fbpx
Imagem: null

“A Ascensão Skywalker” encerra a saga “Star Wars” reafirmando os velhos mitos

Filme amplia escala do épico para criar desfecho da história da família Skywalker nos cinemas, mas sofre para conciliar narrativas da franquia em torno de seu próprio valor histórico

por Pedro Strazza

AVISO: Este texto contém SPOILERS do filme. Não diga depois que não foi avisado!

Tomada a devida distância da euforia e entusiasmo da época do lançamento, convencionou-se entre os fãs de “Star Wars” reclamar nos dias de hoje sobre a firme dependência de “O Despertar da Força” nos caminhos narrativos de “Uma Nova Esperança”. É um apontamento que é feito não sem alguma justificativa: embora iniciado sob a melhor das intenções (de agradar os fãs e trazer de volta o “espírito perdido” da trilogia clássica da franquia), este alinhamento cai no campo da paródia dentro do longa, a ponto de se incluir uma “nova” Estrela da Morte como ameaça maior do filme apenas porque ela é a única forma de resolver as urgências da trama.

Ainda que a discussão pertença apenas ao sétimo episódio da saga, esta imagem de causa e efeito espelhados na relação com o passado no fundo elucida com precisão o tratamento desta nova trilogia da franquia pelas mãos da Disney e a Lucasfilm, até porque na linha central os novos capítulos acima de tudo orbitam em uma dualidade difícil entre o resgate e o preciosismo da nostalgia coletiva. Não à toa, o pomo da discórdia desta era é sem dúvida “Os Últimos Jedi” justamente pelos riscos tomados nos temas do legado, de um tratamento que “ousa” realizar uma “deturpação” de arcos ao testar novos rumos para o ciclo da série.

Em “A Ascensão Skywalker”, porém, retoma-se a ideia de “O Despertar da Força” de trafegar campos conhecidos pelo público, uma ação que se em teoria vem para agradar gregos e troianos após dois anos de debates intensos, na prática surge como única medida possível dado a “escala final” dos eventos. Ao contrário do sétimo filme da franquia, estamos falando aqui de um episódio que vem para encerrar não apenas mais uma trilogia como a própria saga “Star Wars”, e em se tratando de uma marca tão forte em sua longevidade o único caminho só pode ser o da apoteose, do amarramento de todas as histórias contadas nestes últimos 40 anos.

J.J. Abrams (à esquerda) no set de “A Ascensão Skywalker”

Com tanta história em jogo, o procedimento adotado por J.J. Abrams se filia menos a questões materiais do universo que na reafirmação dos mitos consolidados dentro da narrativa maior da franquia. A noção de saudosismo pode até soar similar, mas a execução difere muito da primeira incursão do diretor pela franquia: enquanto o episódio 7 era orientado por uma narrativa mais física, de recriar em desertos e florestas as cidades e planetas da história para aproximar o espectador do novo ciclo de histórias, o nono filme se liga a valores e elementos da mitologia, adotando a tão celebrada jornada do herói como matriz da ligação emocional da audiência com a série – ainda que exista o cuidado estético, os ambientes deixam de ser de interesse primordial da produção, cujo gosto está mesmo no escuro e na vastidão do espaço limpo para encenar a fatalidade de seus combates principais.

Isso porque “A Ascensão Skywalker” pode até ser protagonizado pela “nova geração”, mas é todo guiado por personagens, cenários e situações do passado. Além do próprio imperador Palpatine (Ian McDiarmid) servir de  grande antagonista à trama, o longa escrito por Abrams e Chris Terrio é todo pautado neste ato recorrente de emulação da franquia, incluindo na recriação espiritual de momentos consagrados como o enfrentamento no galpão imperial de “Uma Nova Esperança”, as visões de pesadelo de “O Império Contra-Ataca” ou o clímax sob o vulto tenebroso do fracasso de “O Retorno de Jedi”. O filme começa e termina sob a aura desta passagem de bastão de vias espirituais, como se a Rey (Daisy Ridley), Kylo Ren (Adam Driver), Finn (John Boyega) e Poe Dameron (Oscar Isaac) coubesse esta missão de ressuscitar e incorporar os velhos ritos – e por “ritos” é óbvio que a referência é a primeira trilogia, com direito a X-Wing ressuscitado, personagem usando o capacete outrora utilizado por Luke Skywalker (Mark Hammil) e o retorno tardio (ainda que bem vindo) de Billy Dee Williams no papel de Lando Calrissian.

A escala dos acontecimentos aumenta, neste meio tempo. A brincadeira de que “A Ascensão Skywalker” é o filme “mais Star Wars de todos os tempos” (como vem se fazendo nesta primeira leva de opiniões) não acontece por acaso; a todo instante os personagens se veem na batalha final contra as forças do mal, seja esta a Primeira Ordem ou a “Ordem Final”, e a moral de resistência que se perpetua desde 1977 agiganta-se ao ponto da epopeia máxima da franquia. O longa faz questão de ressaltar o viés drástico destes atos apocalípticos: sobram afirmações fatalistas como a do exército de Palpatine ser dez mil vezes maior que a frota imperial, numa forma até infantil de lembrar a todo instante ao espectador que a produção é o desfecho de uma grande história contada através de gerações.

O filme começa e termina sob a passagem de bastão espiritual, como se a Rey, Kylo Ren, Finn e Poe Dameron coubesse a missão de incorporar velhos ritos

compartilhe

Mas enquanto tudo que é mostrado e contado no episódio IX aponta para um conflito de proporções nunca antes vistas na franquia, a sensação que permeia toda a narrativa é de encolhimento, como se a “última” história da saga se reduzisse imageticamente a um punhado de personagens fechados em uma sala. É verdade que “Star Wars” desde sempre carrega um tom operístico na forma como concilia os dramas de seus protagonistas com as guerras do universo e que a nova trilogia – desde “O Despertar da Força” – tenha optado por divorciar o curso da história dos personagens da trama da Resistência contra a Primeira Ordem, mas é em “A Ascensão Skywalker” que a saga da família Skywalker se aliena de vez dos acontecimentos gerais ao seu redor. Tudo está em risco e a todo momento o público é bombardeado com a noção do quão necessário é derrotar as forças fantasmas do Império para reestabelecer a paz na galáxia, mas os arcos dos personagens nunca parecem repercutir esta noção, presos a uma dramaturgia relacionada a seus destinos e os da Força.

Neste ponto é possível imaginar que o debate sobre esta questão se polarize nas primeiras semanas entre quem acredite que os rompimentos estruturais propostos por Rian Johnson em “Os Últimos Jedi” inviabilizem tal procedimento e quem acuse a nova trilogia de ser uma imensa fanfic construída em cima do imaginário da história de Luke, Leia (Carrie Fisher) e Han (Harrison Ford), com o nono episódio sendo apenas a grande vítima lógica de todo o processo. É a articulação de Abrams em direção aos mitos estabelecidos na série dentro da narrativa, porém, que de fato bota tudo a perder neste capítulo final, pois ela presume uma unidimensionalidade de tratamento que esvazia todo o discurso a um nível quase de auto-ajuda.

Em “A Ascensão…”, o conflito dos Jedi e dos Sith existe única e exclusivamente para os Skywalker e aqueles imediatamente ao seu redor. A guerra soa como mera consequência, como se todos os povos em risco servissem de meras casualidades à guerra pelo poder e o domínio da Força, uma impressão que só é reforçada no momento em que Finn assiste de longe, impotente e desesperado, um dos duelos entre Rey e Kylo Ren, ignorado enquanto procura a segurança da amiga Jedi.

É em “A Ascensão Skywalker” que a saga da família Skywalker se aliena de vez dos acontecimentos gerais

compartilhe

Posto desta forma, talvez fique mais compreensível o porquê do nono episódio soar tanto como a fanfic a qual tantos acusam a trilogia da Disney de ser. Não apenas por conta da longa e corrida trajetória e pelo acúmulo de eventos contados nesta, mas no próprio rumo tomado com os personagens, cujos destinos parecem vítimas de decisões feitas para “reparar” os “danos” gerados por “Os Últimos Jedi” e manter rodando o ciclo eterno (e cada vez mais diminuto) da franquia. Revelações, mortes e reviravoltas ocupam posição central na narrativa, servindo como beats de roteiro prontos para surpreender o espectador no conforto de suas resoluções enquanto o drama se reorganiza na estrutura de câmara citada acima, com Rey e Kylo Ren ocupando a instância “real” – a Força, o “legado” dos Skywalker – e Poe e Finn tocando o núcleo da resistência.

A parte mais esquizofrênica desta equação sem dúvida são os coadjuvantes, que ou são destituídos de qualquer relevância (como a Rose de Kelly Marie Tran, reduzida a mais um soldado da Resistência tal qual Billie Lourd) ou se convertem em puro mecanismo de roteiro preguiçoso (o Hux de Domhnall Gleeson), algo que por si só ilustra o nível de segurança buscado pelo longa em suas escolhas. Funcionalidade define toda e qualquer relação no curso do filme, e quem está esperando um prosseguimento das tramas mais “emocionais” do capítulo anterior deve se frustrar com o choque de uma narrativa ao mesmo tempo tão guiada por personagens e tão recatada nos envolvimentos – as respectivas interações de Finn e Poe com a rebelde Jannah (Naomi Ackie) e a mercenária Zorii (Keri Russell), por exemplo, chegam a ser cômicas na maneira como se equilibram entre o “flerte” e a amizade mais neutra.

O mais divertido nesta narrativa asséptica e fadada à comparação eterna com ficções escritas por fãs, porém, é que ela acaba por concluir da única forma possível o ciclo desta nova encarnação da franquia nestes anos 10, cuja base sempre foi o relacionamento direto do fã com o universo da saga. Se Rey, Kylo Ren, Finn e Poe foram criados do início como espécie de avatares do público em seu novo contato com a mitologia “envelhecida” da franquia, faz sentido que “A Ascensão Skywalker” encerre suas trajetórias sob o vulto dos mitos e a consumação do desejo em integrar o passado. O filme não à toa prefere o epílogo que reforça esta relação ao invés de seguir o caminho da celebração coletiva, como se confessasse ao espectador: de que adianta o triunfo sem os louros do pertencimento na experiência promovida?

Sob este viés, o que falta neste procedimento adotado por Abrams é não apenas uma consciência da banalidade intrínseca nesta repetição de ciclos de heroísmos, sacrifícios e equilíbrios (e neste ponto não ajuda que Johnson tenha feito exatamente isso no antecessor), mas também a ligação entre essa experiência com os rumos eternos da saga na luta entre o bem e o mal. É neste momento que a constatação dos limites do nono filme ficam mais evidentes: depois de tantas idas e vindas dos personagens sobre o passado da história e suas próprias posições neste âmbito, a saída mais segura pelo escapismo em forma de pertencimento soe fácil demais, rasa dentro de um legado tão imenso e discutido ao longo dos últimos cinco anos.

nota do crítico

Compartilhe:
icone de linkCopiar link