Em “Era Uma Vez em… Hollywood”, o tempo está acabando

Na busca por reparações, 9° filme de Quentin Tarantino faz a elegia de uma geração e um momento histórico contaminados pela tragédia

por Pedro Strazza

Como quase tudo em seu cinema, Quentin Tarantino nunca escondeu em seus filmes a paixão que tem por filmar carros em movimento, mas em “Era Uma Vez em… Hollywood” este procedimento é repetido vezes demais para ser tratado apenas como outro de seus fetiches de direção. Não são poucas as vezes no longa, afinal, que o espectador se vê acompanhando os protagonistas Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), Cliff Booth (Brad Pitt) e Sharon Tate (Margot Robbie) em deslocamento pela Los Angeles do fim dos anos 60, atravessando ruas e avenidas da cidade californiana atrás de um volante enquanto a rádio toca em alto e bom som os hits da época.

A câmera, porém, poucas vezes se interessa pelo que acontece dentro do carro, preferindo o registro das fachadas e pessoas que povoam aquele microcosmo ensolarado e dominado a noite pelo neon. Se não fosse pela música emitida pelas ondas do rádio e o barulho natural dos grandes centros, estes “passeios” dados pela narrativa não poderiam ser mais silenciosos, uma proposta que em si representa um escape e tanto do estilo verborrágico que consagrou Tarantino e seus roteiros entre o grande público.

É uma “quebra” no modo de operação que assim como com o acúmulo de viagens de carro o diretor não realiza por acaso. Em teoria diante de seu “nono” e penúltimo trabalho antes de uma aposentadoria anunciada aos quatro ventos, o cineasta aqui novamente opta por fazer uma nova viagem ao passado histórico, mas sob uma chave diferente e ainda mais específica em relação ao feito em seus últimos três filmes, num afunilamento que escapa dos cenários mais importantes da História do mundo e dos Estados Unidos como o da Segunda Guerra Mundial ou a Guerra Civil estadunidense. Como bem lembra o título, estamos na Hollywood de 1969, um ambiente que a princípio diz respeito ao curso histórico não apenas de L.A. mas – no caso do longa em si – do próprio Tarantino, uma medida que em si revela ainda mais o quanto  “Era Uma Vez em… Hollywood” se comporta como uma obra particular na filmografia de seu diretor.

Quentin Tarantino filma Brad Pitt e Leonardo DiCaprio no set

AVISO: A partir deste ponto este texto contém SPOILERS do filme.

Neste sentido não deixa de ser curioso que o diretor faça este exercício de apropriação em cima de uma época da qual não viveu, algo capaz de acentuar o viés de elegia com a qual ele escreve e dirige este novo filme. Motivos também não faltam para legitimar este processo, pois além de um momento onde o cenário do sistema de estúdios se encontra em crise, 1969 é um ano capital ao curso histórico de Hollywood por representar os últimos momentos da indústria antes de uma virada criativa drástica que inclui elementos como a entrada da contracultura, os primeiros sinais da Nova Hollywood e, claro, o assassinato de Tate por membros da família Manson, o qual serve ao diretor aqui como evento que marca o fim desta transição e o começo de uma nova mentalidade cultural que há de dominar a próxima década.

É a partir desta compreensão em tese apocalíptica que talvez se ilumine melhor o clima de melancolia aparente que permeia e faz o contraponto à Los Angeles ensolarada construída por Tarantino. Não que esta dicotomia não esteja muito escancarada na narrativa, até porque pelas primeiras duas horas o longa se concentra em registrar o momento de crise na carreira de Rick perante o cenário cada vez mais hostil à sua figura: antes uma estrela em ascensão e dono de papéis heroicos na telona, o ator na história vive de participações especiais em séries de TV como a “ameaça da semana” e se encontra em dúvida entre continuar servindo este papel até esgotar as opções ou viajar à Itália para trabalhar em uma série de produções locais baratas. É um dilema também vivido por seu dublê pessoal, Cliff, conforme suas oportunidades de trabalho em Los Angeles minguam depois de se espalhar pela cidade o rumor de que ele teria matado a esposa.

Desde o lançamento do filme nos Estados Unidos se discute qual dos dois protagonistas Tarantino estaria usando como eu lírico da trama, mas a verdade é que ambos acabam sendo ideais ao diretor para navegar pela época e encontrar seus pontos de interesse – uma noção de complementaridade que o longa reforça no início com a entrevista para a TV e a resposta envolvendo o tal “carregar o peso”. Tanto Dalton quanto Cliff fazem parte de um imaginário de mocinho em decadência na indústria que serve como guia maior do espectador pela narrativa, um personagem não anunciado e cujo corpo físico se encontra cada vez mais próximo da marginalização – e, logo, do desaparecimento – a cada minuto passado na produção.

E para piorar este tempo está acabando, para desespero dos personagens e os fantasmas que os acompanham.

Tanto Dalton quanto Cliff fazem parte de um imaginário de mocinho em decadência que atua como guia maior do espectador pela narrativa

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O mais interessante, porém, é que este espectro incorporado às figuras do ator e de seu dublê não é o único “fantasma” presente no curso de “Era Uma Vez em… Hollywood”. O filme inteiro, na verdade, é feito destas imagens assombradas que ora se manifestam, ora desaparecem na narrativa, e isso inclui personalidades como Tate e Bruce Lee (Mike Moh), que vivem um momento de ascensão na indústria e moram no outro extremo desta balança de fama e sucesso cruel em sua relatividade.

É no retrato das imagens destas celebridades, aliás, que melhor se percebe a via de mão dupla do procedimento de Tarantino para dar vida a seus fantasmas. A cada momento de fascínio – como a postura inconformada de Dalton ao relembrar a Cliff que é vizinho das grandes estrelas ou o olhar psicótico de Steve McQueen (Damian Lewis) ao recontar a uma colega a vida amorosa de Tate durante uma festa – há um que lembre o espectador da efemeridade desta sensação de sucesso responsável por nutrir o “star system” hollywoodiano e, portanto, alimenta a fisicalidade destas presenças sobrenaturais. Esta noção também pertence à cidade, algo reforçado em cenas como o plano de grua que revela a posição da casa de Cliff atrás de um drive-in decadente ou quando Tate percebe a realização da premiere de um filme pornô na mesma rua onde vai jantar com os amigos.

A cena que melhor reflete esta dualidade, entretanto, é mesmo a passagem de Tate pelo cinema de rua, pois além do humor no desconhecimento dos funcionários sobre sua figura ele já revela o contraponto imediato na crescente de interesse do público com o filme estrelado pela atriz. Mas entre a piada com “O Vale das Bonecas” e o olhar feliz de Robbie, este momento também serve para antever um dos propósitos mais vitais da produção: o sentimento de redenção.
O filme é feito de imagens assombradas que ora se manifestam, ora desaparecem na história

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É um movimento que sem dúvida incorre na resolução final do longa (e de Tarantino) em “corrigir” a História para salvar a vida de Tate de seu fim trágico, mas ao mesmo tempo ilustra os propósitos do diretor em criar com a obra uma experiência de imersão por uma época que ruma para o seu fim – e uma indústria prestes a encontrar um reinício. Este contraste entre o velho que se esvai e o novo que se inaugura norteia grande parte do casting do elenco composto pelo diretor e Victoria Thomas, pois além da presença um tanto anormal de “filhos de famosos” em papéis pertencentes à segunda parte da equação (incluindo Margaret Qualley e Maya Hawke) há um esforço notável em incluir atores cuja carreira passou por este mesmo processo de marginalização que “Era Uma Vez…” busca dar corpo na telona. E apesar da presença do falecido Luke Perry e do uso extra de Kurt Russell como narrador, quem mais dá voz a este procedimento de abandono acaba sendo o dono do rancho vivido por Bruce Dern, cujo papel originalmente pertencia a Burt Reynolds.

Por um ângulo, este procedimento de elegia adotado por Tarantino não deixa de tornar “Era Uma Vez Em… Hollywood” numa espécie de variação de “Crepúsculo dos Deuses”, no qual Billy Wilder também contemplava a decadência de uma indústria perante a chegada de um novo momento da História, com elementos de outras tantas obras que buscaram sintetizar Los Angeles enquanto mundo próprio. O que o diretor busca acrescentar aqui de novo – e que por consequência o afasta de outras tantas produções recentes de resgate histórico similar para fins de pura homenagem – é a tentativa de dar alguma paz a estes elementos e personagens, despindo-os de quaisquer implicações trágicas que o curso histórico os imbuiu posteriormente.

O que leva de novo à cena de Tate vendo seu próprio filme acompanhada do grande público, numa tarde ensolarada qualquer de fevereiro. Embora a atriz ocupe posição central nos rumos da produção e seja fundamental para o tipo de mensagem que o longa busca promover no fim, Tarantino não procura tornar a artista em um de seus personagens, despindo-a de arcos maiores e permitindo que ela viva a Los Angeles de “Era Uma Vez…” como mais uma de suas habitantes; a sua imagem cabe apenas a tarefa de encontrar a de Rick Dalton (a figura, não o ator) no desfecho utópico imaginado pelo diretor a aquele mundo tão específico.

Pois ainda que sejam imagens, estes fantasmas também precisam de descanso.

nota do crítico

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