“Chromatica” é explosão pop, frenética e futurista de Lady Gaga

Cantora volta a ser a "Mother Monster" e entrega aos fãs o que eles pediam há tempos: um disco para dançar do início ao fim

por Soraia Alves

Não há dúvidas sobre o talento e a multiplicidade de Lady Gaga. Desde que se apresentou ao mundo com “The Fame”, em 2008, ela é um ícone que não para de surpreender através de uma estética sempre mutável semelhante a David Bowie ou à sua musa inspiradora Madonna. Gaga já foi Jo Calderone, Joanne, parceira de jazz de Tony Bennett, ativista, artista do Super Bowl, vencedora do Oscar. Nem tudo agradou aos fãs, nem tudo foi um sucesso (olá, “Artpop”), mas tudo foi extremamente válido e muito bem gerenciado por ela. Agora, com “Chromatica”, a cantora volta a ser a “Mother Monster” e entrega aos fãs o que eles pediam há tempos: um disco para dançar do início ao fim.

Embora “Chromatica” seja uma volta ao pop mais raiz de Gaga, ela não faz isso de forma exatamente óbvia. A inspiração eurodance dos anos 90 faz com que pouco nos lembremos até mesmo de seus hits mais dançantes do passado, como “Just Dance”, “Poker Face” e “Bad Romance”. A faixa que mais usa das construções clássicas dos pop dos últimos anos é “Stupid Love”, single viciante e única música do trabalho produzida por Max Martin, que coleciona inúmeros hits das últimas décadas, de Britney Spears à Adele.

Ao explicar o conceito de “Chromatica”, o produtor geral do álbum BloodPop, disse em entrevista que o nome é uma forma de representar “todas as cores, todos os sons”. De fato, o ideal foi atingido e o resultado é uma explosão pop, frenética e futurista.

O álbum também traz uma curiosa seleção de convidados: Ariana Grande em “Rain On Me”, Blackpink em “Sour Candy” e Elton John em “Sine From Above”. A mistura funciona bem, resultando em um forte dueto com uma das maiores divas do pop atual, um flerte com o K-pop e uma jogada segura ao lado de um amigo ícone da música mundial.

A canção com Elton John, por sinal, é das melhores experimentações do álbum, com um jogo de vocais que variam entre se apresentarem isolados e em harmonia, e toda uma crescente que culmina na explosão obrigatória das canções de boates. No geral, a colaboração mais sem graça foi mesmo com a girl band.

Como sempre, Lady Gaga é bem direta em suas letras, mesmo quando elas tratam de temas nada amenos. É o caso de “Free Woman”, que apesar de sonoramente ser das faixas de menos brilho do álbum, é forte por abordar um abuso sexual sofrido pela cantora quando ainda era adolescente, e por expor como ela finalmente consegue sentir-se livre e curada. Outro tema retratado no trabalho é a relação da cantora com medicamentos antipsicóticos: “Minha maior inimiga sou eu”, confessa Gaga em “911”, que tem toques que lembram Daft Punk.

“Enigma” e “Replay” são boas representantes do poder de cura e da superação de traumas que Gaga tem a intenção de mostrar com “Chromatica”. Em todas as entrevistas sobre o trabalho, ela fala sobre o seu próprio processo de cura pela música: “O som é o que me curou em um período da minha vida, e me curou novamente fazendo esse disco, e é exatamente disso que o ‘Chromatica’ se trata. É sobre cura e também sobre bravura, e é realmente assim quando falamos de amor, acho que é tão importante incluir o fato de que é preciso muita bravura para amar alguém”, disse a cantora à Zane Lowe.

Com “1000 Doves”, sem dúvida a música mais fraca do disco, o final do trabalho poderia ter sido comprometido, mas o fôlego é recuperado em “Babylon”, uma mistura de “Vogue”, da Madonna, e “Sissy That Walk”, de RuPaul, que não deixa de tirar um sorriso do rosto.

Faz sentido Lady Gaga ter adiado um pouco o lançamento do trabalho (que sairia em abril), afinal, ele é uma pista de dança completa, e como tal pede a máxima ocupação de corpos suados em movimentos desconexos entre si, mas sincronizados com a música que sentem, o que não podemos ter exatamente agora. De qualquer forma, “Chromatica” é mesmo um disco para ser sentido com o corpo todo, muito além dos ouvidos.

nota do crítico

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