Imagem: Rory Kramer/Billboard

Apesar da tentativa frustrada de militância, “Justice” é o álbum mais interessante de Justin Bieber

Parcerias com artistas como Burna Boy e Chance the Rapper mostram um caminho agradável e mais maduro para o cantor, apesar da falta de coesão do álbum

por Soraia Alves

O problema do sexto álbum de Justin Bieber é algo muito comum hoje em dia, especialmente nas redes sociais: o impasse intenção x execução. Bieber nomeou o trabalho como “Justice” e, de cara na abertura do disco, apresenta um trecho de Martin Luther King discursando: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares”. Com esse início, imediatamente está criada a expectativa: mais do que a sonoridade, agora queremos saber sobre o que tratam as letras de cada música. E aí vem o balde de água fria, pois elas falam basicamente de relacionamentos, ansiedade, amor e fé. O que torna óbvio se perguntar: por quê raios Justin Bieber meteu o Martin Luther King nesse disco?


É essa desconexão completa que prejudica “Justice”, uma lacuna existente entre uma boa ideia e a sua efetiva execução. Neste caso, faltou a Bieber conectar de alguma forma essa ideia de justiça que ele queria apresentar no disco à sua própria vida. É verdade que temos lampejos da famosa autocrítica no álbum, especialmente quando ele reconhece seus privilégios. Mesmo assim, para quem acrescentou ainda um segundo trecho de Luther King falando sobre defender uma justiça para todos, isso é muito pouco. A execução é tão falha que nos provoca um incômodo pensamento sobre as reais intenções do uso dos discursos, afinal, não é incomum que alguns grupos religiosos reduzam o ativismo de King ao seu papel religioso em dissociação com seu papel político.


Tudo isso é uma pena, pois sonoramente “Justice” é o álbum mais interessante da carreira de Justin Bieber. Além do vocal muito bem colocado em todas as faixas, as diversas colaborações com artistas de musicalidades diferentes agregam demais ao trabalho. Exemplo disso é a ótima faixa “Holy”, parceria com Chance the Rapper que traz uma base de hip hop e fecha com um belíssimo coral gospel.



“Faltou a Bieber conectar de alguma forma essa ideia de justiça que ele queria apresentar no disco à sua própria vida.”

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As parcerias e a produção fazem o álbum fugir de um pop simplório ou extremamente caça hits. E isso é ótimo. O que não significa que o trabalho não traga músicas que são fáceis de colar nos ouvidos, como a bem trabalhada “Deserve You” , e os pops dosados das deliciosas “Hold On” e “As I Am” com Khalid. Há ainda boas surpresas, como o synthpop oitentista de “Die For You”, na mesma pegada do último álbum de The Weeknd, e “Loved By You” ao lado do talentosíssimo Burna Boy. Há ainda o R&B apresentado com Daniel Caesar e Giveon, também numa roupagem modernizada que lembra artistas como Anderson .Paak e o próprio trabalho solo de Daniel Caesar.



Embora colecione sucessos ao longo de seus 11 anos de carreira, Justin Bieber nunca criou exatamente uma identidade artística definida. Conhecemos seu pop chiclete em My World 2.0” (2010) e tivemos que aturar sua longa e problemática juventude enquanto os hits de “Purpose” (2015) estavam em todas as festas. Recentemente, acompanhamos sua dita redenção enquanto ele se aprofundava no cristianismo, processo que lhe rendeu algumas inexplicáveis indicações ao Grammy 2021 pelo álbum “Changes” (2020). Agora, aos 27 anos, casado e há algum tempo longe dos tribunais, Bieber parece ter entrado numa fase tranquila que lhe possibilita explorar o mundo e as sonoridades. “Justice” é uma tentativa de mostrar esse despertar, mesmo que ele ainda se embole em discursos superficiais e egocêntricos no melhor estilo “participantes descontruídos do BBB21”.

Apesar da gigante desconexão entre intenção e execução, o trabalho soa como um bom início para um novo caminho musicalmente muito mais curioso para Justin Bieber.

nota do crítico

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