Imagem: Divulgação/Netflix

“Meu Amor” retrata o valor do companheirismo em qualquer cultura

Apresentando a simplicidade do dia a dia, série documental da Netflix mostra a ternura entre seis casais de diferentes lugares do mundo, juntos há mais de 40 anos

por Soraia Alves

Embora “Meu Amor: Seis Histórias de Amor Verdadeiro” carregue um título facilmente vinculado a uma ideia de amor romântico idealizado, a série documental da Netflix passa longe do platonismo. O projeto do diretor coreano Jin Moyoung funciona como uma expansão de seu documentário “My Love, Don’t Cross That River”, e conta as histórias de seis casais que estão juntos há mais de 40 anos. A narrativa focada na simplicidade da rotina cotidiana impregna os episódios não com sentimentalismo, mas com ações práticas que traduzem o afeto.

Como cada história se passa em um país diferente, os episódios também contam com o olhar de diretores locais: Carolina Sá (Brasil), Chico Pereira (Espanha), Deepti Kakkar e Fahad Mustafa (Índia), Hikaru Toda (Japão), Elaine McMillion Sheldon (Estados Unidos) e o próprio Jin Moyoung no episódio coreano. Isso é fundamental para garantir a representação legítima de culturas tão distintas entre si. Porém, ainda que os episódios nos mostrem hábitos, costumes e condições econômicas tão contrastivos, há uma unidade geral e terna sobre o companheirismo desses casais, que agora enfrentam o envelhecer como realidade compartilhada.

Kinuko e Haruhei, protagonistas do episódio japonês.
Imagem: Divulgação/Netflix


Outro ponto bastante funcional da série é o uso comedido de elementos nostálgicos. Há algumas imagens antigas e conversas sobre o passado dos casais, obviamente, porém, no geral os episódios tratam muito mais do presente e suas reverberações futuras. Por isso os efeitos da velhice são tão pontuados em todos os episódios, seja na forma de consultas médicas frequentes, nas dificuldades na realização de atividades do dia a dia ou no planejamento do próprio testamento. Apesar de tristes, são nesses momentos que “Meu Amor” transborda delicadeza e cuidado, da mesma forma que os personagens tratam seus parceiros.


A narrativa focada na simplicidade da rotina cotidiana impregna os episódios não com sentimentalismo, mas com ações práticas que traduzem o afeto.

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Não focar no passado e sim no presente desses casais também é uma ferramenta que ajuda o espectador a não cair em julgamentos. É comum questionarmos a manutenção de relacionamentos antigos através de um olhar de evolução social e cultural, no qual podem surgir perguntas sobre as condições que levaram essas relações a serem mantidas. Nisso, o encantamento facilmente pode dar lugar à indignação, especialmente quando interpelamos o papel da mulher nessas relações. Mas esse não é o caso de “Meu Amor”. Ainda que pincele problemas e desentendimentos, a série traz a essência de cumplicidade acima de tudo, como fica evidente no episódio brasileiro com a história de Nicinha e Jurema (único casal LGBTQIA+ da série), assim como no episódio indiano do casal Satyabhama e Satva.

Nicinha e Jurema, protagonistas do episódio brasileiro.
Imagem: Divulgação/Netflix


Ainda que os episódios nos mostrem hábitos, costumes e condições econômicas tão contrastivos, há uma unidade geral e terna sobre o companheirismo desses casais, que agora enfrentam o envelhecer como realidade compartilhada

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Os episódios com mais de 60 minutos mostram o cotidiano de cada casal ao longo de 12 meses, com demarcações feitas pelas quatro estações ou por alguns meses do ano. No entanto, a maioria deles poderia ter menos de uma hora, uma vez que o ritmo lento de dias rotineiros torna alguns momentos cansativos para o espectador. Isso não prejudica a série como um todo, mas pode ser crucial para parte do público. Além disso, torna necessário o espaçamento de consumo, ou seja, é difícil maratonar tudo de uma vez.

Paciência, contudo, é das grandes lições que “Meu Amor” nos deixa. Nenhuma caminhada apressada possibilita a apreciação de uma paisagem. Assim como a impaciência também impede o desfrutar de um companheirismo genuíno. Ainda que suas realidades sejam tão diferentes, Nati e Augusto, Saengja e Yeongsam, Ginger e David,  Kinuko e Haruhei, Satyabhama e Satva, e Nicinha e Jurema nos mostram que carinho, lealdade e dedicação ajudam a enfrentar as diversas intempéries da vida. E isso é ainda mais simbólico quando observamos que quase todos os episódios terminam no começo do fatídico 2020.

“Meu Amor: Seis Histórias de Amor Verdadeiro” está disponível na Netflix.

nota do crítico

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