Na busca para exaltar a vida, "Druk" abraça contradições sem se preocupar com os efeitos

Na busca para exaltar a vida, “Druk” abraça contradições sem se preocupar com os efeitos

Indicado ao Oscar de direção, filme de Thomas Vinterberg transita pela comédia e drama do álcool

por Pedro Strazza

Apesar da animada “What a Life” do trio Scarlet Pleasure ser o ponto de conexão mais óbvio, o prólogo e o desfecho de “Druk – Mais Uma Rodada” carregam um elo maior que a música, a dança e as cenas de jovens alcoolizados sugerem a princípio. Em uma comédia que orbita entre o drama e o humor gerados pela droga, a maneira como o dinamarquês Thomas Vinterberg opta por enlaçar o filme nos dois extremos da narrativa envolve sobretudo um ato de exaltação da juventude – no começo como um (quase que literal) “trem sem freio”, incompreensível pelo olhar externo, no fim como um abraço em cena a quem o assista.

Para um tema objeto de tanta moralidade quanto o do álcool, essa manobra soa tanto como algo ousado quanto esperado, em especial porque a premissa não parece oferecer um caminho muito diferente. Apesar da bebida ser o centro gravitacional de todas as ações, a história lida com questões inerentes ao envelhecimento, da famigerada crise de meia-idade em que não se está tão velho para morrer, nem tão jovem para ignorar a passagem do tempo: professores em uma escola na capital, quatro amigos descontentes com o marasmo das próprias vidas decidem se envolver num experimento que envolve a manutenção da condição de bêbado na rotina dos dias, a fim de testar se a bebedeira é capaz de torná-los mais criativos e alegres. A inspiração é a tese real de Finn Skårderud, psicólogo norueguês que defende a noção do ser humano nascer com uma taxa alcoólica de 0,05%.

Thomas Vinterberg (à direita) conversa com Mads Mikkelsen no set

A partir deste contexto, Vinterberg e o co-roteirista Tobias Lindholm seguem um caminho mais ou menos esperado. Conforme o quarteto de protagonistas sente uma mudança positiva no cotidiano com a presença constante de álcool no sistema, o experimento vai dando lugar a um vício não assumido e a dita taxa só aumenta de limite – o que com naturalidade inverte os resultados para o desastroso. A dor dá lugar ao cômico para ao final se converter em trágico, uma estruturação clássica que é em si curiosa para um diretor que, como Vinterberg, lutou tanto contra os conformes de Hollywood e da indústria no início da carreira. 

O grande trunfo de “Druk” contra esse marasmo em tese é a presença dos jovens, e eis aí o momento que as cenas iniciais e finais ganham peso na narrativa. Embora o chamariz sejam as performances de Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e Lars Ranthe e a maneira como seus personagens se soltam (ou sucumbem) aos efeitos da vida alcoolizada, o longa existe na interação destes com os alunos e na relação de causa e efeito entre as partes. O drama maior que desperta a ideia no grupo é a relação crítica do professor de Mikkelsen com uma turma, que sofre com suas aulas de História vagarosas e teóricas, e assume uma posição de contradição conforme tudo aponta um sinal de melhora crescente na mesma frequência com a qual as “cobaias” se afundam em rodadas maiores. A narrativa não é de derrota, mas triunfo.

É uma estruturação clássica e em si curiosa para um diretor que, como Vinterberg, lutou tanto contra os conformes de Hollywood

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Seria uma boa manobra se Vinterberg desfizesse o clima de moralidade que é inerente à história, porém, algo que não chega a acontecer de fato no filme. “Druk” pode contar com um olhar despudorado sobre os eventos e até tenta despir o espectador de um julgamento das consequências dos atos daqueles personagens, mas a trama é constante no ato de empurrar os professores contra um muro. A presença da instituição familiar persevera como um forte golpe de realidade à condição dos protagonistas, com poucos momentos onde o “experimento” se espelha para gerar cúmplices – as duas esposas presentes até sugerem em algum momento não se oporem às “saidinhas” dos maridos, mas em ambos os casos o desfecho é cruel senão apocalíptico à instituição.

É muito importante nesta hora denotar que o longa não toma esse rumo por mero capricho – o alcoolismo já há décadas é nutrido como “tema sério” em Hollywood, que dirá na indústria – mas a falta de perversão numa obra que aposta na mesma é acachapante. De certa forma, “Mais Uma Rodada” luta contra o próprio eixo em vários momentos, preso entre o arrependimento e a pose descolada e na busca para compensar pela comédia a austeridade que habita a cada esquina. O sentimento dominante é de um espetáculo circense pequeno com final previsto: pode-se fazer o máximo dos malabares, mas o homem disparado pelo canhão ainda vai aterrissar de forma segura na rede.

“Mais Uma Rodada” luta contra o próprio eixo em vários momentos, preso entre o arrependimento e a pose descolada

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Mas essa dança é uma que o longa realiza sem pensar muito, talvez por entender que na contradição subsiste sua narrativa. Vinterberg não hesitou em comentar na divulgação do filme pelo mundo como seu olhar sobre a produção foi afetado pelo falecimento prematuro da filha Ida (morta aos 19 anos em um acidente na estrada, quatro dias depois do início das filmagens), e não é muito difícil perceber como “Druk” sente os efeitos de uma reorientação da comédia simples sobre álcool para um drama pensado de uma perspectiva pessoal. A narrativa nem por um momento dá conta da tarefa de embasamento, claro, mas ganha volume no foco maior das relações criadas a partir do experimento – as famílias ficam em segundo plano quando o diretor encontra cenas como a de Bo Larsen com o jovem aluno do futebol. Parceiro de outros carnavais do diretor e ator veterano com bom olhar sobre situações que favoreçam características específicas de seus papéis, Mikkelsen naturalmente é quem mais se beneficia desta transição.

Bem ou mal, o desfecho vem para coroar este longo processo confuso do filme, e nada pode denotar melhor esta dessintonia que as diferentes reações do público – o que no contexto da pandemia só reforça a tristeza pela ausência de uma sala de cinema para presenciar uma sessão comunal do momento. Enquanto Mikkelsen ensaia passos de dança pelo porto, embriagado não apenas pelo álcool mas também pela juventude ao seu redor, é possível entender tanto o sentimento à cena dos admiradores, dos decepcionados e dos indiferentes, pois a narrativa se encarrega de providenciar a todos o aparato necessário para suas constatações. Isso acontece não porque é natural à arte do cinema, mas porque “Druk” já é consciente demais da própria fragmentação para tentar se fazer valer disso enquanto força.

Forçando um pouco a piada, é o famoso passo de bêbado, inseguro e belo mesmo que desta vez sem grande potência.

“Druk – Mais Uma Rodada” está em cartaz nos cinemas e disponível para locação digital no NOW, Apple TV, Google Play e YouTube Filmes.

nota do crítico

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