“Destacamento Blood” converte comédia em drama para criticar política de guerra dos EUA

Novo filme de Spike Lee personifica América em grupo de soldados negros e estuda a complexidade de um povo historicamente oprimido

por Matheus Fiore

Mesmo que conte a história real do policial negro que ajudou a desmantelar um núcleo da Ku Klux Klan, “Infiltrado na Klan” guarda o uso de imagens reais apenas para seu clímax. Quando a trama já está resolvida e o público respira aliviado após uma resolução tranquila, Spike Lee projeta uma montagem de cenas de violência policial contra negros estadunidenses e mostra como, mesmo importante, a conquista do policial Ron Stallworth não conseguiu ser influente para transformar a sociedade estadunidense, já que o racismo (como a própria KKK) está entranhado de forma sistêmica na sociedade desde sua fundação.

Já em seu novo filme, “Destacamento Blood”, Lee conta uma história fictícia, mas usa a realidade de outra maneira. Imagens reais são inseridas em vários segmentos da narrativa, do começo ao fim, mesmo que não possuam uma conexão direta com a história dos quatro veteranos da Guerra do Vietnã que retornam ao sudeste asiático para encontrar os restos mortais de um falecido amigo e um tesouro perdido. A intenção do diretor é clara: realidade e ficção se misturam e, mesmo contando uma estória, o cineasta quer pontuar como tudo ali é uma pura materialização de mitos da sociedade estadunidense.

Mas Spike Lee nunca foi afeito ao óbvio ou ao maniqueísmo – seu primeiro grande sucesso, “Faça a Coisa Certa”, é um exemplo disso. Mesmo que fale sobre o racismo da sociedade onde vive, o diretor rejeita criar personagens que sejam mocinhos perfeitos ou vilões unidimensionais, preferindo explorar, a cada diálogo, a dubiedade e complexidade humana. Ele está sempre buscando o conflito nos pequenos detalhes, mostrando como o sistema racista manipula as pessoas de forma consciente e inconsciente – e o mesmo acontece em “Destacamento Blood”.

Spike Lee (à esquerda, de branco) com o elenco do filme no set

O protagonista, Paul, (Delroy Lindo) foge bastante do que o público em geral espera de um personagem principal em um filme que fale, entre outras coisas, sobre racismo. Trumpista assumido e convicto, é ele quem lidera a equipe – que ainda conta com seu filho – que parte para a Ásia em busca do tesouro e da memória do colega morto, e essa escolha é essencial para fortalecer a complexidade da narrativa: se inicialmente pode parecer que o filme vai apenas abordar questões raciais, não tarda para percebermos que Lee está interessado também em cutucar feridas provenientes do militarismo e do imperialismo norte-americano.

Tornando a missão do grupo em uma jornada de ganância, Spike Lee consegue personificar em Paul todo o ideal imperialista dos Estados Unidos, mostrando como o país constrói sua riqueza em cima de guerras como a recente invasão ao Iraque. O diretor ainda é perspicaz ao fazer isso sem nunca deixar de lado o desenvolvimento de seus personagens, que são a força dramática do filme, nem dos gêneros os quais explora. Uma das caraterísticas de “Destacamento Blood” é como Lee faz saltos temporais mostrando os soldados no presente, procurando pelo ouro, e no passado, lutando entre o fim dos anos 60 e o começo dos anos 70. Aliando isso a um filme que começa como uma comédia de amigos despretensiosa e aos poucos se transforma em um drama de guerra, temos uma obra que disfarça suavidade para revelar a crueldade da visão política criticada pelo cineasta.

Os flashbacks são importantes para aprofundar cada um dos membros da equipe, reiterando como a guerra não apenas deixou consequências psicológicas como de fato nunca acabou para seus soldados. A primeira inserção, não por acaso, ocorre quando Paul, Melvin, Otis e Eddie ouvem sons de um brinquedo de criança e se jogam no chão pensando ser tiros. O momento inclusive é divisor no início porque, até ali Lee aborda tudo com certa leveza, fazendo piadas, e a partir daí parte para uma narrativa mais dramática conforme os personagens se perdem na selva e, ao mesmo tempo, relembram seu passado e são afetados pela ganância.

Lee personifica em Paul o ideal imperialista dos Estados Unidos, mostrando como o país constrói sua riqueza em cima de guerras

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Assim como “Faça a Coisa Certa” e “Infiltrado na Klan”, em “Destacamento Blood” o inimigo aparente e o inimigo real são diferentes. Um branquelo racista, um redneck adepto da Ku Klux Klan e um miliciano vietnamita até podem, para efeitos dramáticos, ocupar o espaço antagônico dos filmes, mas no caso dos três longa-metragens Spike Lee mostra como tudo faz parte de um problema e sistema maiores. O mero fato de boa parte dos problemas encontrados pelos protagonistas de “Blood” surgirem da própria política de guerra estadunidense é evidência disso – não é coincidência, por exemplo, que o falecido colega dos veteranos tenha sido acidentalmente assassinado por um colega de batalhão.

Por mais que essa complexidade política e social esteja presente na alma do filme, em cada olhar, movimento e diálogo dos personagens, vez ou outra, Lee não consegue construir tudo como uma unidade dramática. A já conhecida estilização do cineasta muitas vezes funciona mas em outras soa repetitiva, como um esforço por acrescentar estofo cultural que não possui efeito para além da semiótica e constrói nada dramaticamente. É o caso do uso excessivo da música de Marvin Gaye, que vez ou outra funciona mas jamais cria uma unidade estética, soando como momentos demasiadamente isolados no filme.

É uma superestilização característica de Lee, mas que aqui, soa desmedida, e impede inclusive que o drama se concretize enquanto a comédia se esvai. Portanto, “Destacamento Blood” acaba nunca mergulhando na sobriedade e na seriedade pretendidas por Lee, o que tira um pouco do impacto da conclusão do filme.

Assim como “Faça a Coisa Certa” e “Infiltrado na Klan”, em “Destacamento Blood” o inimigo aparente e o inimigo real são diferentes

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Mesmo assim, Lee merece elogios por conseguir trabalhar com personagens complexos e ainda assim embutir carisma neles. O olhar do diretor não está lá exatamente para julgar os veteranos, mas para encontrar certo tom trágico em tudo que aconteceu com eles. São personagens que nasceram e foram criados em um ambiente de ódio e ainda tiveram o acréscimo da experiência de uma guerra sem sentido que é um dos maiores equívocos políticos da história dos Estados Unidos. Há certa compaixão no olhar de Lee, um lamento pelo que seus personagens são e o que poderiam ter sido. O jovem soldado falecido, que era o mais idealista de todos do grupo, fatalmente poderia também ter se tornado um reacionário, como aconteceu com Paul.

Como é característico de sua carreira, Spike Lee faz um filme que não preza tanto por um aprofundamento de sua visão política pelo texto, mas que está retratada na própria concepção dos personagens. Paul não precisa a todo momento reiterar seu apoio a Donald Trump; vestir o boné da campanha “Make America Great Again” e levar sua visão de mundo imperialista às últimas consequências já é o suficiente. Talvez seja essa a ideia de Lee, expandir seu recorte, costumeiramente focado na questão racial que existe desde a fundação da América, para mostrar como os problemas fundamentais dos Estados Unidos deixam um legado negativo imensurável para o mundo.

Em dado momento de “Destacamento Blood”, uma criança sem uma de suas pernas aparece pedindo dinheiro para os personagens, e pouco tempo depois o filme comenta sobre como as minas terrestres deixadas pelo exército americano ainda estão em solo vietnamita a ponto de haver profissionais morando no país apenas para localizar e desativar os explosivos. De seus 150 minutos de duração, talvez nenhuma cena resuma com perfeição o problema da política internacional histórica dos Estados Unidos como uma criança, nascida décadas após a invasão americana, ainda ser afetada direta e fisicamente por ela.

nota do crítico

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