Com ação bem feita, “Resgate” trata protagonista como dispositivo de gênero

Estreia do coordenador de dublês Sam Hargrave na direção mostra cineasta que entende bem o formato que explora

por Matheus Fiore

Após o sucesso de “John Wick”, Chad Stahelski e David Leitch seguiram caminhos distintos: enquanto Stahelski permaneceu na franquia e comandou as ótimas continuações de 2017 e 2019, Leitch se aventurou por outros gêneros, dirigindo o interessante “Atômica”, o fraco “Deadpool 2” e o divertidíssimo “Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw”. Mas mesmo em caminhos diferentes – tanto na questão da separação, quanto na forma como contam suas histórias – os dois permaneceram nomes relevantes no atual cinema de ação americano, ao lado de colegas como Christopher McQuarrie (que dirige os novos capítulos da série “Missão Impossível”).

O diferencial da ação de alguns dos filmes citados é a construção do gênero baseada na ação física, bem encenada e fotografada e que não abusa de câmeras trêmulas, nem de efeitos especiais ou montagem acelerada para disfarçar ou ocultar a violência. “Resgate”, novo filme original da Netflix e protagonizado por Chris Hemsworth, é mais uma destas produções a calcar sua ação nesse estilo de cinema, que é imageticamente mais direto e desapegado ao drama dos eventos da trama – não por acaso seu diretor, Sam Hargrave, surgiu justamente como dublê em “Atômica”, de Leitch. O interessante, porém, é que Hargrave não nega de onde veio, mas jamais se limita a emular quem o inspirou.

O diretor Sam Hargrave (à direita) orienta o elenco no set

Assim como “John Wick”, “Resgate” parte de uma premissa absurdamente simples: o mercenário Tyler (Hemsworth) precisa resgatar uma criança sequestrada por um traficante indiano. Há diferenças, porém: Hargrave propõe um cinema menos direto – tanto nos confrontos quanto no tratamento do gênero, já que aqui há muito mais aproximação com o drama do que na franquia estrelada por Keanu Reeves, por exemplo.

A partir da premissa simples, Hargrave constrói um filme que, por mais que ensaie variar seu gênero passeando por muitos dramas familiares, se sobressai mesmo quando faz o que seu diretor melhor domina: ação. Tiros, combates corpo-a-corpo e uma identidade visual baseada em mostrar os confrontos da maneira mais direta e nítida possível são as características primordiais do cinema proposto por Hargrave.

Sobre o protagonista, Tyler age quase de forma mecânica, quase instintiva, bem como acontece com John Rambo em “Programado Para Matar”. É a clássica história do exército de um homem só enfrentando um exército de centenas de soldados: nem mesmo quando diante do objetivo de sua missão – a criança sequestrada – o protagonista demonstra alguma humanidade, algo que é sutilmente explorado na segunda metade do filme mas nunca deixa de ser apenas uma característica menor em um longa focado na ação por si. O mercenário é praticamente um dispositivo cinematográfico ambulante, como o David Collins de “O Hóspede”, mas enquanto neste o soldado reage aos estímulos externos, o mercenário de “Resgate” é uma máquina autodoutrinada, que se condiciona mentalmente a viver em função de sua missão e suprimir quaisquer sentimentos que possam passar por sua cabeça que não sejam o ódio pelos obstáculos.

O mercenário é praticamente um dispositivo cinematográfico ambulante

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Esse impulsionamento do próprio ódio funciona de forma interessante no filme. Hargrave dirige o filme como se a câmera estivesse à mercê do próprio protagonista. Quando Tyler gira um inimigo no ar antes de chocá-lo contra o chão, a câmera faz o mesmo movimento, criando uma sensação de imersão bastante eficiente para nos aproximar de um personagem que, pelo menos até ali, não possuía desenvolvimento algum. Planos-sequência também são uma ferramenta interessante para tornar o filme acelerado – o de “Resgate”, inclusive, parece em alguns momentos uma versão ainda mais frenética do visto em “Atômica”, curiosamente o último filme no qual Hargrave trabalhou como dublê.

Em dado momento, “Resgate” contraria sua própria lógica, já que se esforça demais para humanizar personagens que funcionavam muito bem como dispositivos. Entretanto, esses momentos não arruínam a experiência e nem mesmo reduzem a potência da obra. Funcionam quase como intervalos ou “cut scenes” de videogames, que existem apenas para dar algum pano de fundo dramático que, posteriormente, servirá justamente para potencializar a ação.

O mercenário que protagoniza “Resgate” jamais cria um laço familiar com a criança, mesmo que haja uma cena ou outra nas quais os dois se aproximem emocionalmente e falem um pouco sobre si mesmos. O diretor entende que seu filme funciona justamente por tratar o mercenário como um dispositivo cinematográfico que proporciona a ação, e por isso logo regressa para a pancadaria. Neste sentido, outra ideia interessante é a transformação de alguns inimigos em aliados de forma extremamente simples ao longo do filme, fazendo com que a ideia de “ação pela ação” se fortaleça ainda mais – e isso faz muito sentido em um filme que, por proposta, é tão entregue ao seu gênero e se importa tão pouco com qualquer aprofundamento psicológico.

Hargrave dirige o filme como se a câmera estivesse à mercê do próprio protagonista

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Os poucos momentos de conversa e calmaria de “Resgate” existem como cut scenes em jogos de ação, em espaços menores, por meio de diálogos simples e como entreatos que servem apenas para nos conectar à próxima fase do jogo, à próxima cena de ação. É justamente por entender o que funciona e o que não funciona em sua proposta cinematográfica que Hargrave consegue fazer o filme funcionar. Não há uma pseudo-intelectualização em cima dos personagens, não há um esforço por embutir complexidade no “herói”, e nem há a pretensão de emocionar com flashbacks e histórias familiares: “Resgate” existe unicamente para fazer seu gênero falar.

Geralmente, boa parte das produções da Netflix acabam por cair na mesmice por parecerem simples produtos resultantes de estudo de algoritmo. Séries como “Stranger Things” e as últimas temporadas de “Black Mirror”, por exemplo, são meras transposições de interesses dos assinantes em produções audiovisuais. É uma situação curiosa pois, mesmo que esse cenário não faça de “Resgate” um filme melhor ou especial, é gratificante ver sair de um lugar onde geralmente não há muita coisa original uma produção que não só lança um nome interessante ao cinema de ação, mas também presta uma homenagem respeitosa ao gênero por entender sua origem e trabalhar em cima dela.

O longa até ensaia dramatizar sua narrativa e humanizar seus personagens, mas como o jovem vítima do sequestro diz em certo momento, ele é apenas um “pacote”, um adereço da missão do protagonista. Tudo ali existe para fazer o gênero falar. É um cinema honesto e agradavelmente eficiente.

nota do crítico

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