“Stranger Things” testa os limites da própria experiência nostálgica na terceira temporada

Novos episódios mostram série em conflito entre o olhar mais crítico da década de 80 e o conforto do jukebox de referências pop que a popularizou

por Pedro Strazza

Desde que estourou na mídia e em pouco tempo se converteu numa das principais séries do mainstream televisivo neste momento pós-advento do streaming, “Stranger Things” vem lutando progressivamente para adequar suas estruturas desambiciosas e mesmo de nicho à perspectiva do hit comercial do qual se tornou. É uma dinâmica de equalização de escala que, muito por conta da trajetória meteórica do seriado, se vê refletida no próprio curso do programa, desde a crescente do orçamento de cada nova temporada até os temas que saíram do conforto do cercadinho de uma história pontual de mistério, digno de sua vertente mais pulp, para passar a procurar razões de contexto na década oitentista no qual tira o grosso de suas referências.

Esta ascensão pode ter sido acelerada para os padrões tradicionais da telinha, mas o programa pelo visto soube muito bem como aceitar estas mudanças de paradigma e a curva de aprendizado inerente ao processo. Depois de um segundo ano um tanto hesitante, a série e seus criadores – os irmãos Matt e Ross Duffer – retornam para a terceira temporada dispostos a abraçar de vez o viés do grande espetáculo, uma tendência que já se nota não apenas na gravidade maior dos atos, mas na explosão de cores e neóns que tiram de vez a produção de seu flerte com o horror das histórias de Stephen King. É uma forma sutil dos showrunners reconhecerem a metamorfose de sua obra perante a pressão midiática e do público, completando a transformação do seriado no fenômeno pop que nasceu para ser nesta década movida à nostalgia.

Se esta medida é uma que afasta a produção de suas raízes (ainda mais por esta ter nascido de cruzamento de gêneros tão mais contidos) é uma discussão a parte, mas o mais importante de se constatar aqui é que pela primeira vez “Stranger Things” se desenrola como a grande epopeia televisiva de seu cenário, estando muito mais consciente do tamanho do impacto de seus atos em relação a anos anteriores – uma percepção que sem dúvida há de alterar a maneira como acompanhamos as dinâmicas já estabelecidas da narrativa.

Os irmãos Matt e Ross Duffer (nas extremidades) com Millie Bobby Brown e Sadie Sink no set

Quem se mostra atento a esta virada de percepção do público são os próprios Duffer, o que explica o porquê de parte destes oito episódios brincarem tanto com as expectativas do espectador. Além de desarmar determinadas relações pré-estabelecidas entre personagens – que incluem não só as idas e vindas de Hopper (David Harbour) e Joyce (Winona Ryder) como o deslocamento de Dustin (Gaten Matarazzo) com o resto do grupo de crianças, por exemplo – a própria maneira como a série se relaciona com o passado oitentista muda, escapando um pouco da entrega unidirecional de referências para buscar o enlaço com os comportamentos de época.

Não que “Stranger Things” abandone neste terceiro ano o seu principal chamariz, é claro, mas diz muito sobre a temporada que a história dos novos episódios gire em torno de um shopping financiado pela paranoia comunista – o qual assume de vez aqui o posto de co-antagonista junto das eternas ameaças do Mundo Invertido. O fato da trama ser ambientada em 1985, ano que não apenas marca o primeiro ano do segundo mandato presidencial de Ronald Reagan como a virada da década para seus anos economicamente mais difíceis, ajuda os Duffer a levar para a série o clima de descartabilidade do cenário cultural e da falsa sensação de progresso perante uma crise que se anuncia nas bordas; a cidade de Hawkins encontra-se à beira da falência por conta do Starcourt Mall, mas ninguém parece se importar o suficiente com isso fora alguns manifestantes na prefeitura, com o deslumbre da febre de consumismo se proliferando na região.

Não por acaso, os melhores momentos desta temporada derivam justo desta constatação mais ácida, especialmente pela maneira como a narrativa insere personagens até então isolados neste contexto tão sutil em seu lado traiçoeiro. Exemplo mais contundente disso são as cenas em que Max (Sadie Sink) apresenta Eleven (Millie Bobby Brown) ao cotidiano do shopping, onde os showrunners aproveitam ao máximo este contato ingênuo da inocência com a voracidade do capitalismo à partir do olhar esbugalhado de Brown – nada poderia sintetizar melhor as “possibilidades” do consumo que a incredulidade da protagonista mirim perguntando à amiga o que fazer a seguir.

O fato da trama ser ambientada em 1985 ajuda os Duffer a levar para a série o clima de descartabilidade do cenário cultural

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Talvez seja esperar demais que a partir disso “Stranger Things” passe a ressignificar signos e hábitos da década e se comporte quase como um “Mad Men” oitentista, mas o fato é que esta percepção mais crítica do imaginário da década coloca a girar em falso a rotina de “jukebox cultural” do programa. Se esta consequência parece passar batida pelos Duffer, o mesmo não acontece com o andamento da série, que vê sua rotina de entrega de referências entrar em estado de turbulência ao optar por seguir inalterada em meio às provocações temáticas que realiza.

Quem mais sofre em meio a todo este processo é o núcleo dos adultos, que no fim sempre carregaram o peso dramático maior da história e portanto estão mais sujeitos a este puxa-repuxa entre a experiência nostálgica conformista e a pose analítica recém adquirida dos Duffer sobre o contexto sociopolítico. O seriado parece praticar um malabarismo à parte dentro da sua já complexa teia narrativa de tramas para manter o espectador desatento aos ocasionais abandonos de personagens que realiza, incluindo aí não apenas o prefeito vivido por Cary Elwes mas os próprios Hopper e Joyce cujo vai-não vai termina de novo reduzido perante as circunstâncias. A única exceção (e talvez por ser o desenvolvimento que mais importa aos showrunners neste agrupamento) é o cientista russo Alexei (Alec Utgoff), cujo deslumbre sobre a cultura estadunidense e desencanto do sistema soviético acaba servindo como outro ponto de síntese importante da temporada.

Não ajuda muito, porém, que a própria jukebox dos Duffer comece a mostrar sinais de desgaste na narrativa da série. Além de determinadas inserções soarem extremamente deslocadas – as piadas com a New Coke e o tema de “História Sem Fim”, em especial, são pavorosas – os showrunners parecem esquecer em alguns momentos das delimitações temporais da premissa e constroem o espetáculo com referências que escapam do escopo oitentista, seja no curso da narrativa (a inclusão de “Barrados no Shopping” no coro de alusões para alimentar o humor nas situações em Starcourt) ou no clímax, que parece ver em “Jurassic Park” a bizarra única inspiração narrativa possível. Para uma produção que prescinde a admiração pelo pop dos anos 80, estes momentos não poderiam quebrar mais o encanto deste resgate de uma experiência pautada no deslumbre.

A percepção mais crítica do imaginário da década coloca a girar em falso a rotina de “jukebox cultural” do programa

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No fundo, porém, todas estas complicações temáticas soam muito mais como fatores limitantes à estruturação atual de “Stranger Things” que ameaças sérias ao seu modo de operação, até porque por mais que o espetáculo aumente a cada ano a série mantém intacto o seu ritmo novelesco. As dinâmicas entre os personagens e o balanço dos arcos escritos pelos produtores com o trabalho do elenco sempre foram uma espécie de supertrunfo escondido do programa, afinal, e aqui isso não é diferente: enquanto roteiristas, os Duffer se mostram muito no controle de seus malabares, em especial quando para testar novas relações e núcleos – não por acaso, a turma do Scoops Ahoy é a linha narrativa que mais se destaca neste terceiro ano.

O que é interessante observar neste processo é que mesmo estando confortáveis em todo este procedimento mais básico de narrativa os Duffer ainda busquem arriscar certas desconstruções do seu modo de operação, seja nesta abordagem crítica de contexto ou nas reviravoltas pontuais que promovem entre os personagens – a inversão de expectativa da relação entre Robin (Maya Hawke) e Steve (Joe Keery) é uma recompensa doce em particular – algo que em si justifique o porquê da série se manter atrativa mesmo quando apela para os maiores clichês possíveis de roteiro.

Há quem argumente neste momento que estes esforços dos showrunners em procurar desconfortos numa lógica conformista talvez aconteçam apenas por uma razão similar ao de um malabarista experiente, que não procura gastar muito tempo realizando o mesmo truque e constantemente adiciona novos pinos ou formas de girar com o único objetivo de manter seu público entretido. Verdade ou não, o fato é que isso não omite a habilidade impressionante de “Stranger Things” em se manter mais ou menos preservado numa época onde a fórmula de nostalgia se mostra cada vez mais desgastada dentro da indústria hollywoodiana, algo que em si solidifica as intenções da série enquanto fenômeno cultural do qual busca incorporar.

Os malabares, afinal e quem diria, continuam suspensos.

nota do crítico

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