Filosofia, espiritualismo e sagacidade: o combo que faz “The Midnight Gospel” perfeito

Com texto profundo e visual psicodélico, projeto de Pendleton Ward e Duncan Trussell é dos melhores lançamentos de 2020 até agora

por Soraia Alves

Há uma forma genérica e até mesmo depreciativa de classificar obras como “The Midnight Gospel”: mais um desenho chapado. Não que haja qualquer problema na chapação, inclusive a nova série da Netflix aborda a legalização das drogas já em seu primeiro e maravilhoso episódio. Mas resumir um material tão rico em texto e imagem como apenas “chapado” é raso demais.

Ser o novo projeto de Pendleton Ward, o criador de “Hora da Aventura”, claramente é um chamariz imenso para a série. Mas há vários outros elementos que fazem de “The Midnight Gospel” um dos melhores lançamentos de 2020 até agora, especialmente a forma como Duncan Trussell conduz os entrevistados de seu próprio podcast “The Duncan Trussell Family Hour”, criando diálogos profundos e ao mesmo tempo totalmente compreensíveis.

Na série, que ganhou sua primeira temporada com 8 episódios de pouco mais de 20 minutos cada um (com exceção do episódio final), Trussell dá voz ao personagem principal Clancy, um podcaster (em alguma versão humana do futuro – ou não) que mora sozinho em um trailer equipado com um computador faz-tudo, e que permite a Clancy viajar por diferentes mundos através de um simulador (simbolicamente em formato de vagina, importante ressaltar). São nessas viagens que o personagem encontra seus entrevistados, seres dos mais variados que apresentam sempre muito conhecimento sobre assuntos também diversos, mas que se conectam de certa forma com uma busca por verdades filosóficas.

A profundidade dos diálogos da animação se dá justamente porque as conversas são realmente feitas com especialistas – por estudo ou por vivência. E embora o seriado todo seja bastante cunhado nos ensinamentos budistas, tudo o que é espiritual e/ou existencial é abordado, do tarot ao mindfulness, de Cristo a Nietzche.

Além de não precisar ser nenhum expert em assunto algum para compreender “The Midnight Gospel”, o magnetismo que faz você emendar episódio atrás de episódio está em como todos esses assuntos são tratados, tocando questões que qualquer pessoa deve enfrentar um dia na vida: medos, lições, sofrimentos, dúvidas, tristezas, questionamentos sobre perdão ou vingança, o enfrentamento inevitável da morte. O episódio 7, inclusive, que trata diretamente com a morte, aqui dublada pela autora, youtuber e agente funerária Caitlin Doughty, é dos melhores da série. Já pensou em qual formato físico você daria para a morte? Aqui você vai pensar sobre, e muito.

A bela homenagem de Trussell para a sua mãe, a terapeuta clínica Deneen Fendig, é o ponto alto de todo o trabalho e dificilmente não arrancará lágrimas do mais sensíveis. Vale acompanhar a delicadeza na arte desse último episódio, que cria uma representação perfeita sobre o ciclo da vida e o quanto estamos estritamente conectados uns aos outros, especialmente a quem amamos.

Visualmente, vale dizer, a série traz muito dos traços característicos de Ward, dessa vez ainda mais psicodélicos, especialmente pelas cores gritantes e pela liberdade criativa originada da ideia de mundos simulados, afinal, o próprio Clancy se apresenta em cada planeta com uma forma física diferente.

Algumas pessoas podem considerar difícil acompanhar simultaneamente texto + animação. Realmente, é muita informação ao mesmo tempo, e talvez a série precise ser vista mais de uma vez para ser contemplada em todas as suas nunces. Ainda assim, isso não é um problema, pelo contrário, o conceitual brinca até mesmo com a ideia de consumo imediato criado pelas plataformas de streaming, de maratonar um conteúdo por inteiro e aguardar intermináveis períodos sem consumir nada do mesmo. Por quê não assistir mais vezes?

Além de suas questões existenciais, “The Midnight Gospel” ainda cutuca assuntos bem atuais, como a dualidade entre o que é apresentado nas redes sociais e o que de fato é vivido por todos nós, mas principalmente por figuras que usam a internet como trabalho, afinal, Clancy é um wannabe influenciador digital não?

O fim do mundo está extrema e inevitavelmente presente no seriado, e por isso mesmo ele nos deixa uma estranha sensação de “não era exatamente isso o que eu gostaria de ver, mas era isso o que eu precisava ver agora”. Não é necessário aceitar ou concordar com nenhum dos conceitos e histórias ali apresentados, e essa é a graça da viagem proposta por “The Midnight Gospel”: enxergar que é delicioso entender que não tem muito o que entender na vida, e o que vale, no fim das contas, é a experiência pessoal de cada um. E isso não é papo (só) de chapado!

nota do crítico

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