Preso a necessidades de validação, “Coringa” joga no seguro

Filme de Todd Phillips deseja ser levado a sério ao nível do cinema de arte, mas é incapaz de ser algo além do exercício de emulação mais básico

por Pedro Strazza

Entre a exibição (e vitória) no Festival de Veneza e a estreia nos cinemas, “Coringa” já vem despertando emoções intensas no público pelo aparente caráter controverso de sua concepção que tanto alardeia nos trailers e materiais de divulgação. É uma medida que se por um lado revela parte do status esquizofrênico da cultura pop de hoje – aonde vamos chegar na confusão de expectativa com o debate? – também dá indícios daquilo que parte da audiência espera com o filme, porque para além do cerne do assunto as discussões acaloradas sobre a suposta inflamabilidade do longa escondem em parte uma questão que passa pelo campo da legitimação: “devemos nos preocupar com as repercussões desta obra, mesmo ela sendo uma produção de gênero?” parece se perguntar o espectador ao comentar o caos do noticiário criado em cima da estreia do projeto.

Esta dúvida não deixa de evocar parte do olhar de julgamento com que o público observa a ascensão do filme de super-herói como grande chamariz da indústria hollywoodiana nestes anos 10, uma trajetória que embora mais ou menos recente (os primeiros grandes experimentos dos estúdios remontam ao “Superman” de Richard Donner, afinal) não deixa de ser natural aos caminhos de qualquer produção de gênero na História. Ainda que os caminhos sejam distintos entre si, o ciclo é o mesmo no percurso da marginalização até a aceitação final pelas camadas do “mainstream” como parte essencial da máquina, desde o faroeste e o noir nos anos 30 e 40 até subgêneros como o slasher nos anos 70 e 80.

No caso específico do longa de Todd Phillips, porém, a diferença para outros “colegas” que passaram por escrutínio parecido nos últimos tempos é que não apenas ele reconhece sua posição perante este processo histórico, mas o abraça como obstáculo a ser superado. Isso porque “Coringa” é, acima de tudo, uma produção que nasce disposta a se “elevar” de sua condição de filme de super-heróis para alcançar os supostos níveis superiores do circuito de arte, despindo-se de necessidades inscritas em sua categoria para perseguir valores mais nobres e adultos. O que a história de origem do principal vilão do Batman quer aqui é uma validação externa o qual escapa dos conformes dos fãs já iniciados, capaz de englobar todo e qualquer tipo de público em torno de seus temas nobres.

O diretor Todd Phillips (à esquerda) conversa com Joaquin Phoenix no set

Para tanto, o longa não perde tempo em estabelecer o quão diferente é sua estrutura dos “moldes”. Dos primeiros minutos silenciosos que terminam com o protagonista abandonado e humilhado num beco de Gotham City aos violoncelos graves da trilha sonora recorrente da islandesa Hildur Guðnadóttir, Phillips busca a todo momento reforçar ao público que seu projeto está bem mais próximo de adjetivos como “denso”, “dramático” e (especialmente) “sério” durante os esforços para contar nas telas a história de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), jovem de silhueta frágil que vive com a mãe na região pobre da cidade e que atua como palhaço para ajudar a pagar as contas enquanto não vê sua carreira de comediante deslanchar. Nada parece estar a seu favor, entretanto, pois além de estar debilitado por doenças mentais sua mãe também se encontra fragilizada e a condição de Gotham tende a piorar perante ondas de crimes cada vez maiores e o acentuamento do abismo entre ricos e pobres.

É exatamente deste sentimento de acuamento e desespero, alinhado à sensação quase perpétua de gravidade dramática do roteiro escrito por Scott Silver e o diretor, que “Coringa” busca tirar sua maior força para se provar como produto de valor, uma noção que só se acentua conforme o aceno a “Taxi Driver” e “O Rei da Comédia” se torna uma emulação quase literal de narrativa. Tomar referências como aliterações estéticas e de conteúdo são quase constantes no caminho do longa, pois além de Scorsese e a menção direta a Charles Chaplin a própria composição de Fleck por Phoenix não deixa de repetir grande parte de seu trabalho físico com “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” e “O Mestre” – os dois projetos que consagraram o ator como este artista de fragilidades que borram a linha entre o físico e a saúde mental.

A questão, porém, não é sobre o quanto “Coringa” é capaz de repetir antepassados e se portar como uma produção “para adultos”, mas o que o filme pode proporcionar para legitimar esta posição que tanto ambiciona. E conforme a narrativa avança, a ausência de uma distinção entre estas duas frentes começa a fazer com que o longa revele as francas vulnerabilidades do próprio raciocínio pretensioso.

AVISO: A partir deste ponto o texto contém SPOILERS do filme. Não diga depois que não foi avisado.

O filme busca a todo momento reforçar ao público que está próximo de adjetivos como “denso”, “dramático” e (especialmente) “sério”

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É um problema que começa exatamente sobre o princípio mais básico de movimento da narrativa, dado que para além do deslumbre do valor de produção é difícil identificar na obra algo maior aos propósitos cronológicos de sempre. Embora almeje a provocação e o choque, “Coringa” acaba por ser um filme bastante inocente naquilo que se propõe a realizar pois no fundo, após conseguir a validação de “obra artística” de seu espectador, ele tem pouco ou (para ser exato) nada a oferecer no campo temático, como se importasse a Phillips apenas o ato de completar uma lista de pré-requisitos para alcançar o status de cinema adulto – e com a exceção da nudez e o sexo, de fato não sobram muitos elementos a se ticar desta lista, ainda que a própria noção de completismo não faça o menor sentido.

Não ajuda muito também que toda e qualquer possibilidade de manifestação de algo mais controverso seja barrada da trama, que reduz a uma equação maniqueísta muito bem camuflada toda a espiral de loucura de Fleck enquanto vítima do sistema. É um tanto divertido observar o quanto uma produção tão arraigada num sentimento de ira termina reduzida a disparar insultos generalistas, pois seus protestos da altura do “contra tudo isso que tá por aí” apenas acentuam o vazio da atmosfera concebida pelo diretor – além do discurso final do protagonista no programa do personagem de Robert De Niro (aqui para representar outro aceno óbvio a “O Rei da Comédia”), nada pode soar tão ridículo quanto as manchetes dos jornais clamando em letras garrafais para “matar os ricos”.

Neste sentido, o que é talvez a melhor herança do longa não à toa acaba sendo algo relativo somente à caracterização, na Gotham cujo retrato enfim escapa do olhar “de cima” e se situa melhor no conflito das classes ricas e marginalizadas para dar voz à raiva de Fleck perante as injustiças que sofre na pele. Mas mesmo isso termina raso perante a lógica segura de Phillips, cujo exercício de ambientação é realizado somente para reconstruir a origem pecaminosa da cidade sob o mesmo olhar de sempre – e neste ponto vai ser curioso observar a reação ao filme de quem, há três anos, reclamou de “Batman vs Superman” por reencenar a morte de Thomas e Martha Wayne pela enésima vez.

Embora almeje a provocação e o choque, “Coringa” acaba por ser um filme bastante inocente naquilo que se propõe a realizar

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Trazer a família Wayne para o centro dos acontecimentos do roteiro, aliás, é o maior indício do vazio discursivo de Phillips com o projeto, cuja sede pelos grandes temas não se verifica naqueles que de fato explora. A vítima maior desta lógica termina sendo o próprio protagonista, cujo arco é subaproveitado não apenas pelo viés genérico de toda a suposta dualidade de sua vilania, mas porque o filme não abraça de fato sua espiral de loucura em nenhum momento – culpa, de novo, deste caráter isentão da narrativa, que não hesita em eliminar cenas cruciais para a trajetória de Fleck (como quando sobe a trilha sonora no momento que vai se apresentar pela primeira vez no palco) mas acompanha sua descida ao inferno de uma lógica didática a fim de impedir que a ira de “Coringa” saia de seu controle.

Retomando a discussão do início do texto sobre levar a sério ou não o gênero que tanto atormenta parte do público, quando em meados dos anos 50 escreveu sobre a trajetória do faroeste no cinema, o crítico francês André Bazin chegou a definir como “metawestern” o conjunto de produções da categoria concebidas no pós-guerra que exibiam alguma vergonha de pertencer a esta tipologia e buscava justificar sua existência em outras áreas, incluindo aí vertentes psicológicas, estéticas, políticas e morais. Se “Coringa” pertence ou não a uma subcategoria de “metasuper-heróis” esta é uma acepção que (felizmente) só as próximas gerações discutirão daqui alguns anos, mas, por agora, é apenas curioso como o longa de Phillips se iguala nesta relação de dessabor com suas origens, mas é incapaz de assumir para valer uma identidade para outro campo que não o filme de super-herói com um visual elegante apenas para impressionar. Em meio a tanta violência, quanta inocência.

nota do crítico

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