SXSW 2019: Deixe espaço na mala, mas não vá sem bagagem

A experiência de alguém que foi pela primeira vez ao festival este ano

por Daniela Vieira / Assistente de criação, Bradesco

Repertório. Não sei quando me dei conta disso, mas já faz algum tempo que ouço – e  reproduzo – essa palavra atribuindo a ela o poder de nos destacar socialmente. Em nome do nosso repertório, embarcamos de imediato para qualquer lugar onde nos prometam voltar cheios de bagagem. O meu voo mais recente pousou em Austin, no Texas, para me abastecer no SXSW 2019.

Antes de ir, conversei com algumas pessoas que já haviam vivido um dos maiores festivais de tecnologia, inovação e cultura do mundo. Olhos brilhantes e muitos surperlativos não deram conta de expressar o que foi sentido lá, e estes depoimentos maravilhados elevaram minhas expectativas à máxima potência.

Em meio à euforia das lembranças, me deram alguns conselhos. Fui alertada de que o excesso de conteúdo disponível seria uma dificuldade inicial. Cheguei à cidade texana e confirmei: é difícil mesmo. Selecionar o que ver, o que ouvir, o que comer diante de tantas opções provocou o famoso FOMO (Fear Of Missing Out – medo de estar perdendo algo, em português) e deu um medinho de falhar na missão de ampliar o repertório o quanto fosse (im)possível.

Fui me entendendo, pacientemente, com o “schedule” e priorizando interesses pessoais e profissionais, como painéis e palestras sobre diversidade, equidade de gênero e grupos minorizados nas empresas, nos conteúdos digitais, na música.

O primeiro e o segundo dias foram suficientes pra entender que tudo bem não estar em vários lugares ao mesmo tempo (porque, né…). Já me localizava bem na cidade, me locomovia de forma ágil e divertida de patinete e não sofria mais por não conseguir chegar a tempo para uma palestra ou por sair no meio de um debate que não estava tão legal assim.

No terceiro dia, inclui na programação uma atividade físico-cultural. Encontrei lá na agenda: “Live Drumming Afro-Fusion Dance Jam”. Como estudante de dança afro no Brasil, achei uma ótima oportunidade para entender como a cultura africana, ancestral e milenar, é aprofundada e transmitida em uma cidade norte-americana cujo foco de desenvolvimento é a tecnologia e a inovação.

Já na chegada, meu repertório sobre lugar de fala me fez questionar o porquê da condução daquela aula não ser feita por pessoas negras – apenas um dos percussionistas do grupo de cinco pessoas era negro. A professora, uma uruguaia, de pele branca e cabelos lisos, se apresentou no começo da aula. Contou que vive em Austin há alguns anos e vinha se dedicando a danças de matrizes africanas. Naquele dia, especificamente, ensinaria a dança dos orixás e o samba-reggae.

A introdução de sua aula pedia que as pessoas soltassem a pélvis e se preparassem para movimentos que as conectariam com o mar, com o céu, com a natureza. Nenhum contexto sobre orixás e religião, sobre quanto tempo demorou para que o povo preto tivesse a liberdade de se manifestar culturalmente, nenhuma fala sobre valorização e respeito a essa história.

Confesso que não fiquei muito tempo. Saí dali com a cena repetida da exploração da arte negra sem a presença dos próprios negros, com a triste conclusão de que quem participou daquela atividade não ampliou seus conhecimentos sobre a origem e a importância da dança afro, pelo contrário, teve um contato superficial e o ensinamento de que é sobre mexer os quadris e sacudir o corpo.

Duas horas depois daquela aula eu entrava em um painel cujo tema era Apropriação X Apreciação Cultural, e o palestrante negro presente vestia uma camiseta com a frase “They love our culture but they don’t love us” (eles amam a nossa cultura, mas não nos amam) estampada. Entre muitos pontos levantados naquele debate, um me fez entrelaçar as vivências daquele dia. “Quer evitar a apropriacão cultural? Então, antes de usar, reproduzir, comer, procure saber se aquilo é sagrado para alguma raça/etinia/comunidade”.

Envolver-se minimamente em pautas sobre o momento de transformações pelas quais precisamos passar para errarmos menos enquanto sociedade, para aprendermos a conviver e respeitar as diferenças, pode ser o passaporte para um lugar sem volta, de onde só é possível enxergar qualquer organização/movimento social a partir de novas perspectivas. É com base neste repertório que devemos, urgentemente, direcionar nossa atenção e nosso olhar crítico, só assim seremos seres humanos melhores e pisaremos em qualquer território sabendo que tipo de bagagem será, verdadeiramente, capaz de nos fazer evoluir.

O SXSW é um dos eventos mais respeitados do seu segmento e reúne especialistas de diversas partes do mundo, a fim de provocar discussões a nível global. Todos ali, no púlpito, na platéia ou na organização, estão no mesmo lugar do ponto de vista do aprendizado, e sempre há algo novo pra levar, que some e agregue. Participar de uma atividade e ser levada a questioná-la horas depois foi um exemplo de que estamos dando passos no sentido da mudança de pensamento e comportamento, mas de que também temos um longo caminho de desconstrução pela frente.

> Confira a cobertura completa do B9 no SXSW 2019

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