“Meu Nome é Dolemite” é uma homenagem afetuosa a Rudy Ray Moore e o blaxploitation

Filme resgata parte da estética que consagrou movimento dos anos 70 enquanto presta reverência a um dos pioneiros no estilo

por Matheus Fiore

Não é à por acaso que cada cena de “Meu Nome é Dolemite” é tratada com despretensão dramática e carisma; o filme acompanha sua história com o mesmo humor e carisma da figura biografada. O filme acompanha a história do falecido Rudy Ray Moore, artista pioneiro em um estilo mais desbocado de humor e também no blaxploitation, movimento cinematográfico dos anos 70 popular tanto pelo protagonismo negro, quanto pela espontaneidade e urgência de suas produções.

Assim como a figura que tem sua história contada e as vertentes artísticas por ele criadas, “Meu Nome é Dolemite” nunca busca dramatizar seus acontecimentos, mas ver tudo com bom humor e com um diálogo extremamente direto com o público. A ausência de drama vem diretamente de um estilo de artista que parece inabalável diante das adversidades, movido sempre pela convicção em seu próprio trabalho.

É totalmente compreensível, portanto, que “Dolemite”, em vez de trilhar o caminho mais fácil de acompanhar toda a trajetória do personagem e dramatizar suas dificuldades, opte por fazer um recorte mais bem humorado e superficial por cima do curto período que transformou o aspirante a músico em um artista de enorme influência na cultura dos anos 70. A ideia do diretor Craig Brewer é abordar o roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski da mesma forma como Rudy Ray Moore encarou a vida: com bom humor.

O diretor Craig Brewer (à esquerda) posa com Eddie Murphy

Para garantir o funcionamento dessa proposta mais focada na comédia, merecem elogios tanto as atuações de Eddie Murphy e Wesley Snipes, que encarnam respectivamente a figura que sonha com o estrelato sem perder seu carisma e simplicidade e o astro arrogante que leva alguma sobriedade às cenas, questionando o amadorismo da produção do filme de Moore, quanto toda a recriação visual, que nos transporta para a Los Angeles dos anos 70 com precisão.

Em uma cena específica, o olhar incrédulo e desdenhoso lançado pelo personagem de Snipes, D’Urville Martin, em um primeiro momento desperta nossa atenção para o despreparo dos envolvidos na produção. Martin, porém, é rapidamente contagiado pelo carisma do momento, o que deixa claro que, ali, não há sequer um momento no qual Rudy Ray Moore tenha almejado algo diferente da espontaneidade e da mera diversão.

Para o funcionamento dessa proposta focada na comédia, merecem elogios as atuações tanto de Eddie Murphy quanto de Wesley Snipes

compartilhe

O que mais se destaca em “Meu Nome é Dolemite”, porém, é como o roteiro constrói um protagonista que parece não querer apenas fazer sucesso, mas sim alcançar isso por meio da representação da comunidade negra. Rudy Ray Moore se torna um astro justamente por ir às ruas, absorver a vivência dos negros e transformá-la em arte. Suas piadas, por exemplo, são inspiradas diretamente em relatos de sujeitos que o artista encontra na rua.

Outra característica interessante da produção é como o filme abraça a eterna busca por criações da figura que inspirou a obra, fazendo com que grandes conquistas, apesar de serem repercutidas, não soem jamais como um ponto final, uma conquista definitiva. O sucesso de Moore como comediante, por exemplo, é tratado pelo próprio protagonista como apenas um caminho para que ele, então, possa iniciar novas empreitadas e alcançar mais pessoas – e aí entra o desejo do personagem por realizar um filme protagonizado por si mesmo.

O roteiro constrói um protagonista que não quer apenas o sucesso, mas alcançar isso pela representação da comunidade negra

compartilhe

Ao abraçar esse estilo de narrativa que conversa diretamente com a arte de Moore, “Meu Nome é Dolemite” logo se torna algo mais do que uma homenagem ao comediante, músico, ator e produtor: ele se torna também uma homenagem a toda a cultura negra dos anos 70. O protagonista se torna uma figura representante de uma geração que ganhou voz artística não seguindo tendências, mas criando seus próprios estilos e alcançando o sucesso por permitir que milhões de fãs de música e de cinema se sentissem representados em tela.

Não surpreende, portanto, que o clímax do filme original da Netflix se preocupe em mostrar que o lugar de Rudy Ray Moore não é em sessões de gala em cinemas de Los Angeles, mas nas ruas, fazendo arte para e com aqueles que o fizeram se tornar alguém tão importante: o povo negro. Que esse projeto tenha sido posto em prática trazendo tantos artistas negros de relevância inquestionável – como Snoop Dogg – e que também consiga dar protagonismo a atores de talento indubitável, mas que haviam perdido espaço, como Eddie Murphy e Wesley Snipes, é a cereja no bolo perfeito desta comédia afetuosa e carismática.

nota do crítico

Compartilhe: