vida aos seus habitantes. Como bem disse Esther Perel no SXSW 2018, é “a qualidade dos seus relacionamentos que determina a qualidade da sua vida”

Mesmo com estes dados, Klinenberg subiu ao palco aqui para alertar os americanos de uma triste realidade: o poder público parou de fundear a criação e manutenção destas estrutura. Segundo ele, isto aconteceu por duas razões, sendo a primeira que “não há business case que justifique estas despesas em tempo de recursos públicos escassos”. A segunda, ainda mais grave, é a de que com o advento da tecnologia as redes sociais se candidataram a tomar este lugar.

Mas, como sabemos, de boas intenções o inferno está cheio, não é mesmo? 

Foi esta a tônica da conversa entre Nicholas Thompson, da Wired, e Roger McNamee, antigo mentor de Mark Zuckerberg agora transformado em defensor de políticas antitruste e autor de “Zucked”

McNamee defende o fim do modelo de negócio estabelecido pelas 4 grandes, em que o usuário e seus dados privados são o motor de monetização. Falou sobre a importância de termos poder de veto cada vez que nossos dados são transacionados, sobre como se faz necessário decentralizar a tecnologia – por exemplo, criando alternativas à Amazon Web Services, aos social sign-ins e sobre o enorme dilema ético que envolve a integração de dados biométricos. 

Como solução pra esta confusão que está tirando o nosso controle sobre nossa própria privacidade, ele sugere descentralizar informações e transações (dá-lhe blockchain!), abrir bases de dados governamentais e promover o micro-empreendedorismo utilizando inteligência artificial como plataforma, incentivando a pesquisa nas universidades pra tentar quebrar este triopólio ou tetrapólio que se estabeleceu no Vale do Silício. 

E é justamente aqui que os assuntos se cruzam novamente: quebrar a hegemonia do Facebook, por exemplo, pressupõe encontrar alternativas de infraestrutura social. Afinal, se as pessoas dizem que usam as plataformas pra se conectar, precisamos dar alguma alternativa a elas. É aí que o ciclo fecha: se o poder público voltar a fundear novos modelos de infraestrutura social, talvez a gente consiga. 

Afinal, diz Klinenberg, é no mínimo curioso que os campus das 4 grandes tenham tantos espaços de convivência cuidadosamente planejados e executados sem fazer nenhuma economia. É a melhor prova de que as pessoas ainda preferem conversar cara a cara ao invés de trocar mensagens num app.

> Confira a cobertura completa do B9 na SXSW 2019

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