“A Sombra do Pai” leva o horror de Stephen King à rotina trabalhista da classe C brasileira

Segundo longa-metragem de Gabriela Amaral ganha fôlego no retrato do esgotamento pessoal pelas relações trabalhistas

por Pedro Strazza

No curso deste último ano e das inúmeras entrevistas que concedeu para divulgar seus dois primeiros longa-metragens – “O Animal Cordial” e este “A Sombra do Pai”Gabriela Amaral deixou claro de novo e de novo o quanto seu cinema é influenciado principalmente pelo gênero do horror, do qual não apenas nutre grande admiração como também baseou sua trajetória acadêmica em cima. O interessante é que estas referências da diretora sobre este tipo de produção não parecem mesclados numa grande definição geral, mas se aprofundam o suficiente para se dividir – pelo menos por enquanto – em duas vertentes distintas de referências: uma que permeia as áreas mais próximas do exploitation (como o giallo e o slasher) e outra que cobre o horror interno e de raiz psicológica dos livros de Stephen King.

Mais curioso, porém, é que de certa forma Amaral também dividiu nestes seus primeiros dois longas um trabalho de incorporação de ambas as bases, tanto como forma de exercitar o modo de operação de seu cinema quanto para readequar estas estruturas a narrativas próprias do cenário brasileiro. Assim, enquanto “Animal” era dedicado a encaminhar as altas doses de violência dos braços mais extremos do terror ao atual estado caótico das relações trabalhistas, resta a “A Sombra do Pai” fazer um percurso parecido pelas vias dos traumas internos da escrita de King, um assunto do qual a diretora conhece tanto a ponto de ter um mestrado sobre.

Mas ainda que Amaral demonstre saber muito bem o que está fazendo dentro deste exercício, ela como outros contemporâneos corre um risco de auto-indulgência nesta valorização das próprias influências, e é neste limiar entre o percurso individual e a homenagem que este segundo trabalho (ou primeiro, se considerar que o filme está há mais tempo em desenvolvimento) muitas vezes parece trafegar sobre. Se em alguns momentos o longa é capaz de nutrir distância suficiente para construir suas relações e dar o contorno pessoal necessário aos temas em debate, ele também parece se perder um pouco na narrativa quando lhe é mais vital, recorrendo a convenções gerais num esforço não muito sutil de carregar o drama e o horror até onde lhe é necessário, em linhas tão simples quanto do ponto A ao ponto B.

Neste sentido a trama não demora muito a revelar suas raízes, especialmente porque o drama nasce tão interiorizado quanto nas premissas mais tradicionais do celebrado escritor, acompanhando uma dinâmica de pai e filha corroída pelo luto (da perda da mãe) e desgastada pela rotina extenuante de trabalho. Como em “Animal Cordial”, Amaral destila suas inspirações e referências a torto e direito, de citações visuais (a obras como “Cemitério Maldito” e “A Noite dos Mortos-Vivos”) à maneira como conduz o elenco (Júlio Machado praticamente repete trejeitos do Frankenstein de Boris Karloff no papel do pai); sua direção, porém, também surge aqui um pouco mais controlada dado que o gênero aqui atua no campo da sugestão, do sobrenatural que processa o descontrole crescente de seus protagonistas frente seus traumas e que é capitaneado pelos poderes da pequena Dalva (Nina Medeiros).

Amaral destila suas inspirações e referências a torto e direito, de citações visuais à maneira como conduz o elenco

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Se por um lado esta necessidade pelo suspense capa Amaral de repetir em “A Sombra do Pai” o apreço pelo gore que demonstrava possuir no trabalho anterior, ele também é responsável por oferecer a ela a oportunidade de ilustrar com melhor propriedade as questões sociais que permeiam seus roteiros. É uma troca com seus prós e contras, naturalmente: enquanto o horror (com exceção do clímax final) se restringe a momentos pontuais do roteiro, o filme tem mais tempo para fazer o retrato de uma falência da classe C condenada ao inferno empregatício, seja na ilustração de relações trabalhistas mecanizadas (todas as cenas na construção) ou na ridicularização da expectativa de uma ascensão econômica pela “emancipação” do controle do chefe – o namorado da tia de Dalva atua quase como alívio cômico, na sua esperança de se emancipar da classe C se tornando vendedor de porta de uma rede de produtos de bem-estar.

São questões sócio-comportamentais que só tem a ganhar no horror, e quando Amaral consegue conciliar as duas partes o longa ganha bastante fôlego – as cenas envolvendo o “espectro” do colega de trabalho do pai de Dalva só ressaltam esta tendência. O problema é que este equilíbrio nem sempre acontece na narrativa, ainda mais dado o jogo de referências que se desenrola nas beiradas e contamina o núcleo principal: se os dramas externos dos dois protagonistas alimentam o desgaste generalizado das relações, o conflito central entre pai e filha subexiste neste âmbito de influências da diretora, uma medida capaz de enfraquecer os propósitos finais do terror nesta ligação entre trabalho e família.

O filme tem mais tempo para fazer o retrato da falência da classe C, uma condenada ao inferno empregatício

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Mas ainda que a alegoria sentimental se veja destituída de potência e ameace algumas vezes derrubar o todo, ainda há muito a se admirar em “A Sombra do Pai”, até porque seu procedimento de terror sobre o trabalho contemporâneo escapa de generalismos dramáticos e encontra na tensão um artifício natural para revelar o desgaste destas relações. Medeiros e Machado podem não ser capazes de bancar sozinho a ligação que permeia o cotidiano trabalhista e a falência da unidade familiar, mas suas atuações e seus poucos momentos de interação ainda dão vazão a uma contaminação geral que se faz muito presente tanto aqui quanto no outro longa de Amaral: o vazio emocional e a perda das relações de intimidade que sustentam nossa sociedade.

nota do crítico

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