“Nunca Raramente Às vezes Sempre” explora o desconforto de jovens obrigadas a amadurecer

Premiado em Sundance e Berlim, filme de Eliza Hittman mostra adolescentes em situação complexa num mundo que as sufoca

por Matheus Fiore

“Nunca Raramente Às Vezes Sempre” muito lembra o fantástico “Amor, Drogas e Nova York”, dado que ambos são protagonizados por jovens mulheres que têm suas vidas magnetizadas por uma questão específica – enquanto no último uma jovem lida com seu vício em drogas pelas ruas de Manhattan, no filme de Eliza Hittman é uma jovem que viaja de Pensilvânia para Nova York para interromper sua gravidez. Há uma diferença essencial, entretanto: enquanto a protagonista do filme dos irmãos Safdie é marginalizada por uma sociedade desigual em virtude da posição social que ocupa, a de “Nunca…” lida com suas questões exclusivamente de maneira interna.

O filme acompanha a caminhada de Autumn (Sidney Flanigan) por um recorte bastante rotineiro, sem se preocupar com grandes eventos, sem se preocupar com o retrato dos momentos que definem vida e trajetória de Autumn. A própria gravidez não planejada não é algo que rende muitas discussões ao longo da trama, e o que temos é muito mais um estudo de como a protagonista se vê e se sente no mundo.

A diretora Eliza Hittman no set

Essa internalização dos sentimentos e conflitos faz com que o filme seja bem mais uma obra observacional do que de conflitos. As discussões praticamente inexistem. A própria cena de abertura, de maneira sucinta, diz muita coisa: durante um show de talentos na escola da protagonista – uma cena importante para estabelecer que se trata de uma história de jovens, aliás – Autumn é chamada de vadia enquanto se apresenta no palco. Não há discussões sobre o motivo, não há conversas ou brigas, apenas o rosto da personagem sentindo vergonha por estar sendo exposta diante de centenas de pessoas.

A felicidade de Hittman é conseguir sempre manter o foco do filme na situação opressora pela qual passam suas protagonistas Autumn e a prima que a acompanha, Skylar (Talia Ryder), desde a introdução na Pensilvânia até a ida à Nova York para realizar o aborto. Quando em casa, por exemplo, Autumn nunca é filmada juntamente a sua família; enquanto seus pais e irmã mais nova aparecem no sofá, vendo televisão ou tomando cerveja, a personagem está no outro canto. Há sempre uma maneira de isolar a personagem no espaço a fim de mostrar tanto o desencaixe dela naquele ambiente como o desconforto com o cenário que deveria ser seu lugar de segurança.

A felicidade de Hittman é conseguir manter o foco do filme na situação opressora pela qual passam suas protagonistas

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“Nunca Raramente Às Vezes Sempre” é portanto um filme que sempre consegue criar esse desajuste espacial pela forma como filme e organiza suas imagens. Os diálogos de Autumn com as pessoas próximas quase nunca são feitos em planos conjuntos, mas sim em planos e contraplanos, colocando a personagem sempre à parte do restante das pessoas que a cercam. Essa estrutura, porém, é transformada de maneira interessante quando as protagonistas partem para Nova York. Nesse momento, além de Autumn ganhar uma companheira, ela passa também a explorar novos espaços e protagonizar conflitos diferentes dos que vivia em casa.

O que torna o olhar de Hittman interessante é o fato de ela não mudar o trato do espaço quando leva sua narrativa para Nova York. A grande diferença é que, lá, Autumn está sempre amparada por sua prima, mas seu desnorteamento, seu distanciamento dos lugares e rostos permanece, como se o ambiente não fosse mais capaz de influenciar a personagem; na verdade, todo o filme é concebido com uma unidade espacial que transpassa os ambientes justamente pelo fato de que a percepção de Autumn parte de seus problemas internos, e eles fazem a jovem ver todo o mundo de maneira fria e desesperançosa.

Todo o filme é concebido com uma unidade espacial que transpassa os ambientes

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“Nunca Raramente Às Vezes Sempre”, então, é um filme sobre o isolamento e também a desolação de sua personagem. Autumn é uma menina obrigada a amadurecer, sujeitada a viver ainda na adolescência experiências e tensões da vida adulta que não deveriam fazer parte de sua rotina naquele momento – e algumas delas, em momento nenhum. Por mais que, muitas vezes, a obra de Hittman possa parecer um “filme-denúncia” sobre machismo e abusos, a cineasta parece estar muito mais preocupada com o retrato do amadurecimento precoce, com o distanciamento de sua personagem para com os espaços, do que com qualquer outra coisa, incluindo a pauta social.

Não à toa, Hittman nunca superexpõe Autumn ou Skylar, nunca nos sujeita a observar seus momentos mais densos sob um ponto de vista melancólico. A melancolia está na pura existência e constatação da realidade da protagonista. O longa respeita demais sua personagem, e invade seu espaço apenas quando a câmera de Hittman se fecha em close-ups que denunciam o desconforto e a desolação da jovem protagonista.

O filme, então, consegue, ao mesmo tempo, retratar problemas crônicos da sociedade transformando isso em estética a partir da perspectiva adolescente. Menos articulado e mais impulsivo, menos verbalizado e mais inocente. Seja quando escolhe o olhar cabisbaixo em vez de apresentar uma fala que expresse o que se passa na cabeça de Autumn, seja quando a menina mal consegue explicar o que sente simplesmente por se tratar de algo muito novo para alguém tão jovem, “Nunca Raramente Às Vezes Sempre” tem uma única constante: ser sempre humano.

“Nunca Raramente Às vezes Sempre” está disponível para locação e compra digital na Apple TV e Google Play.

nota do crítico

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