Em “Midsommar”, o horror está na desconexão dos laços afetivos

Novo trabalho do diretor de "Hereditário" repete parte da estratégia de autoconsciência sobre o gênero para promover uma experiência de imersão mais engajante dentro do folk horror

por Pedro Strazza

Entre “Hereditário” e “Midsommar”, os dois projetos que o introduziram no formato dos longas-metragens, Ari Aster parece ter como norte maior de seu cinema o entendimento de que há na sociedade contemporânea uma desconexão do indivíduo com seus laços emocionais maiores, uma noção que obviamente ele vem buscando converter como proposta de horror. Não à toa, ambos os filmes que marcaram sua pessoa no mercado são radicalmente diferentes em questão de formato mas se aproximam no campo temático, numa relação de atração e repulsa que sinaliza esta procura de seu diretor por algum espaço do gênero capaz de traduzir de forma mais eloquente suas ideias.

É justo o viés de exploração com o qual Aster realiza estas produções que talvez explique a princípio o estranhamento com o qual o diretor maneja este “O Mal Não Espera a Noite”, que se manifesta como exemplar do folk horror com um pouco mais de disposição a abraçar o epopeico. Tal qual seu antecessor, o longa vive da perpetuação eterna de um sentimento de inadequação em sua narrativa, algo que se em “Hereditário” era gerado pelo gesto autoconsciente (das miniaturas de casas, do vai e volta na sacadinha de comédia) aqui se resolve na eterna expansividade com o qual se registra os rituais da comunidade sueca onde grande parte da história se situa.

Ari Aster (de camisa branca) orienta o elenco no set

Para isso, “Midsommar” não hesita em apelar não apenas aos longos planos, mas para a própria extensão de tempo com a qual a ação acontece. Com duração de quase duas horas e meia, o filme aproveita bastante de sua premissa ostensivamente diurna para estabelecer um jogo de cartas abertas onde a não hesitação em adiantar ao espectador o caminho da trama não serve de obstáculo à materialização do horror almejado pelo diretor. Além dos retratos espalhados no curso dos acontecimentos (do diagrama que “abre” os trabalhos ao varal com o ritual do amor), essa decisão implica numa narrativa que busca igualar a audiência aos seus protagonistas em questão de conhecimento, mantendo-os pareados enquanto o roteiro desenrola as revelações maiores sobre os hábitos do estranho vilarejo que sedia as festividades do título – o que talvez justifique o porquê de Aster optar por se demorar nos preparativos da viagem, encenando um longo prólogo cujo objetivo parece ser apenas de introduzir a protagonista Dani (Florence Pugh) e sua relação com o namorado Christian (Jack Reynor) e seus amigos (Vilhem Blomgren, William Jackson Harper e Will Poulter).

São estes hábitos em si que servem como raiz central do terror do longa, porém, e em questão de registro é aí que as ambições do cinema de Aster se chocam com o gênero que ele busca executar. No fundo a lógica da operação é idêntica à de “Hereditário”, mas as condições são diferentes: o filme repete a estratégia de autoconsciência conforme os rituais são realizados pelo vilarejo, mas menos por um efeito de comédia (a exceção é o casal turista externo, cujo desespero caricato é confinado às beiradas da ação) que de acentuação do teor dramático interno da história, e “Midsommar” não esconde esta preferência pelo terror psicológico ao procurar enquadrar a turbulência emocional da protagonista. Embora o interesse real esteja nos procedimentos da comunidade, a câmera sempre concentra atenções em Dani, espelhando com frequências as situações – e, depois, a lisergia – em seus traumas e a crise silenciosa de seu relacionamento.

A câmera sempre concentra atenções em Dani, espelhando com frequências as situações em seus traumas

compartilhe

Em termos de narrativa isso resulta sem dúvida na experiência de imersão introspectiva, mas dentro da estrutura concebida esta pretensão vem com altos e baixos. Se por um lado a produção exige uma atmosfera climática para manter o espectador atento a cada movimento, a inversão de perspectiva dentro do gênero (de um olhar exterior para um interior) certamente não justifica a extensão agressiva da ação, ainda mais porque o diretor mantém um desejo de emular nas bordas o terror de inadequação do “O Homem de Palha” de Robin Hardy, em especial com Christian que passa por toda uma trama paralela de traição e choque com rituais específicos de procriação.

A verdade é que “Midsommar” acaba por ser um grande balão vermelho no que consta a sua relação entre temas e formatos, abrindo muitas possibilidades de interpretação que no fim se convertem em mero ar quente criado para fazer o veículo subir e engajar o público com suas reais intenções de desconexão e pertencimento coagido. Isso se percebe até mesmo em termos práticos, com a montagem de Lucian Johnston demonstrando claras limitações na hora de espalhar personagens e explorar as dinâmicas internas do vilarejo – e o bom exemplo disso é o jovem tesudo de Poulter, sempre a avisar que vai para algum lugar nunca mostrado.

A inversão de perspectiva dentro do gênero certamente não justifica a extensão agressiva da ação

compartilhe

O fato do longa ser uma experiência de imersão que termina limitada nos jogos simbólicos deve ser em si um aceno grande o suficiente para o grau de contradições presentes na produção, mas é curioso observar até que ponto ele está disposto a estender esta corda. É um filme que sobrevive nos extremos de seu modo de operação, desde o flerte com o gore higienizado e seu tratamento como comédia sádica (no close da cabeça explodindo ao urso deslocado no cenário) ao lado psicodélico minimalista do clímax, eterno na promoção de distorções isoladas na imagem para desequilibrar o espectador na narrativa – como se isso bastasse enquanto forma de horror, mas é verdade que as imagens lisérgicas escondem um quê de humor atraente.

Não que as beiradas escondam a banalidade do que ocorre no centro do eixo narrativo, claro. Mas enquanto Aster se fecha no próprio circuito, sem muito a fazer a não ser repetir na telona um conjunto próprio de referências para validar o verniz artístico (desta vez literal) de sua proposta de horror de pertencimento, “Midsommar” diverte por oferecer em seus limites algo que seu diretor não é capaz de compreender e só o folk horror pode proporcionar: a normalização social de atos emocionais extremos.

nota do crítico

Compartilhe: