Como o mercado reagiu à Libra, a criptomoeda do Facebook

Empresas de blockchain, órgãos regulatórios e líderes políticos se dividem em preocupações sobre introdução de nova criptomoeda que pode efetivamente ter impacto duradouro no sistema financeiro atual

por Pedro Strazza

Já faz pouco mais de uma semana que o Facebook anunciou ao mundo a Libra, sua própria criptomoeda que servirá de moeda oficial da rede social nas transações financeiras que passarem pela sua plataforma. O plano da empresa com a nova moeda é claro, usando-a de base para tornar o site numa verdadeira central de negócios que ofereça todo tipo de serviço e produto financeiro, incluindo sistemas de crédito e empréstimo.

A adoção de uma moeda virtual vem com um planejamento bastante sólido. Com verba e apoio de 29 parceiros que vão de empresas de capital de risco, ongs e provedores de serviços de tecnologia do porte de Mastercard, Visa, Spotify, Uber e eBay, o Facebook manterá o valor da criptomoeda à partir da Associação Libra, uma organização independente que será responsável pela rede e as reservas financeiras disponíveis. A empresa de Mark Zuckerberg, enquanto isso, cuidará para que todas suas redes implementem a Libra em seus serviços, o que inclui além do site principal o Instagram e o WhatsApp.

Embora a notícia da introdução de uma nova criptomoeda tenha deixado alguns animados no mercado, o anúncio deixou uma parte considerável das entidades financeiras em estado de alerta. Em pronunciamento oficial sobre o caso, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) declarou que por mais que benefícios possam ser feitos, a adoção de uma moeda digital fora do atual sistema financeiro poderia não apenas reduzir a competição mas também criar problemas de privacidade gravíssimos em relação aos dados envolvidos nas transações. O banco inclusive aproveitou a oportunidade para pedir a criação de políticas públicas que construam uma “aproximação mais compreensiva” sobre o tema e que envolvam políticas de competitividade e regulação financeira e da privacidade de dados ao meio digital.

A maior preocupação sobre a Libra em relação a concorrentes da área como o Bitcoin se dá muito por conta da centralidade e predominância do Facebook no mundo de hoje. Unindo os públicos de todas as suas plataformas, a empresa afirma possuir atualmente um número total de 2,4 bilhões de usuários espalhados ao redor do globo, uma informação que explica em parte o desejo de imbuir suas plataformas de sistemas monetários próprios e despidos de regulações externas, afim de alcançar o máximo de comissão possível para a corporação.

Aos olhos de alguns poucos analistas isso em teoria significa boas notícias por “democratizar” as transações dentro dos meios de amplo acesso da internet, mas para os órgãos regulatórios a Libra representa uma nova, potente e altamente perigosa dor de cabeça, ainda mais vindo de uma empresa que no ano passado passou por um escândalo gigantesco de vazamento de dados com o caso Cambridge Analytica. No Reino Unido, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) e a Autoridade de Conduta Financeira (FCA) divulgaram nesta terça (25) comunicados afirmando que pelo menos no país a moeda não será lançada sem um processo de verificação extremamente rigoroso.

“Ainda que os criptoativos no momento não representem risco para a estabilidade financeira mundial, podem surgir brechas nos casos em que não estejam sujeitos às autoridades regulatórias ou nos casos em que não existam padrões internacionais” escreveu a FSB no documento, uma carta aberta aos líderes do G20 antes da realização de nova conferência do grupo neste fim de semana em Osaka; “Um uso mais amplo de novos tipos de criptoativos para fins de pagamento no varejo deve ser esquadrinhando mais proximamente pelas autoridades para garantir que estes estejam sujeito a padrões elevados de regulamentação”.

Alguns líderes políticos, enquanto isso, também já expressaram sua preocupação e se movimentam para incluir a Libra como pauta de debate em reuniões internacionais. O ministro da economia francês Bruno Le Maire, por exemplo, enviou uma carta aos membros oficiais do G7 e do Fundo Monetário Internacional pedindo a criação de um grupo de investigação da criptomoeda e seu impacto no sistema financeiro mundial, afim de averiguar qual o possível dano que a moeda virtual pode criar ao meio em seu lançamento. Na carta, Le Maire atenta além do perigo de privacidade para os riscos reais de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo através da plataforma: “Qualquer coisa que funciona hoje no mundo será instantaneamente sistematizado e terá que passar pelo mais alto nível de regulação”.

Mesmo pessoas ligadas anteriormente ao Facebook veem a ideia de uma criptomoeda própria da rede social como perigosa. Ao Financial Times, o cofundador da empresa Chris Hughes chegou a declarar que mesmo o sucesso modesto ameaçaria a atual e delicada ordem mundial, afirmando que “O que os apoiadores da Libra chamam de ‘descentralização’ é na verdade uma mudança de poder dos bancos centrais de países emergentes para corporações multinacionais e os bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa”.

Outro lado que já expressou preocupação é o das empresas de blockchain, tecnologia que o Facebook mais aposta para fazer funcionar a Libra no globo. O presidente e COO da MakerDAO Steven Becker chegou a tecer elogios à criptomoeda por em teoria facilitar o crescimento econômico da área de blockchain, mas não economizou palavras para criticar a falta de transparência que o serviço mostrar ter em seus meios internos: “Por mais que o Facebook tenha deixado claro que este é um blockchain híbrido, nós ainda precisamos entender o quão interoperável este blockchain será com outros blockchains públicos.” ele declara, acrescentando ainda que se este caminho não existir a rede social estará criando “uma plataforma concebida apenas para competir com a infraestrutura de outros bancos” e que vai contra o propósito de ser uma “alternativa” ao sistema atual.

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