“Rambo: Até o Fim” não percebe o próprio potencial que possui

Quinto filme da saga não tem sequer coragem de dizer adeus ao personagem

por Matheus Fiore

Baseado no livro de David Morrell “First Blood”, “Rambo: Programado Para Matar” se tornou um clássico eternizado no cinema de ação dos anos 80. O que faz da obra de 1982 um longa tão icônico, porém, não é somente a ação em si, mas também sua contextualização política: o filme de Ted Kotcheff foi lançado ainda no início da Era Reagan, quando um sentimento patriótico de ode ao militarismo era dominante no imaginário popular americano, mas desconstrói isso ao por em conflito um veterano do Vietnã extremamente perturbado e marcado pela guerra com uma força policial do interior que age de maneira truculenta e abusiva.

O que temos no clássico filme de 82, portanto, é uma narrativa complexa e tematicamente audaciosa, que retrata um herói de guerra americano com um olhar melancólico, identificando as marcas deixadas pelo combate. As sequências, porém, seguiram por rumos bem diferentes. Os filmes de 85, 88 e 2008 puseram de lado o olhar crítico para a própria América e, em vez disso, tornam-se verdadeiros filmes-propaganda, que levam John J. Rambo para diversos lugares do mundo para conviver e enfrentar grupos extremamente estereotipados e “libertá-los” com sua força e sentimentos patrióticos americanos.

É claro que essa mudança de visão por si só não é algo necessariamente negativo – mesmo que, pessoalmente, eu considere muito mais interessante um filme que questione a própria sociedade na qual é concebido do que os que apenas reiteram uma propaganda estatal. Mas onde entra, então, “Rambo: Até o Fim” nessa história? Agora nas mãos do inexperiente Adrian Grunberg (de “Plano de Fuga”), a saga ganha o que é teoricamente seu capítulo final. O resultado, porém, infelizmente está mais próximo das continuações do que do longa clássico, mesmo que haja uma nítida e bem-vinda redução da propaganda política meia-boca outrora feita.

Da esquerda para a direita, o diretor Adrian Grunberg, Yvette Monreal e Sylvester Stallone no set

“Até o Fim” se passa alguns anos após os eventos do quarto capítulo da franquia. Mais uma vez, encontramos o veterano de guerra John Rambo (Sylvester Stallone) vivendo isolado, mas fazendo sua parte para manter a harmonia onde vive. O protagonista nos é apresentado justamente em uma cena na qual ele age como guardião da região, tentando proteger possíveis vítimas de uma tempestade.

Já nas primeiras cenas notamos algumas diferenças de “Até o Fim” em relação aos longas anteriores. A primeira é a forma como o filme retrata o protagonista. Sai o veterano de guerra “cão louco”, entra uma espécie de herói do faroeste aposentado que tenta fugir de seu passado. Os primeiros problemas já surgem aí, já que pela primeira vez um filme da saga terceiriza o drama: não é mais de Rambo a jornada que desencadeia o banho de sangue que justifica a existência da obra, e sim de sua “sobrinha”, Gabrielle (Yvette Monreal).

“Até o Fim” de certa forma emula o que “Logan” fez em 2017, evocando o clássico “Os Brutos Também Amam”, mas em uma estrutura inversa. Em vez de o herói amargurado e perseguido pela violência se distanciar do mundo em busca de descanso, aqui, esse herói já encontrou seu isolamento e transformou o local em uma fortaleza (literalmente). O gatilho do filme é justamente a necessidade de abandonar esse isolamento para proteger uma pessoa amada – no caso, Gabrielle, que foi ao México em busca de seu pai e acabou sequestrada pelo tráfico.

“Até o Fim” está infelizmente mais próximo das fracas continuações do que do longa clássico

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De certa forma, o filme de Grunberg também tenta dialogar com o cinema de ação contemporâneo. Todo o segmento de “Até o Fim” que lida com a ida de Rambo ao México para resgatar Gabrielle, por exemplo, remete diretamente ao ótimo “Busca Implacável” (aquele mesmo dirigido por Pierre Morel e protagonizado por Liam Neeson). É justamente quando a obra segue um caminho dramático semelhante que seus erros são expostos. Para traçar paralelos, por exemplo, “Busca Implacável” se ancora tanto no modelo de espionagem seguido por seu protagonista, quanto na ação que mescla combates corpo-a-corpo em espaços apertados e filmados com planos fechados e trêmulos, enquanto “Até o Fim” traz, simplesmente… Rambo sendo um brutamontes genérico.

Entretanto, nem tudo é um desastre nessas cenas de Rambo sendo um sujeito grande e intimidador. É de se elogiar, por exemplo, como toda a técnica do filme gira em torno do personagem, dando até mesmo um tom de superioridade existencial que era, até então, inédito na série. Movimentos bruscos, facadas, socos e pegadas de John J. Rambo são intensificados pela edição de som, como se o personagem fosse um ser à parte naquele espaço onde atua. Interessante também é como a fotografia sempre busca deixar parte do corpo do personagem apagado, diferente de boa parte das obras passadas, que deixaram a figura de Rambo totalmente nítida para edificar a persona heróica do veterano. O resultado desse sombreamento é a criação de um cenário mais sombrio, propenso para a violência mais explícita que vemos nesse capítulo da saga.

O filme emula o que “Logan” fez em 2017 ao evocar o clássico “Os Brutos Também Amam”, mas em uma estrutura inversa

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O grande problema é o fato de “Até o Fim” apostar excessivamente no drama familiar de Gabrielle, sendo esta uma personagem nova e extremamente superficial em suas motivações e conflitos. Se pelo menos “Até o Fim” conseguisse enxergar esse drama apenas como uma ponte para proporcionar boas cenas de ação, o filme até poderia funcionar com uma pegada semelhante à da saga “John Wick”, que basicamente utiliza sua história como uma desculpa para seguidas cenas grandiosas de ação.

Os realizadores (tanto Grunberg quanto os roteiristas Stallone e Matthew Cirulnick) parecem passar longe de perceber as inúmeras possibilidades narrativas nas quais o filme esbarra. Seja o drama familiar, a imersão direta no gênero ação ou até mesmo uma releitura de western à la “Logan”, todas essas ideias são perpassadas de forma tão superficial que nos fazem até mesmo pensar se esses flertes não são acidentais. No fim das contas, “Rambo: Até o Fim” é só mais um capítulo genérico de uma saga que peca não por abandonar a ideia do clássico original, mas por sempre ser medíocre dentro de seus próprios esforços e repetir Sylvester Stallone espancando capangas enquanto varia apenas a intensidade do gore.

nota do crítico

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