Perdido entre indivíduo e coletivo, “Alma de Cowboy” não desenvolve seus dramas

Estreia de Ricky Staub em longas-metragens tem muitas pretensões e poucas realizações

por Matheus Fiore

Adaptado do livro “Ghetto Cowboy”, de Gregory Neri, “Alma de Cowboy” acompanha o processo de gentrificação do subúrbio de Detroit sob a perspectiva dos moradores locais. Eles vivem uma vida rural, com rotina típica de uma cidade do interior durante o período do velho oeste, e veem a modernidade invadindo o espaço e apagando sua história.

O estreante Ricky Staub é audacioso em juntar a essa já complexa premissa uma história sobre família e independência. A história parte da chegada de Cole (Caleb McLaughlin) à casa de seu pai, Harp (Idris Elba, que também produz o filme), um dos líderes da pequena sociedade ali estabelecida. Cole não tem uma boa relação com o pai, mas se vê obrigado a passar um tempo com ele após sua mãe expulsá-lo de casa por mau comportamento. O jovem então precisa redescobrir sua relação com seu pai, ao passo que conhece um mundo inteiramente novo longe do cenário urbano.

A ambientação do filme e todo o conflito social e político que ali se desenrola são reais. De fato os caubóis de Detroit existem e lutam para que suas tradições e terras sejam respeitados, e Staub não só demonstra enorme apreço pela causa como escala figuras que vivenciam esses conflitos para viver personagens análogos às suas pessoas em “Alma de Cowboy”. Para além do elenco parcialmente amador, há um enorme esforço para que todo o universo seja algo concreto e palpável.

Ricky Staub (à direita) conversa com Liz Priestley no set

Esse esforço se faz presente principalmente no primeiro ato do filme. Se no começo, toda a atenção está voltada para Caleb tentando encontrar maneiras de fugir da casa do pai e retornar ao ambiente urbano que tanto gosta, logo o personagem aceita que precisa pelo menos tentar entender a sociedade onde está inserido, o que leva o longa a investir um bom tempo no acompanhamento da rotina rural do personagem: cuidar dos cavalos, limpar o estábulo, ajudar em obras, por aí vai.

Há uma grande trava no filme, porém: Staub, tanto pela limitação do roteiro (que co-escreveu com Dan Walser) quanto pela dificuldade de articular um drama familiar no meio de um evento muito maior, não consegue dar o devido impacto aos acontecimentos e muito menos desenvolvê-los dramaticamente. É difícil sentir qualquer progresso na relação de Cole e Harp, e a sensação é muito mais de que ambos simplesmente desistem de serem pai e filho e se tornam parceiros pela causa – o que é válido, mas trai a própria premissa de “Alma de Cowboy”.

O longa investe um bom tempo no acompanhamento da rotina rural do protagonista

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Nessa confusão, a própria pauta social acaba não tendo o refinamento necessário para que a situação tenha o impacto desejado. Não sentimos, por exemplo, que há uma ameaça ao estilo de vida dos personagens até que no clímax essa ameaça se manifeste de forma incisiva. Staub cria um filme muito mais observacional e que promove adoração ao mundo retratado do que de fato interessado em criar um drama sobre ele – e para executar tal proposta, talvez fizesse muito mais sentido eliminar o drama familiar e fazer um documentário ou um filme menos narrativo e mais contemplativo com as imagens registradas.

Nem mesmo a construção dessa sociedade alternativa interessantíssima consegue criar algum afeto pelo lugar, já que Staub opta por filmar suas cenas noturnas sempre de forma escurecida e caótica, retirando um estereótipo de ambiente rural sujo que não ajuda muito. A diferenciação entre o ambiente rural e urbano poderia ser um dos grandes pontos do filme e inclusive amarraria o tema social com o familiar, mas Staub filma tudo com tamanho distanciamento que só é possível sentir alguma indiferença.

Talvez fizesse mais sentido eliminar o drama familiar e fazer um documentário ou um filme menos narrativo

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O que poderia facilmente servir de alicerce para o melodrama de “Alma de Cowboy” são suas atuações, mas nem mesmo ter um astro do naipe de Idris Elba parece ser um grande incentivo. O diretor jamais explora a profundidade do ótimo ator que está em cena, e Harp é um personagem tão distante que, além de o dilema familiar ser simplesmente abandonado ao longo da narrativa, outras figuras (que, vale notar, são bem menos interessantes) passam a exercer um papel muito mais preponderante para Cole. Em vez de tentar humanizar a imagem com rostos, com conflitos e expressões, Ricky Staub insiste apenas em uma trilha sonora densa e no uso de uma câmera-lenta que tenta dramatizar espaços onde não há drama.

É clichê, mas infelizmente não há descrição melhor: “Alma de Cowboy” é um filme que tem duas boas ideias e se perde ao tentar realizar ambas. Com um diretor que não consegue conciliar o pessoal e o coletivo para fazer com que a jornada de paternidade se alinhe com a defesa de uma cultura, a obra tem como destino ficar no meio do caminho em tudo que se propõe. Se o primeiro ato nos apresenta o drama entre pai e filho como sua força motriz, logo essa força é deslocada para a questão identitária e cultural, por sua vez esvaziada por um drama difuso e distante.

Poucas coisas podem ser tão prejudiciais para uma obra do que seu realizador se esquecer que histórias só possuem força quando há humanidade nelas. A de “Alma de Cowboy” não sai do lugar depois de meros quinze minutos de filme.

“Alma de Cowboy” estreia nesta sexta, 2, na Netflix.

nota do crítico

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