“Vingadores: Ultimato”: O fim e o legado do universo Marvel

Apoteose dos super-heróis do Marvel Studios encontra no épico inflado uma forma de superar deficiências e resolver o grosso de suas obrigações narrativas

por Pedro Strazza

AVISO: Este texto contém SPOILERS do filme. Não diga depois que não foi avisado.

Desde que Tony Stark escapou vivo da caverna de onde era refém no primeiro “Homem de Ferro”, é inegável que o chamado “universo cinematográfico” do Marvel Studios gire para bem e para mal em torno de questões de segurança e seus meios de manutenção. Da tomada de consciência do bilionário armamentista sobre os próprios crimes de guerra à formação dos Vingadores frente o colapso das instituições de proteção, o estúdio vem alimentando constantemente sua imensa cronologia destes temas, fomentando este debate dentro de sua formatação padronizada e – em especial – inscrevendo-as na trajetória de seus principais protagonistas. Para os maiores heróis da Terra, afinal, não existe o fracasso: a defesa do planeta (ou de sua família, ou do país, etc) sempre veio como prioridade, uma missão que prescindia acima de tudo a inexistência do fracasso da defesa – a única “derrota” oferecida até então estava na reconsideração dos valores, algo no máximo capaz de promover uma mudança de ethos e objetivos.

E então Thanos veio. Se os dois primeiros “Vingadores” serviam a propósitos funcionais de apontar hipocrisias em dois sistemas distintos – o primeiro sobre a corrupção das organizações, o segundo na falta de coesão das alternativas – “Guerra Infinita” e seu clímax ininterrupto trouxeram ao mundos dos super-heróis uma contagem regressiva para a materialização de seu maior medo, o “e se” que ninguém queria perguntar: e se nossa garantia de segurança falhasse? E se todas as medidas não fossem o suficiente? O que aconteceria?

Ao mesmo tempo que existe no filme tal manifestação de horrores, porém, seu desfecho tão impactante e súbito, contido em um mero estalo de mão, também acontece como a última peça de uma engrenagem construída ao longo da década pelo estúdio, uma que antecede uma “última” (porque nestes mundos nada é tão definitivo assim) grande apoteose que encerre e dê nó em todos as linhas narrativas postas na mesa. É deste encontro entre o trauma e o fim que surge então “Vingadores: Ultimato”, um longa cujo escopo de uma epopeia de três horas parece existir em si para dar conta do “fim do épico” maior do universo ao qual pertence.

Posto tudo isso, é natural que existam muitos malabares a serem equilibrados dentro da narrativa do filme, que escapa da mera repetição estrutural de “Guerra Infinita” para tentar se readequar aos conformes de um imenso épico de funcionamento em três atos. Se no antecessor o truque era manter a bola rolando independente do sentido, em “Ultimato” os irmãos Anthony e Joe Russo buscam de início o respiro, primeiro resolvendo as pontas deixadas no último capítulo para depois adiantar a história cinco anos no futuro para se concentrar nas consequências do ato nefasto.

Assim, após o que é um prólogo desenrolado aos trancos e barrancos do chamado “fan servicing” (um raciocínio lógico que sem dúvida impera aqui de cabo a rabo), o longa reencontra seus protagonistas lidando de formas diferentes com o trauma passado e traduzindo a seu jeito as dores desta queda. E neste mundo pós-Thanos, o Capitão América (Chris Evans) e o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) logicamente voltam a ocupar as duas vertentes lógicas maiores do belicismo do universo Marvel: enquanto Steve Rogers tenta ajudar aqueles ao seu redor e busca soluções após ver todas as medidas de defesa caírem, Stark aceita a derrota de sua ofensiva contra o Titã Louco e abraça aquilo que lhe restou, isolando-se do mundo para enfim proteger o que mais ama.

Estes cenários tão distintos de certa maneira já antecipam o nível de interesse que os Russo e os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely terão com ambos os personagens ao longo da produção, que apesar do clima inicial de luto mostra não se interessar tanto assim pelo drama da perda enquanto ferramenta narrativa. Estamos falando de um épico, afinal, e enquanto disposto nesta escala maior não chega a ser uma surpresa no longa que a lamentação logo seja reconvertida em motivação para uma grande luta pelo restabelecimento das coisas. O gigantismo de todas as ações esconde alguns passos truncados, porém – e é este equilíbrio inclusive que deve ditar como o longa será recebido por audiências tão sedentas por respostas e gestos grandiosos na primeira recepção do projeto.

O filme escapa da mera repetição estrutural de “Guerra Infinita” para se readequar aos conformes de um imenso épico de três atos

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Esta opção pelo abandono do trauma sem dúvida pode ser frustrante dado o nível dos procedimentos dramáticos apenas sugeridos nos primeiros 30 minutos, mas ela ajuda a reforçar algumas das deficiências da direção dos Russo com a novela em mãos. Isso porque enquanto cineastas os irmãos dão ótimos administradores, preocupados com uma noção muito vaga de “andamento” para potencializar o emocional inscrito nas situações representadas: se a introdução de “Ultimato” sozinha traz todo o peso das consequências do ato de Thanos ao acompanhar os momentos vividos por Clint Barton (Jeremy Renner) durante o estalo, situações de igual peso como o retorno de Stark à Terra e a volta de Scott Lang (Paul Rudd) do universo quântico são tocados quase na pressa, incapazes de traduzir as suas agonias além do gesto informacional.

Há questões no quarto “Vingadores”, porém, o qual escapam do controle dos Russo e envolvem toda a trajetória do universo Marvel, ainda mais quando o longa a partir da metade se revela disposto a literalmente voltar ao passado e revisitar filmes anteriores para dar cabo de todos os arcos que pretende resolver. Além do próprio caráter das escolhas ser revelador em si (até porque elas indicam muito bem quando o Marvel Studios de fato conseguiu e não conseguiu o que pretendia com estes projetos) e o teor da reconstituição revelar muito do poder financeiro do estúdio (algumas participações são muito impressionantes dados as idas e vindas dos bastidores), estas viagens da trama carregam um tom de reconciliação muito explícito cujos retornos emocionais só tornam cristalinas o fracasso de desenvolvimento de alguns dos personagens ao longo de todos estes anos. No caso das falhas, isso acontece em especial com o Thor de Chris Hemsworth, cujo pastiche improvisado do alívio cômico super poderoso só fica mais doloroso de se assistir nos momentos dramáticos, e com a difícil relação fraternal entre Gamora (Zoe Saldana) e Nebulosa (Karen Gillan), que no longa ocupa uma centralidade nunca justificada e elaborada de forma muito mambembe, mas se espalha para núcleos coadjuvantes e a outros tantos que nem são incluídos na história direito – deve sair decepcionado quem espera algum tipo de fim apropriado ao relacionamento entre o Hulk (Mark Ruffalo) e a Viúva-Negra (Scarlett Johansson) ou participação mais evidente da Capitã Marvel (Brie Larson), por exemplo.

Talvez seja por conta destes fatores então que “Ultimato” no fim se concentre na dualidade entre Stark e Rogers, cujo conflito ideológico e pessoal enfim encontra um ponto de convergência comum no desfazimento das ações de Thanos. Além de se encontrar resoluções finais aos dramas maiores de ambos os personagens – o Homem de Ferro em sua síndrome de reparação dos próprios erros, o Capitão América na preservação de seus valores – o longa faz da trajetória dos dois o ponto ideal para se resolver o que são as principais razões de existência do universo Marvel, canalizando neles temas que passem por questões de futuro. Apesar de ser um filme sobre desfechos, o último “Vingadores” é também um sobre legados, e é justo esta virada de uma suposta auto-congratulação para um novo encaminhamento de narrativas que o torna subitamente tão interessante de se acompanhar, desde momentos simbólicos de fraternidade até suas consequências maiores que devem ditar as produções do estúdio nos próximos anos.

Apesar de ser um filme sobre desfechos, o último “Vingadores” é também um sobre legados

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Estas questões de legado no fundo também são as verdadeiras responsáveis por inflar os atos grandiosos da estrutura geral, e o que “Ultimato” tem na promessa do épico ele cumpre sem deixar muito espaço para aflições e incômodos. Mesmo distantes do equilíbrio narrativo que Joss Whedon alcançou no clímax do primeiro “Os Vingadores” – e neste momento é duro revisitar a batalha de Nova York sem sentir o deslocamento do dinamismo neste quarto filme – tanto no emocional quanto no volume os Russo tem em mãos o que é uma das maiores apoteoses das produções de grande orçamento hollywoodiano desde Peter Jackson e seus “O Senhor dos Anéis” e sabem como coordenar este grande clímax de maneira a compensar quaisquer falhas narrativas maiores. Se aos fãs isto é suficiente enquanto atendimento de necessidades, para o público maior o final pelo menos encontra alguma utilidade, capaz de fazer do encontro maior de personagens um momento de desforra digno dos grandes épicos do passado.

Por este ângulo, o que beneficia tanto “Ultimato” a superar eventuais empecilhos à partir do emocional é que, despido da inevitável razão contextual que denota a superação do filme de produtor sobre quaisquer meandros narrativos propostos pelos Russo, o grande fechamento do qual o longa é encarregado traz peso em cada uma de suas consequências porque ao contrário de outros tantos projetos do Marvel Studios suas resoluções são definitivas em essência. E como o épico que se presta, a medida mais importante talvez seja mesmo a de manter seus eventos dignos de serem acompanhados pelo público até o último minuto.

nota do crítico

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