“Imploding the Mirage” é um recado do The Killers aos fãs: nada mudou

Turbulências internas não afetaram o sexto álbum, que apesar de todas as mudanças, carrega um DNA da banda tão forte que parece que nada aconteceu

por Soraia Alves

Para uma banda que sempre se manteve “limpa” perante as tentações do universo Rock n Roll e do showbusiness, o The Killers passou recentemente por episódios complicados, como a saída do guitarrista Dave Keuning, a participação apenas em estúdio do baixista Mark Stoemer e acusações de assédio sexual praticado por integrantes da equipe da banda (que acabaram sendo desmentidas em uma investigação). Toda essa turbulência, porém, não afetou diretamente “Imploding the Mirage”, que apesar de todas as mudanças carrega um DNA tão forte da banda, que parece que nada aconteceu.

Semelhante ao que fez o Pearl Jam neste ano com “Gigaton”, o sexto álbum do The Killers soa muito como um presente aos fãs, uma espécie de carta de “tá tudo bem, galera, nada mudou”. E esse recado é bem funcional desde “My Own Soul’s Warning”, faixa que abre o disco no melhor estilo “rock de arena” (no andamento “cresce, cresce e explode”), tão característico da banda e com uma grande inspiração de Bruce Springsteen, que por sinal vai percorrer o álbum todo.

E como é o The Killers, há sempre um quê de new wave, presente em praticamente todos os seus trabalhos. Uma bem-vinda aura de New Order e Talking Heads entre guitarras, sintetizadores e danças que podem vir acompanhadas de lágrimas, como em “Fire in Bone” ou “Running Towards a Place”.

Para driblar a falta do guitarrista Dave Keuning, a banda contou com várias participações especiais, incluindo Lindsey Buckingham (ex integrante do Fleetwood Mac), que faz o solo no hit instantâneo “Caution”. A presença de Jonathan Rado (Foxygen) como coprodutor é sentida em toques muito bem colocados como a participação da cantora Weyes Blood nos vocais de “My God”, um hino perfeito para shows com a bateria marcada de Ronnie Vannucci e ares épicos no estilo de “All These Things That I’ve Done”.

Embora siga uma linha parecida ao disco anterior “Wonderful Wonderful” (2017), dessa vez Brandon Flowers coloca em perspectiva como a mudança com a família para um novo estado fez alguns fantasmas ficarem em Las Vegas. Ele ainda é apegado às suas origens, no entanto, ainda vê nas figuras nascidas e criadas no deserto os seus personagens favoritos, como a protagonista de “Caution”. Flowers também continua abusando de letras que, por vezes, parecem fazer pouco sentido, mas que em outras entregam visões interessantes: “Porque o amor não pode ser discreto. Não force, o controle é superestimado”, canta o vocalista em “My God” – e se tem algo que 2020 nos ensinou é que o controle, sobre qualquer coisa, realmente é apenas algo superestimado.

Ter uma identidade definida é extremamente simples para alguns artistas, já para outros pode ser uma eterna busca realizada dentro da própria carreira, especialmente para artistas que começaram bem jovens. Atingir a tal maturidade, muitas vezes, se torna uma perseguição nem sempre eficaz. Não é o caso do The Killers, que amadureceu sendo quem sempre foi: uma banda de rock alternativo farofa, com hits perfeitos para shows e festivais e um vocalista que abandonou os olhos pintados com lápis preto em “Mr. Brightside”, mas nunca deixou o figurino extravagante ou seu próprio deserto de lado.

Com isso, “Imploding the Mirage” acaba sendo um belo registro de como o The Killers consegue se manter igual até hoje, mesmo passando por mudanças internas, porque é simplesmente o que a banda é.

nota do crítico

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