“O Preço da Verdade” traz a tona o lado corrosivo da vida contemporânea

História do processo ambiental movido contra a Dupont é a base para Todd Haynes criar um filme de sufocamento sobre a lógica do cotidiano

por Pedro Strazza

Dentre todos os filmes de 2019 que buscam (ou pelo menos aspiram) abarcar o estado de mal estar social que percorre os tempos atuais, quem talvez melhor incorpore esta condição como base da narrativa de suspense seja este “O Preço da Verdade”, o que não deixa de ser um tanto irônico dado o contraste do projeto com os contemporâneos “auterísticos”. Embora seja o novo trabalho de um diretor celebrado exatamente por seu estilo “diferente dos padrões”, o longa não deixa de ser um trabalho comissionado, portando-se como a típica produção inspirada em fatos que vive a habitar as salas de cinema mês sim, mês não.

O que impede o longa de soar como mais um desses casamentos arranjados e feitos para pagar as contas, porém, é o perfil das partes envolvidas. Dono de uma carreira dominada por produções de cunho intimista, Todd Haynes é também um cineasta que desde sempre mantém em seus filmes a perspectiva exterior dos dramas registrados, buscando refletir no espaço de cena as turbulências internas passadas por seus personagens. É uma característica que aqui cai como uma luva para o thriller ambiental, dado que o projeto assumido pelo diretor almeja registrar um dos grandes escândalos industriais da História antes de tudo como mal a ser expurgado, reflexo do procedimento de exploração agressiva do qual se visa o capital acima de todas as consequências.

É um ângulo evidente desde o início no filme escrito por Mario Correa e Matthew Michael Carnahan, pois ainda que se aspire ao suspense político do porte de um “O Informante” ou “A Firma” – até porque o protagonista de início tem mesmo esse quê de “informante das internas” – sua primeira referência é nada menos que o “Tubarão” de Spielberg, emulado na narrativa pelo prólogo dos jovens “condenados” por infringirem as regras. Mesmo que Haynes não possua em mãos um animal selvagem, sua atenção está voltada também para o lado social em torno de toda a história de horror que é o caso judicial movido contra a industrial DuPont, a qual no início dos anos 2000 foi denunciada por intoxicar a quase totalidade da população estadunidense após passar décadas despejando uma das substâncias tóxicas por trás da produção do Teflon em reservas públicas de água.

Todd Haynes (à direita) orienta Mark Ruffalo no set

Sob esta perspectiva, o grande truque de “O Preço da Verdade” é que, ao promover este deslocamento do olhar, ele também amplia o escopo da narrativa à grandiloquência pedida pela história, cujo traço ambicioso é natural dado a extensa duração do caso – demoram-se quase duas décadas para o procedimento legal ser “concluído”. Enquanto o roteiro escrito por Correa e Carnahan se concentra em dissolver este extenso lado factual dentro de uma estrutura coerente, Haynes encena o processo como mais uma de suas tramas de interiorização de conflitos, de olho na forma como o protagonista e advogado corporativo Robert Bilott (Mark Ruffalo) lida com esta luta legal contra a Dupont para trazer a verdade à tona.

O procedimento fascina porque ele torna o andamento jurídico menos refém das reviravoltas do processo e o envolve na narrativa maior de exaustão, um jogo que é ideal ao longa para emparelhar o sofrimento do advogado com o das vítimas do despejo promovido pela companhia industrial. Esta relação entre Billot e as comunidades afetadas, porém, é de mais pura repulsa, com as cidadezinhas ocupadas pela Dupont não hesitando em tomar posição a favor da empresa a cada passo tomado pelo protagonista e as pessoas a quem representa para destruí-la.

No fundo, Haynes constrói aqui o que é um grande exercício de deturpação, conforme o objetivo inicial do projeto em promover algum tipo de conscientização sobre o caso é convertido sem pudor em lógica de comprovação sobre os males da vida gerida pela iniciativa privada. Não é por acaso que a trama “começa” em um escritório e “termina” em um Benihana: o escândalo do Teflon serve como ponto de partida para se fazer a constatação do quão subjugados nós, o público, estamos a estas grandes empresas, cuja atuação se interessa por tudo exceto o bem-estar do indivíduo.

Todd Haynes encena o processo como mais uma de suas tramas de interiorização de conflitos

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É aí que a lógica de cinema do diretor entra, porque o que puxa toda essa narrativa é a trajetória do próprio Billot dentro do caso que conduz. A jornada do advogado no filme não se limita a uma sequência ingênua de constatações sobre a inviabilidade deste modo de vida ou num jogo de paranoia tradicional (embora o longa a certa altura resolva brincar com esta possibilidade), mas se permite refletir nos espaços e principalmente no corpo do personagem. A deterioração é o grande motor de “O Preço da Verdade” pois o modo de vida registrado é visto como um cotidiano corrosivo, e nada sintetiza melhor este raciocínio que as cenas das crianças com os dentes podres dos anos de consumo da substância.

Neste ponto se percebe muito do trabalho de Haynes a partir do roteiro, porque o filme acaba se fazendo nos arredores do procedimento legal ao invés de seguir pelo drama de tribunal. Da performance carregada de Ruffalo, que acumula gradualmente o peso dos anos do processo em sua postura, ao casamento do protagonista com a esposa Sarah (Anne Hathaway, excelente na incorporação física do lado traumático da história), a narrativa está sempre atrás da evidenciação deste desgaste que habita silenciosamente o cotidiano, de olho especialmente na normalização dos processos abusivos que é cerne a todo o raciocínio perverso por trás dos crimes da Dupont.

São os detalhes que saltam os olhos: um recém-admitido sócio (William Jackson Harper) que se revela o único contra o prosseguimento do caso por ferir a reputação da firma, a advogada (Louisa Krause) que só consegue a promoção muito tempo depois dos outros colegas porque engravidou, a doença vista com condescência ao invés de sinal de alerta, até os eventos de luxo que continuam a colocar negros para servir os brancos. Tudo isso contribui para uma sensação geral de afogamento, a qual está no centro das atenções do longa.

A deterioração é o grande motor do filme pois o modo de vida registrado é visto como um cotidiano corrosivo

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Mas ainda que todo o procedimento esteja inscrito na constatação e na degradação (o papel de Bill Camp que o diga), a produção também não se deixa levar apenas pelo mal-estar dos acontecimentos. “O Preço da Verdade” no fim é também um registro de sobrevivência, da luta diária de Billot e seus clientes por vida em meio a este caos de morte, e Haynes abraça esta narrativa ao final não como ponto de fuga e sim como forma de estender a experiência do filme para o além da tela, uma poesia que está presente no desfecho ao se apontar no curso da história as contrapartes reais de determinados personagens.

Para além do testemunho, este momento acaba poético também por sedimentar a teoria final do longa: as grandes empresas podem adulterar a História como bem preferir, mas sua resistência continua presente nem que seja apenas como fantasma de uma imagem.

nota do crítico

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