Série de "Watchmen" adapta HQs de Alan Moore para estudar os EUA do século XXI

Série de “Watchmen” adapta HQs de Alan Moore para estudar os EUA do século XXI

Grupos supremacistas raciais são novos inimigos invisíveis de seriado que se passa após eventos dos quadrinhos

por Matheus Fiore

“Watchmen”é uma das mais premiadas e influentes revistas em quadrinhos já lançadas. Sua influência, visível em qualquer obra de heróis que adote uma narrativa mais adulta, complexa e distante do maniqueísmo de bem contra o mal, perdura até hoje em várias mídias – seja nos quadrinhos de Marvel e DC Comics ou até mesmo nas séries e filmes com os super-heróis dessas duas enormes marcas. Adaptar “Watchmen”, portanto, pode muitas vezes ser um mero caça-níquel, como os quadrinhos “Antes de Watchmen” que contavam a história dos diversos personagens antes dos eventos das clássicas histórias escritas por Alan Moore e ilustradas por Dave Gibbons.

Há dez anos, “Watchmen” foi ao cinema pela primeira vez pelo olhar de Zack Snyder, mas o longa também tinha seus problemas. A reconstrução estética que tratou da graphic novel como um verdadeiro storyboard se esforçava demais para criar um visual fidedigno, mas esquece-se de embutir na narrativa o mesmo aprofundamento intelectual que havia na obra escrita por Alan Moore. “Watchmen”, o filme de 2009, mais parecia uma versão cara, estéril e carente de qualquer ideia do que uma adaptação fidedigna daquilo que era proposta pela obra original.

Afinal, o que consagrou os quadrinhos não foi sua estética (apesar do trabalho de Gibbons ser de fato memorável), mas a busca por um território mais cinzento em um mundo alternativo no qual heróis de fato existem – mesmo que, com exceção do Dr Manhattan, nenhum tenha super-poderes – e sua contextualização política.

Damon Lindelof (à esquerda) conversa com Regina King no set

“Watchmen”, a série da HBO escrita por Damon Lindelof, faz um caminho praticamente oposto ao percorrido por Snyder. Como o piloto “It’s Summer and We’re Running Out of Ice” bem aponta, o programa acompanha uma história ambientada no mesmo mundo, mas algum tempo seguinte aos eventos do fim dos gibis. O roteiro, portanto, não reconstrói esteticamente os quadrinhos, mas busca adaptar sua ideia para fazer um estudo de problemas da sociedade atual, bem como Moore fez nos anos 80 com a Guerra Fria.

No caso específico da produção da HBO, sai a Guerra Fria para a entrada da tensão racial nos Estados Unidos de hoje. Em um período no qual renasce a Ku Klux Klan, o principal grupo supremacista branco dos Estados Unidos, “Watchmen” chega para estudar as raízes do problema e um iminente conflito gerado pela KKK, e para isso Lindelof faz questão de nos mostrar que o problema não é novo. Assim como “O Nascimento de Uma Nação” é historicamente um marco para o retorno do grupo no fim da década de 10, o diário de Rorscharch acaba sendo o mesmo gatilho para o nascimento de uma espécie de milícia muito semelhante na série. A obra, porém, inicia-se nos anos 20, durante a Rebelião Racial de Tulsa, quando a parte negra da cidade foi atacada por supremacistas brancos.

Ao iniciar seu piloto com essa cena, “Watchmen” deixa claro: o racismo e a ideologia supremacista racial não foram criados por Rorscharch. Assim como o filme de Griffith, o diário do vigilante mascarado são apenas estopins para que grupos nefastos voltem à tona. A ideia parece extremamente promissora e, por ora, nos resta apenas elogiar a iniciativa e torcer para que o restante da temporada trabalhe bem estes conceitos.

Assim como “O Nascimento de Uma Nação”, o diário de Rorscharch acaba servindo de gatilho para o nascimento da Sétima Kavalaria

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Outro aspecto interessante apresentado no piloto é como a série busca reafirmar esse território cinzento onde habitam os “heróis”. O único herói de fato apresentado em “Watchmen” está justamente na primeira cena do filme, o xerife negro projetado na tela de cinema enquanto uma criança assiste o filme, momentos antes de fugir da rebelião que invadiria o local.

Apesar de ter seu grupo de vilões bem estabelecidos e nítidos, “Watchmen” tenta fugir do maniqueísmo típico de obras inspiradas em super-heróis. Quando um policial negro aborda um rapaz branco na estrada, por exemplo, imediatamente os estereótipos típicos dos casos violência policial sobre a comunidade negra são postos de lado pela série. “Watchmen” tenta, fugindo de alguns desses estereótipos, mostrar como o mundo de Alan Moore lidaria com a tensão racial de hoje, que gera tantos conflitos e protestos.

Apesar de ter um grupo de vilões estabelecidos e nítidos, “Watchmen” tenta fugir do maniqueísmo típico de obras inspiradas em super-heróis

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O fato de o piloto se iniciar com o massacre de Tulsa desperta questionamentos interessantes. O crime foi por anos apagado historicamente: parece ter havido um esforço da mídia para minimizar o ocorrido. A capa de jornal que supostamente teria motivado os crimes, por exemplo, desapareceu dos registros do Tribune – a capa relatava um crime descrevendo-o como “negro ataca garota em elevador”. Aliando isso ao fato de toda a Sétima Kavalaria ser inspirada pelo diário de Rorscharch e pelo fato de Adrian Veidt dedicar-se à escrita, a sensação que fica é que “Watchmen” também terá a tradição da narração como um de seus temas a ser desenvolvido.

O ato de narrar e o narrador encaixariam perfeitamente, já que “Watchmen” visa retratar e dissecar tradições violentas que parecem resistir ao tempo e ao progressismo do mundo atual. Em seu episódio de estreia, “Watchmen” não reinventa a roda nem aprofunda muito nenhum de seus temas, mas merece elogios por conseguir criar um universo crível no qual as marcas da obra de Moore e Gibbons façam sentido e se conectem com problemas da sociedade ocidental de hoje. Um começo empolgante para o novo projeto da HBO, que pode ter após “Game of Thrones” a sua nova grande mina de ouro em outra adaptação.

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