Em “Future Nostalgia”, Dua Lipa repagina tudo o que já conhecemos do pop – e é perfeito

Cantora explora os acervos de uma discoteca já tão revisitada e ainda assim entrega um trabalho sofisticado e cativante

por Soraia Alves

É inegável o sucesso que Dua Lipa atingiu já com o seu primeiro trabalho, álbum lançado em 2017 e que leva apenas o seu nome. Rapidamente, “New Rules” se tornou o hino de uma geração de mulheres que lidam com “boys lixo”, um hit tão viral quanto qualquer meme contemporâneo. Posteriormente, a cantora ainda usou dos conhecidos “feats” para encorpar ainda mais a sua base de fãs, lançando canções ao lado de nomes como Calvin Harris e Mark Ronson, produtores com o dom de criar sucessos instantâneos.

Todo esse contexto traz um peso a mais para “Future Nostalgia”. Essa não é só a prova do segundo álbum, pela qual todos os artistas passam, mas também um teste sobre a posição de Dua Lipa como uma das figuras mais fortes da música pop atualmente. Como o próprio nome do álbum já entrega, essa não é nenhuma obra inovadora que marca qualquer tipo de “nova era” para o pop. E um trabalho não precisa disso para ser bom. Nem Dua Lipa precisa disso para manter seu status quo privilegiado.

A função de “Future Nostalgia” é ser o mais puro creme do entretenimento. Ele nasceu para fazer você dançar, cantar junto, se divertir e proporcionar das melhores sensações de bem-estar (ainda que você esteja sozinho em casa), mesmo em seus momentos de menos brilho como “Good in Bed”. Essa é, inclusive, a intenção da Dua Lipa: “Eu queria fazer músicas que desviassem sua mente disso tudo”, disse em recente entrevista à Vogue da Austrália. E o resultado não poderia ser mais preciso.

A homenagem da cantora a “tudo de bom que a música pop já nos deu” passa por nomes clássicos como Madonna, Prince, Gloria Gaynor e Nile Rodgers, sem deixar de lado referências mais jovens como Robyn e Lilly Allen. Esse é, em essência, um álbum de pop tão retrô que emana muito da Disco Music, com toques de new wave, syntyhpop e o eletrônico moderno.

Se “Don’t Start Now” é um hit óbvio, ainda que com uma linha de baixo que merece elogios, a viciante “Physical” é das melhores músicas já feitas pela cantora, evocando de forma totalmente repagina o sucesso de mesmo nome de Olivia Newton-John. A nostalgia proposta por Dua Lipa está toda resumida de forma sagaz e cativante nessa canção.

Assim como “Physical”, “Break My Heart” traz uma referência bem escancarada, nesse caso da música “Need You Tonight”, da banda australiana INXS, também repaginada e parecendo que o riff de guitarra já nasceu em sua versão 2020. Mas é “Pretty Please” a faixa que merece todos os louros do trabalho – aqui Nile Rodgers pode inclusive se orgulhar do legado que tem inspirado trabalhos como esse até hoje.

Em todo o álbum, Dua Lipa continua abordando uma temática sobre ser dona de si, de seus desejos, e uma mulher que sabe o quanto a igualdade entre gêneros ainda se mantém muito mais na teoria que na prática. Em “Boys Will Be Boys”, talvez a música mais forte do disco, a denúncia sobre assédio sexual é clara: “É um hábito caminhar para casa / Antes que o sol se ponha / E colocar suas chaves entre os dedos / Quando há garotos em volta / Não é engraçado como rimos para esconder nosso medo?”.

É justamente o seu empoderamento, da “fêmea-alfa” como ela mesmo se autoproclama na faixa que abre o álbum, que a permite explorar os acervos de uma discoteca já tão revisitada e ainda assim entregar um trabalho sofisticado e com uma sonoridade tão magnética. Em nenhum momento “Future Nostalgia” tem a presunção de reinventar o pop, e é exatamente isso o que o torna leve e tão especial.

nota do crítico

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