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Imagem: Saoirse Ronan in Greta Gerwig’s LITTLE WOMEN.

“Adoráveis Mulheres” sufoca seu potencial ao lidar com ideias demais

Apesar de propostas ambiciosas, adaptação do livro de Louisa May Alcott por Greta Gerwig é prejudicada por montagem irregular

por Matheus Fiore

Articular ideias em uma obra cuja narrativa parte de outra forma de arte é um dos maiores desafios quando se faz uma transição entre mídias. No caso de “Adoráveis Mulheres”, livro publicado em dois volumes de 1868 e 1869, os filmes não são lá uma novidade: só para ficar em um exemplo, o mais popular é o da década de 30, protagonizado por Katherine Hepburn e dirigido por George Cukor. Agora, quem traz seu olhar cinematográfico para a publicação de Louisa May Alcott é Greta Gerwig.

A base da história é a mesma, situando-se como um coming of age que acompanha quatro irmãs durante sua juventude, quando elas lidam com dificuldades emocionais e financeiras enquanto o pai está ausente, servindo no exército durante a Guerra Civil estadunidense. Cada uma das irmãs possui suas próprias peculiaridades, e Gerwig utiliza um pouco de cada uma para pintar um retrato da vida feminina em uma sociedade na qual elas tinham pouco ou nenhum poder justo pela estrutura patriarcal ao seu redor – que ainda existe, claro, mas que era ainda mais machista e segregadora no passado.

A diretora neste sentido demonstra enorme respeito pela obra original. Mesmo que escolha remontar a estrutura de “Adoráveis Mulheres” (enquanto o livro é linear, o filme de 2019 opta por saltos temporais entre a pré-adolescência e a vida adulta das irmãs), a impressão que fica é que o livro inteiro está em tela. Não pela fidelidade ao material original – afinal, não o li, e portanto não poderia avaliar sob esta perspectiva – mas pela narrativa extremamente calcada nos diálogos que observamos no longa-metragem.

Greta Gerwig (ao centro, atrás da câmera) conversa com o diretor de fotografia Yorick Le Saux (à direita) no set

É justamente pelo apego ao texto, porém, que “Adoráveis Mulheres” acaba prejudicado. A ideia dos saltos temporais é interessante, mas a montagem de Nick Houy parece não saber lidar com os eventos e sufoca a narrativa. Não há muitos momentos de respiro no longa, mas sim uma infindável sequência de acontecimentos importantes e transformadores que, por se sucederem de forma ininterrupta, tornam os 135 minutos da metragem um tanto quanto maçantes.

Há tanta coisa acontecendo em “Adoráveis Mulheres” que boa parte dos eventos acaba não tendo o desenvolvimento necessário. Paixões de infância que no ato final são transformadas em gatilho narrativo para o clímax, por exemplo, mal são exploradas nas primeiras partes do filme. Nas atuações, Saoirse Ronan e Florence Pugh se esforçam para dar alguma profundidade emocional e aproveitam cada pico dramático para explorar reações faciais que fortalecem os sentimentos de suas personagens. O problema é que, no meio de muitos acontecimentos, os bons momentos acabam diluídos e minimizados.

O filme precisa lidar simultaneamente com relações amorosas, familiares, artísticas e econômicas do quarteto principal, de forma que essas quatro frentes se embolam e acabam confusas não só pela dificuldade inerente a trabalhar quatro temas em quatro personagens, mas também pela montagem que vai e volta no tempo, de forma abrupta quebrando o ritmo do desenvolvimento de tais ideias. Os melhores momentos de “Adoráveis Mulheres” acabam sendo os mais despretensiosos, nos quais as irmãs interagem juntas, brincam e se divertem sem pensar nos problemas e conflitos que as cercam.

O filme precisa lidar com relações amorosas, familiares, artísticas e econômicas, mas as quatro frentes se embolam

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Valorizando essas cenas de ternura, o diretor de fotografia Yorick Le Saux pinta a pré-adolescência das adoráveis mulheres sempre com uma luz dourada, tornando as ocasiões de despretensão e sem o peso das preocupações da vida adulta como os momentos áureos das vidas dessas jovens. Em contraste a esta paleta, o presente é quase sempre iluminado de forma fria, azulada, além de ser constantemente filmado com chuvas e cenas noturnas para criar um cenário mais sombrio e condizente com as preocupações, medos e inseguranças das jovens adultas protagonistas.

Nesse ponto, inclusive, a montagem tem seus belos momentos já que, apesar de haver muitos saltos, Houy consegue encaixar segmentos similares de passado e presente de forma sequencial e torna mais orgânica a relação entre os dois cenários, ressaltando suas semelhanças e diferenças. Este esforço para trabalhar passado e presente de formas diferentes ainda beneficia as boas atuações como de Laura Dern, que com pouco tempo de tela consegue construir duas matriarcas bastante diferentes a partir das experiências passadas nas duas épocas vividas.

Com pouco tempo de tela, Laura Dern consegue construir duas matriarcas bastante diferentes a partir das experiências vividas

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Curiosamente, é também na montagem – que é culpada pelo ritmo truncado em virtude das idas e vindas desmedidas – que “Adoráveis Mulheres” encontra também um de seus pontos mais fortes, que é a relação de sua protagonista Jo March (Ronan) com a arte. Por ser escritora, Jo tenta ganhar a vida vendendo romances para jornais, e o trabalho de Houy parte disso para fazer com que, na segunda metade da trama, os saltos temporais sugiram que o processo criativo da personagem influencie em sua própria trajetória. Há inclusive momentos nos quais “Adoráveis Mulheres” flerta com uma metanarrativa, sugerindo que a mulher do futuro reescreve a trajetória da mulher do presente e falando, claro, sobre o próprio ofício de contar histórias pela arte, colocando a protagonista como uma figura análoga à autora do filme.

Se o caráter episódico e repetitivo da montagem faz com que as mais de duas horas do longa sejam uma experiência muito mais desgastante e menos recompensadora do que poderia, o esforço estético proveniente da fotografia e da própria montagem ainda permitem que o novo filme de Greta Gerwig faça bom proveito da história contada. O lamento é mais pela falta de precisão na execução da proposta do que pelas ideias, que são muito interessantes. Bem distante da simplicidade de seu filme anterior, a cineasta americana se mostra audaciosa, e mesmo que tente dar passos maiores que as pernas ela é no mínimo uma cineasta a se observar no futuro.

Esta crítica é parte da cobertura do B9 no Festival do Rio 2019. Leia mais textos sobre o evento aqui.

nota do crítico

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