“Divino Amor” busca na ficção-científica uma forma de importunar a classe média

Filme ambientado em futuro distópico reconduz Gabriel Mascaro à análise das camadas sociais brasileiras mais abastadas

por Pedro Strazza

Enquanto primeiro experimento de seu diretor pelo cinema de gênero em um caráter mais definido, “Divino Amor” a princípio não escapa muito dos moldes de outros trabalhos de Gabriel Mascaro, cuja carreira, apesar de permeada pelos mais variados tipos de produção, sempre pareceu ditada acima de tudo pelas aproximações pessoais de anseios muito específicos de determinadas classes sociais, das mais ricas às mais miseráveis.

No caso da ficção-científica distópica, este exercício de conexão entre autor e tema se dá dentro dos limites da classe média, cujo conforto não é o bastante para garantir o desfrute de riquezas mas lhe garante tranquilidade suficiente para não ambicionar uma ascensão social. Isto talvez explique em parte o porquê do filme se concentrar na nutrição de dilemas e dramas internalizados que pouco ou em nada se relacionam com as “questões maiores” que tradicionalmente permeiam o gênero, com a protagonista Joana (Dira Paes) não apenas não se configurando como indivíduo inquieto com a miserabilidade de sua existência, mas por opção abraçando a posição social que desempenha à espera das eventuais recompensas por sua boa conduta – representado, aqui, na gestação de um filho próprio e a manutenção de uma família própria.

Gabriel Mascaro (à frente) no set do filme

Esta premissa do longa em teoria é um exercício promissor por reconduzir o cinema de Mascaro às partes superiores da sociedade brasileira, às quais o diretor sempre pareceu se relacionar melhor em termos de compreensão e diagnóstico. Enquanto os dois primeiros filmes ficcionais do cineasta, “Ventos de Agosto” e “Boi Neon”, serviram como forma de reafirmar aqui e lá fora uma proposta narrativa ambientada em classes sociais marginalizadas, seus documentários produzidos antes deste despontamento mostravam-se mais encorpados e afirmativos nos erros e acertos justamente por concentrar atenções em contradições de camadas abastadas, desde a tentativa de curto-circuito das relações familiar-trabalhistas de “Doméstica” ao atestamento de ignorância da elite no retrato dos moradores de cobertura de “Um Lugar ao Sol”.

É inclusive destes dois últimos que “Divino Amor” encontra uma conexão narrativa mais firme, mesmo dentro de uma estruturação muito similar aos percursos da atual fase de ficção do diretor. A relação entre corpo e sociedade pode servir de novo a Mascaro como base para construção da trama – e de seu universo, o qual imagina um mundo próximo onde a burocratização de rituais se consuma como lei dura -, mas é o registro das limitações de raciocínio da burguesia que move seu interesse ao invés do cerceamento de ambições e desejos do indivíduo na realidade ao qual habita: por mais que a vontade de Joana em criar um filho seja constantemente frustrada por circunstâncias externas, é a insistência de sua fé que organiza a narrativa em torno do processo de erosão anunciado nas beiradas e crescente em suas dores.

O longa é um exercício promissor por reconduzir o cinema de Gabriel Mascaro às partes superiores da sociedade brasileira

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Esta lógica narrativa é atraente por se relacionar com o atual status de constatação do país sobre a permanência de suas raízes conservadoras na contemporaneidade, mas despido destas conexões imediatas com a realidade o filme que Mascaro ambiciona não tem muito a oferecer além de uma consumação sensorial de afirmações já expostas a tempos na sociedade brasileira. Todos os atos fundamentais na exposição de ignorância usados para expor a implosão do mundo de Joana não soam provocativos por seu caráter batido, desde a relação vazia com o marido (Julio Machado) à falta de auxílio da igreja nos momentos de crise, passando até mesmo pela descoberta da artificialidade da relação com o trabalho – a cena em que a protagonista é movida de sua função no cartório, inclusive, é executada numa obrigatoriedade truculenta e digna da burocracia vista ao longo de todo a história.

Não ajuda também que o processo narrativo por trás desta queda também se mostre mal organizado. O longa busca fazer da trajetória de Joana uma digna do mais clássico martírio, enquadrando-a inclusive sobre um viés religioso a ser anunciado pela parábola no fim da história, mas em nome de uma suposta cornucópia de sentidos que nunca chega a mostrar a que veio este processo é agilizado de tal forma que não dá conta nem do protesto silencioso (por conta da exposição incessante de mecanismos ao qual a protagonista se apega rotineiramente nos dois primeiros atos), nem da vazão das dores de existir neste mundo tão restrito em escolhas e caminhos (a maneira apressada com a qual se expõe todas as consequências da revelação de sua gravidez, mas também o desinteresse da produção em ir além da expulsão da personagem daquela comunidade).

No mais, “Divino Amor” se mostra adepto demais de recursos narrativos que se mostram cada vez mais desgastados dentro do cenário do cinema nacional contemporâneo, a exemplo da repetição da exibição do corpo como elemento de protesto ou do uso do néon na fotografia como única forma de construção narrativa maior. Mascaro até busca renovar de sentido estas tendências pelo enquadramento mais rígido, aproveitando o gancho da distopia para reconfigurar progressivamente estes elementos como opressivos, mas estas resoluções soam tão simples quanto as da trama, cuja teimosia em repetir uma tecla geral de “meu pecado foi amar demais” sintetizam a estranha posição do filme em querer expor, mas não se entranhar aos duros mecanismos sociais em movimento que tanto lhe interessa desconstruir.

nota do crítico

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