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SXSW 2019: Como podemos nos libertar da prisão da nossa perspectiva

Palestra no evento revelou como a perspectiva pode moldar nossas vidas

por Juliana Wallauer

Roger Birkman era um menino introvertido e observador. Sua timidez fazia as interações com outras pessoas serem um desafio, ao mesmo tempo que criavam um fascínio por analisar o comportamento de quem aparentemente vencia esse obstáculo com facilidade e alegria. Durante a época em que foi piloto do Exército, Birkman ficou fascinado pela diferença entre os relatos de pessoas que participavam da mesma missão, compartilhando o mesmo espaço, no mesmo tempo.

Esse foi o ponto de partida para um vida estudando como a perspectiva molda nossas vidas. 

Os estudos de Birkman apontam que nascemos com uma lente que filtra o jeito que vemos o mundo. Esse filtro não é formado pelas experiências que vivemos, ou pelas escolhas que fazemos, nem é alterado pelo que aprendemos: ele faz parte de quem somos. Todas as informações que recebemos, tudo o que vivemos passa por esse filtro. Essa lente está sempre presente, e vai nos acompanhar por toda a vida; é ela que define nossa personalidade. Mas apesar de ser onipresente, essa lente não é transparente para nós, e essa combinação pode fazer da nossa perspectiva a nossa prisão.

Um dos motivos da perspectiva ser limitante é que interpretamos o que sentimos como uma verdade absoluta. O que vemos é um fato. Não somos capazes de ver por outra perspectiva. Então se alguém não enxerga o mesmo que nós, vamos dizer que a pessoa está errada. E imediatamente buscar alguém que perceba a realidade da mesma maneira que percebemos. 

Essa é a definição de viés cognitivo – procuramos no mundo evidências que confirmam o que a gente já acredita. Cada um de nós está captando uma parte microscópica da realidade. Mas não percebemos isso. Acreditamos que estamos vendo tudo. O exemplo mais famoso de choque de percepção é o caso do vestido, que causou polêmica quando dividiu o mundo entre quem via as cores branco e dourado e quem via as cores preto e azul.

Esse viés é um atalho cognitivo e nos trouxe benefícios evolutivos que nos ajudaram a sobreviver. Mas conforme nossas interações com pessoas aumentam e ficam mais abrangentes – quanto mais diversidade trazemos para nossas relações – mais esse viés pode nos prejudicar.

Por isso precisamos ser muito intencionais em não apenas procurar o que confirma a nossa perspectiva, mas procurar por coisas que possam ir contra o que pensamos ser verdade. E isso é uma atitude difícil, que precisa ser desenvolvida com o tempo, é como um músculo que precisamos exercitar. Mudar a dinâmica que temos a partir do viés cognitivo através de um processo de autoconhecimento nos ajuda a estar mais abertos a procurar complementariedade.

É por isso que conceitos como respeito, confiança e justiça provocam tantos conflitos em relações. Porque o que o respeito significa para uma pessoa não tem nada a ver com o que significa para outra. E o que fazemos? Supomos que estamos falando de um fato absoluto, e simplesmente pedimos que nos respeitem. 

Mas pesquisas mostram que os humanos são perfeitamente diversos. Portanto, cerca de 50% da população vai dizer “Eu acredito que respeito é ser sincero e direto. Fale as coisas como elas são, não enfeite a verdade”, enquanto os outros 50% da população prefere o “Respeito é ter cuidado com o que você fala, escolher as palavras para não magoar, considerando os sentimentos dos outros”.

Esse é um filtro perceptivo que define o que uma pessoa considera como ser direta e honesta e a outra como ser insensível e desrespeitosa. Esse é o cenário para conflitos infindáveis e inegociáveis: pessoas operando com boas intenções mas se perdendo no labirinto de percepções diferentes.

Então, qual é a saída? Bem, não há atalhos. Entender o papel da percepção nos mostra que a menção a conceitos como respeito precisa sempre ser acompanhados de perguntas como “Diga-me o que é isso para você?” e “O que é comunicação respeitosa para você?”. Não podemos fazer suposições de que o que eu acho que é comunicação respeitosa é o que você acha que é respeitoso, porque não só não é a mesma coisa, como pode significar o exato oposto. A única solução para os milhares de conflitos de percepções que acontecem nas nossas relações passa por comunicação, conexão e disposição de ser vulnerável.

A saída parte da consciência de que não vemos a imagem completa e da disposição de sermos curiosos e perguntamos a outras pessoas: como isso é para você? Eu quero ouvir sua perspectiva, sua história. É quando o caminho adiante parecer óbvio, estar disposto a parar e dizer: essa é SÓ a MINHA ideia, agora preciso sair e encontrar pessoas que são diferentes de mim, intencionalmente.

Ter a consciência do quanto a nossa perspectiva nos limita nos traz a clareza de que a melhor coisa que podemos fazer é nos cercar de pessoas que são muito, muito diferentes de nós. E, infelizmente, as pessoas realmente não gostam de fazer isso. Nós nos sentimos mais confortáveis com pessoas que são como nós, porque, elas são “normais”, elas vêem o mundo como a gente, elas “entendem”. E quando as pessoas não vêem como nós, isso pode parecer muito desconfortável. 

Em negócios usamos o termo “VUCA” para definir o cenário que enfrentamos hoje, que é volátil, incerto, complexo. As regras que funcionaram para o mundo dos negócios por 60 anos que foram testadas e aprovadas não funcionam mais. E não podemos prever o que vai funcionar. O mundo é mais disruptivo e interdependente.

Como sobreviver neste cenário? A única forma é aproveitando a perspectiva diversa, trazendo pessoas para a sala que pensam de forma diferente e estando dispostas a conversar com elas com a mente aberta, porque sabemos que nossa percepção é limitada.

Precisamos remover as barras da nossa percepção, ampliar a nossa lente. Isso requer curiosidade, vontade de ouvir e entreter perspectivas que são diferentes da nossa própria. No final das contas, nós nunca mudaremos do lugar onde vemos o mundo e a maneira como percebemos o mundo.  Isso é fixo para nós.

Acreditamos que as pessoas mudam por muitas razões. A primeira é que não gostamos de saber que não mudamos porque trabalhamos muito para isso. Investimos em livros, educação, cultura, terapia. Isso cria a ilusão de que mudamos, mas na realidade, só aprendemos a nos administrar de forma diferente. Através de tentativa e erro, quando as coisas não funcionam, nós começamos a perceber o que funciona e o que não funciona. E isso nos ensina a gerenciar nossa percepção de maneira diferente. Assim, a autoconsciência é o que você pode fazer para ajudar sua percepção a mudar de algo que pode ser muito limitante e transformar no seu diferenciador, porque sua percepção é única. Isso é o que você traz para a mesa, que é diferente de todos os outros, ninguém mais tem. 

E assim, a autoconsciência transforma a nossa perspectiva de uma prisão, para a nossa contribuição especial, algo que podemos celebrar.

> Confira a cobertura completa do B9 no SXSW 2019

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