“Destino Sombrio” resgata dignidade da franquia “O Exterminador do Futuro”

Sexto filme traz o que há de melhor em "O Julgamento Final" e acrescenta novas nuances à história

por Matheus Fiore

O sucesso acachapante de “O Exterminador do Futuro” e “O Julgamento Final” foi um marco no cinema blockbuster que tornou inevitável que o estúdio explorasse a saga até esgotar a última gota em filmes medíocres. Mesmo que “A Salvação” tenha suas qualidades, seu antecessor, “A Rebelião das Máquinas”, e seu sucessor, “Gênesis”, são vistos como desastres tanto pela crítica quanto pela legião de fãs do universo das máquinas.

Assim, o anúncio de mais um filme da série apenas quatro anos após “Gênesis” não empolgou muito o público, mas a notícia do retorno de James Cameron como produtor era uma luz no fim do túnel. Afinal, o cineasta escreveu, dirigiu e produziu os dois primeiros capítulos, que de longe são os dois grandes filmes da saga. Cameron é um dos grandes nomes do cinema de ação nas últimas décadas, tendo inclusive também revitalizado “Alien” com o ótimo “Aliens: O Resgate”.

Mas após três filmes, como contornar as transformações ocorridas no universo, como a morte de Sarah Connor antes mesmo dos eventos do terceiro filme ocorrerem?

Tim Miller (à esquerda) conversa com Linda Hamilton no set

A solução de “Destino Sombrio” é simples, mesmo que demande boa vontade do espectador: tudo que acontece após “O Julgamento Final” foi ignorado. Encontramos, portanto, uma envelhecida Sarah Connor (Linda Hamilton) em uma missão ao lado da humana modificada Grace (Mackenzie Davis) para proteger Dani Ramos (Natalia Reyes), o novo alvo das máquinas que deve ser neutralizado para que os humanos não criem uma forte resistência no futuro.

A trama se assemelha bastante a do segundo filme, já que emula bastante tanto sua estrutura quanto suas soluções narrativas – como mostra o trailer, mais uma vez, uma máquina com o visual de Arnold Schwarzenegger surge para ajudar os mocinhos – e funciona justamente por ser focada exclusivamente na ação arranjada por Tim Miller (de “Deadpool”).

O retorno de James Cameron foi a luz no fim do túnel para uma franquia tão importante quanto desgastada

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Neste sentido, é interessante como Miller se adequa ao universo da saga. Partindo do roteiro de David Goyer, Justin Rhodes e Billy Ray, o cineasta repete as motivações que dão peso às sequências, mas com exceção do enorme primeiro ato, Miller opta, quase sempre, por utilizar tais gatilhos do texto apenas como ponte para criar boas sequências de ação. A proposta funciona pelo fato da ação do filme ser extremamente competente, algo alcançado por uma direção que prioriza os choques corporais e efeitos especiais sem utilizar uma montagem que retalhe a imagem ao ponto de torná-la ininteligível.

Outro ponto de destaque é como o filme busca alinhar os acontecimentos da trama com o contexto cultural de seu tempo. A relação entre Dani Ramos e as máquinas, por exemplo, vai além da prevenção de um futuro sombrio, mas dialoga diretamente com a questão dos avanços tecnológicos da contemporaneidade. O iminente domínio das máquinas em campos de trabalho específicos, que tende a acabar com várias classes de trabalhadores, funciona como motivação para Dani e entrelaça sua jornada com a batalha contra o domínio dos exterminadores.

O domínio das máquinas em campos de trabalho funciona entrelaça a jornada de Dani com a batalha contra os exterminadores

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Tal relação entre a protagonista e as máquinas, então, permite que o clímax ganhe um engajamento emocional diferente e eficiente. Assim como os dois primeiros filmes, “Destino Sombrio” escolhe uma fábrica como cenário para sua batalha final, mas se nas obras de 1984 e 1991 o cenário remetia diretamente ao temor daquela geração diante dos avanços tecnológicos e outros conflitos típicos das ficções científicas de outrora, a relação entre Dani Ramos e as máquinas faz com que o palco seja não só uma metáfora para o berço do exército mecânico que dominará o mundo, mas também o embate entre proletariado e o capitalismo, representado pelas ferramentas criadas para substituir o trabalhador e torná-lo obsoleto – Dani, vale lembrar, é funcionária de uma fábrica que está, aos poucos, trocando seus empregados por máquinas.

O fato é que, mesmo que falho, “Futuro Sombrio” não só resgata a dignidade de uma série cinematográfica tão marcante do cinema de ação e que estava extremamente desgastada, como também dá novas nuances temáticas que aprofundam o universo da série. Independente do que virá a seguir, é um alívio ver os rostos de Linda Hamilton e Arnold Schwarzenegger de volta em um “Exterminador do Futurp” que ao menos entende a saga e utiliza o que nela há de melhor para criar algo novo.

nota do crítico

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