Trambiques, crimes e muita dor: a história da seita de João de Deus em “A Casa”

Livro-reportagem de Chico Felitti é importante não só para entender os eventos de Abadiânia e a mente de João de Deus, mas sobre como a promessa de uma saída mágica traz problemas maiores

por Beatriz Fiorotto

[Nota do editor: a história de João de Deus e o livro “A Casa – A História da Seita de João de Deus”, envolvem relatos de abuso sexual e suas consequências psicológicas. Recomendamos cautela.]

Quando eu era criança, passava muitos domingos na casa dos meus avós maternos. Tinha churrasco com o típico lençol esticado no portão, a família toda reunida e a televisão sempre ligada no “Domingo Legal”. E foi em uma dessas ocasiões que eu vi João Teixeira de Faria, o famoso João de Deus, pela primeira vez. Ele aparecia num link ao vivo fazendo uma raspagem no olho de uma senhora. A casa estava abarrotada de pessoas olhando atentamente, enquanto Gugu dizia que estava impressionado. Em um certo momento, ele até chegou a dizer “mas João, não vejo catarata aí”. Não me lembro qual foi a resposta, já que minha mãe pediu pra trocarem o canal pra “eu não me impressionar com essas coisas”.

Bem, eu me impressionei. E passei muito tempo pensando naquela cena durante anos. Até mesmo depois de adulta, quando minha avó fez uma cirurgia para se livrar de sua própria catarata, aquela imagem da faca de cozinha no olho de alguém voltou à minha cabeça. E eu sempre pensei: “Como aquele cara fazia isso sem ser médico? Será que faz isso ainda?”. Por mais conservadora e meio religiosa que minha família fosse, nunca foram chegados em médiuns que apareciam na TV. Por isso, não ouvia muito falar sobre ele.

Mas em 7 de dezembro 2018, veio o “Programa do Bial”. E nesse programa – que você pode assistir na íntegra aqui – 4 mulheres resolveram quebrar o silêncio e contar em detalhes sobre os fatos que aconteciam na Casa Dom Inácio de Loyola em Abadiânia, Goiás. E o assunto explodiu. Tomou conta de noticiários, derrubou pautas de jornais e jogou luz sobre todos os absurdos que aconteciam em nome da “cura espiritual”. Não se ouvia falar de outra coisa.

Chico Felitti já é um autor conhecido. em 2017 uma reportagem extensa no Buzzfeed Brasil sobre Ricardo Corrêa da Silva, uma figura da noite paulistana que era conhecida pejorativamente como “Fofão da Augusta”. Depois, veio o livro “Ricardo e Vânia”, em 2019 e pela editora Todavia, e o audiolivro “Mulher Maravilha, em parceria com a Storytel. Em seus trabalhos, ele sempre lidou com assuntos delicados, espinhosos e geralmente evitados com cuidado e ética. 

Abuso sexual não é um assunto fácil. Muitas pessoas, e eu me incluo, evitam ativamente consumir conteúdos que tenham cenas, descrições ou menções porque o mal-estar é garantido. Mas quando soube que ele estava escrevendo sobre o caso de João Teixeira de Faria, confiei na reputação do Chico e, mais ainda, na minha curiosidade de entender o que era aquele circo todo. E com esse sentimento comecei as primeiras páginas de “A Casa – A História da Seita de João de Deus”.

Cada capítulo do livro te leva numa viagem no tempo. O autor alterna entre o passado glorioso do “Curador”, um dos vários apelidos de João de Deus, e o desmorona de sua reputação nos tempos atuais, entre o final da década de 70 e 2020. Começamos, então, sabendo que João já carregava com uma certa reputação: ele saíra de Anápolis, cidade onde morava, com uma acusação de homicídio e um discurso persecutório. Em 1977, ano de sua chegada na tal Abadiânia, ele já acumulava seguidores que acreditavam em seus poderes para curar quaisquer males, físicos os espirituais.

A promessa de toda cura para todo mal é tão velha quanto o mundo, mas ainda muito poderosa. Ouvir alguém jurar que tem poderes para te ajudar – e que você terá que se esforçar relativamente pouco para ter resultados – vende de aparelhos de definição abdominal até bálsamos milagrosos e garrafas de água benta. Mas se engana quem acha que João cobrava por tudo. Ele prestava seus serviços gratuitamente e só cobrava pelos produtos. Cirurgias espirituais, procedimentos com incisão e a bendita da raspagem nos olhos eram serviços gratuitos. Além disso, a Casa Dom Inácio de Loyola também distribuía comida. Nos aniversários do médium, dava festas para milhares de pessoas comerem e beberem de graça. Ali era um lugar que falava de amor. Espiritualidade, compaixão, acolhimento, cura. Falava muito, mesmo, e ajudava a comunidade local. Gerava empregos, movimentava o turismo. Atraía celebridades como Xuxa, Juliana Paes, Luciana Gimenez, Ronaldo, Naomi Campbell e até Oprah Winfrey, que o entrevistou para seu programa em 2012 – um material que nunca foi ao ar, vale acrescentar. 

Com todos esses dados, registros e relatos, o autor deixa claro o pensamento geral do público: como desconfiar de tamanha bondade? Como não gostar de João de Deus, essa alma generosa que nada cobrava? 

É que algum custo tinha, sim. E a cada virada de página do livro, isso se torna mais evidente. O preço era o desaparecimento de pessoas que, por algum motivo, se desentendiam o Curador. O garimpo ilegal de um minério chamado autunita, do qual se pode extrair urânio, que João tentou contrabandear – e esconder dentro da própria Casa Dom Inácio de Loyola. A vida de pessoas que confiaram apenas em seus poderes para se curarem de uma série de doenças escabrosas e, obviamente, não sobreviveram. Mentiras, encenações. E o preço era, também, a dor sem tamanho das mais de 500 mulheres que denunciaram o médium por violência sexual. 

Desde a década de 80, mulheres relataram eram coagidas a terem relações sexuais com João. Ele dizia que os atos faziam parte da purificação, do processo necessário para a sua cura ou de parentes, e que sem a colaboração da vítima, o procedimento não faria efeito algum. Ou seja: se algo falhasse, a culpa seria delas. Se contassem, nada seria feito, já que parecia existir um consenso não dito, um consentimento geral de que aquilo era parte do trabalho. E assim seguiu o médium, sempre da maneira que quis, protegido pela sua aura de enviado divino. 

Em cada capítulo, Felitti deixa claro como João Teixeira de Faria trabalhou para ser um verdadeiro sabonete. Escorregava de acusações, não era condenado por falta de provas e passou décadas cometendo as mais diversas maluquices bem arquitetadas do jeito que quis, sempre amparado por sua enorme rede de apoio tecida de aliados políticos e fiéis que se negam até hoje a acreditar que aquele homem em quem depositaram tamanha fé, devoção e confiança é, na verdade, um criminoso. 

É preciso dizer: não é uma obra fácil de se ler. Felitti é um jornalista que tece sua escrita com delicadeza e pitadas de ironia, misturando também seu envolvimento pessoal na reportagem para que sintamos junto com ele os mais diversos sentimentos de revolta, curiosidade, dúvida, espanto e indignação. Suas narrativas são bem costuradas e envolventes. E o livro começa relatando casos pesados e falcatruas, mas os eventos escalonam mais e mais conforme a história avança. E o choro vem em muitos capítulos, especialmente os finais, que contam com entrevistas de algumas das vítimas. O ciclo da violência, do abuso e da culpa é algo forte e difícil de digerir.

Mas como bom jornalista, Felitti não escondeu a verdade crua. Não açucarou os detalhes gráficos, não criou uma tensão para depois aliviar o leitor. Ele deixou a tensão ali. No nosso colo. Para que lidemos com algo que nunca queremos lidar, porque machuca. É muito ruim. Mas precisamos, sim, dizer algo sobre isso para não normalizar esses atos. Continuar a esconder é ser conivente com a situação. É preciso falar sobre o assunto, por mais absolutamente desconfortável que seja. E Chico descarta a discrição e escolhe o megafone para quebrar esse silêncio de décadas.
Por isso, “A Casa” é um livro-reportagem emocionante e importante não só para entender os eventos passados em Abadiânia, a mente de João de Deus e a profunda gravidade de seus crimes, mas também é um exemplo sobre como a promessa de uma saída mágica para dificuldades traz problemas maiores ainda.

E que aproveitadores e os tais problemas ainda estão bem longe de desaparecer.

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