Em defesa de “Eurovision”, um candidato digno da arte cafona

Como a comédia da Netflix aborda as contradições de um dos mais tradicionais festivais da Europa sem se perder nas boas intenções e clichês de sua narrativa

por Pedro Strazza

Não é lá muito difícil entender de onde surge o desgosto de parte da crítica e do público com “Festival Eurovision da Canção” nesta primeira semana do filme dentro do catálogo da Netflix. O longa inevitavelmente posa como mais um destes penduricalhos da comédia contemporânea estadunidense, vomitando toda forma de clichê e gag narrativa que o gênero no país se acostumou a repetir nas últimas duas décadas, uma prática que em si não apenas reforça o desgaste quase completo da fórmula, mas também a falta de inventividade da obra perante o tipo de história que quer contar ao seu público.

Se isso não é o suficiente, dentro desta metodologia, supostamente o longa de David Dobkin ainda se vê por trás do reforço quase insalubre de um relacionamento pouco convincente entre os protagonistas Lars (Will Ferrell) e Sigrit (Rachel McAdams), cuja parceira no grupo musical Fire Saga é marcado por um romance dos mais calejados do ponto de vista feminino. Sigrit é uma grande cantora a serviço de um péssimo músico, que exerce um controle criativo quase total sobre a personagem e age como uma criança beberrona até o limite do intolerável, mas a moral inscrita na trajetória da dupla não chega a se desconstruir de fato, neste viés da relação, para além do reconhecimento do talento da mulher pelo homem – algo que sem dúvida prejudica a produção na hora de ganhar pontos de simpatia com o espectador casual.

É a soma destes fatores que criam em torno do longa a aura de obra quebrada, uma que ele mesmo não chega a rejeitar enquanto um produto comercial, mas dentro destas mesmas condições pouco favoráveis e contraproducentes, a tal “Saga de Sigrit e Lars” também se mostra um filme coeso em proposta e intenções. É um musical envolvido com sua premissa ambientada no cenário do Eurovision, tradicional festival de música europeu cuja mistura de pop farofa com mensagem de união e orgulho dos povos torna o evento num marco importante, e ao mesmo tempo tão localizado do calendário anual do velho continente – e é justo esta percepção externa adotada pelo filme que o torna instigante, como um paradoxo cujo desdobramento é em si o verdadeiro objeto de fascínio.

O diretor David Dobkin (à esquerda) orienta Alexander Rybak (ao centro) e Will Ferrell (à direita) no set

Em justiça de “Eurovision”, o filme, essa condição contraditória é alcançada também graças à própria postura que a direção de Dobkin adota sobre o material. Embora esteja firme na sua submissão ao “testado e aprovado” no gênero, a produção segue na via contrária a seus contemporâneos e antecessores ao encarar o festival que encena não como a base de uma sátira ou um saco de pancadas fácil a se extrair risadas, mas como um item de interesse a ser respeitado e a se inspirar mesmo de forma exterior. A competição musical não é desmerecida, mas se torna a base de todo o drama nutrido nas trajetórias de Sigrit e Lars, em especial no personagem de Ferrell que graças ao evento carrega uma relação tensa com o pai (Pierce Brosnan), pescador islandês que aí sim vê com deboche tudo que ele admira.

Esta relação do pai austero com o filho incompreendido é uma que define com alguma precisão os esforços da narrativa, ainda que o resultado soe mesmo como as cenas de Lars ridicularizando um grupo de turistas estadunidenses. Embora relate, em entrevistas, conhecer e acompanhar o evento desde 1999 – algo aliás responsável por fazê-lo levantar o projeto do zero – Ferrell não tem outra perspectiva a propagar aqui que a do estrangeiro deslumbrado com as cerimônias dos nativos, percepção a qual é executada por Dobkin sem pensar duas veze,s porque mesmo limitada ela carrega algum interesse genuíno pelo objeto de estudo sem deixar de lado a comédia que movimenta a história.

O exercício do longa, assim, é um tanto mais complicado do que aparenta, e ao mesmo tempo seu mergulho por si só não se deixa levar pela armadilha tradicional das “boas intenções”, que se torna a cada dia mais comum dentro da produção hollywoodiana. O que Ferrell e Dobkin fazem aqui é colocar o espectador médio norte-americano numa posição desconfortável, daquele que precisa olhar de fora um acontecimento nobre, respeitar os rituais em movimento e ainda rir da satirização da própria figura, um lado trazido à tona não apenas na imagem dos turistas (e das referências que carregam de “Game of Thrones” a “The Voice”), mas na ridicularização da cultura do sucesso inscrita na vitória – o arco dramático de Lars no fundo passa pelo abandono do american way e o conforto da celebração, um traço confundido pelo longa no desfecho que busca retornar os protagonistas às suas origens.

A relação do pai austero com o filho incompreendido é uma que define com alguma precisão os esforços da narrativa

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A questão é que o longa ainda está mergulhado dentro da cultura do Eurovision, cujo ideal da música como demonstração de união e orgulho individual dos povos é em si uma grande contradição, e este comprometimento fragmenta o filme ao ponto de existir enquanto penduricalho de intenções e gestos, eque navega simultaneamente com um norte claro. O resultado é divertido de se acompanhar porque o filme encontra seus melhores e piores momentos justamente quando se entrega aos excessos: como questionar o valor de cenas como o karaokê do grande baile na mansão do candidato russo Alexander Lemtov (Dan Stevens, bastante confortável no papel), que reúne uma série de vencedores reais e populares do festival para celebrar a grande mensagem abstrata do evento, enquanto não se revira os olhos para as crescentes de afetação na interpretação de Ferrell? Existe uma maneira de identificar os momentos de cansaço e brilho das cenas mais fantasiosas da trama, que chega a envolver elfos e um fantasma da personagem de Demi Lovato, sem desmerecer um dos extremos?

Para o desespero daqueles que se aventuram pelos filmes atrás de “pontos fracos” e “pontos fortes”, não parece existir aqui uma concepção sólida que divorcie estes elementos porque a produção, no fim, se mostra muito segura do desejo pelo mau gosto inscrito em seus atos. É o cerne de uma arte cafona – ou, para brincar em uma época de terminologias, “cafonarte” – que se encena em “Eurovision” sem qualquer pudor, mesmo quando os limites criativos já explicitados revelam as fraquezas do todo e o ar comercial do longa revela a ausência de uma autoralidade discernível – é inevitável a comparação com os dois “Mamma Mia!”, por exemplo, até porque eles também são produtos pouco apreciados, que abraçam com maior vigor a drasticidade de seus atos.

(Neste ponto, vale o parênteses para fazer duas distinções que acho importantes. A primeira seria com a associação tradicional do mau gosto com os tais “guilty pleasures”, cujo vazio argumentativo da atribuição da condenação da obra ao espectador não apenas revela a fragilidade do termo, mas impede o filme de ser apreciado pelo que ele se apresenta. Já o segundo é com o vulgarismo, um movimento ou agrupamento de trabalhos ignorados e julgados, que aí sim são guiados de fato pelas mãos de um autor, o que acredito ser a diferença fundamental para a categoria, o qual se revela nas estruturas e narrativas do “Eurovision”.)

A produção no fim se mostra muito segura do desejo pelo mau gosto inscrito em seus atos

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Retomando a discussão da recepção, talvez seja mesmo o destino natural do longa que ele seja enquadrado agora e para sempre como “exaustivo” ou “chato”, pois dentro deste escopo não há caminho para uma forma tão cafona que escape da grande questão: para que tudo isto? Como as canções que entoam e o festival que persegue, “A Saga de Sigrit Lars” é também um fim em si mesmo, uma demonstração de exuberância sustentada por seus elementos mais seguros (e neste ponto vale exaltar McAdams, que depois de “A Noite do Jogo” volta a provar seu talento para a comédia) e uma moral pouco convincente de fazer aquilo que ama por orgulho – o epílogo que o diga.

Mas tendo em vista esta sintonia interna da narrativa e suas pretensões, além das próprias atribuições do longa com o festival, e até a mensagem de união em tempos de tamanha individualização, não estaríamos também cometendo um erro de julgamento ao pesar o olhar sob a obra porque ela não se enquadra sob os estandartes tradicionais de “qualidade”? É importante recusar nesta hora os generalismos estéticos e de conteúdo (além de discurso, no caso específico desta crítica), mas o cerne desta argumentação sobre “Eurovision” não deixa de ser em si uma defesa do cafona como estilo a ser reconhecido e valorizado.

nota do crítico

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