Imagem: HBO

Kate Winstlet brilha em “Mare of Easttown” com thriller policial sobre resiliência e cumplicidade feminina

Diferencial da série de Brad Ingelsby é mostrar que, assim como a positividade tóxica, toda superação empurrada garganta abaixo tem efeitos negativos

por Soraia Alves

AVISO: Este texto contém SPOILERS da minissérie, inclusive de seu último episódio.

Resiliência tem sido uma palavra amplamente utilizada nos últimos anos, e que ganhou um significado ímpar ao longo da pandemia da Covid-19. Parece, então, só mais um clichê contemporâneo dizer que “Mare of Easttown” é uma trama sobre resiliência.

No entanto, o diferencial da série de Brad Ingelsby para a HBO é mostrar que, assim como a positividade tóxica, toda superação empurrada garganta abaixo tem efeitos negativos. Com Mare Sheehan, protagonista interpretada pela excelente Kate Winslet, entendemos a importância de respeitar (e se entregar) aos processos que ajudam a fechar ciclos. A importância de compartilhar o peso das dificuldades.

Evan Peters (ao centro) e Kate Winslet (à direita) no set

A carapuça de resiliência de Mare, que mergulha no trabalho para não lidar com o próprio luto após a morte do filho mais velho, não é saudável. A ideia de força e superação a todo custo não é sustentável, e o reflexo, que já está visível nas relações mais íntimas e desgastadas da investigadora, começa a dar as caras também em sua vida profissional com a não solução do caso de Katie Bailey, uma garota da cidade desaparecida há um ano.

É aí que “Mare of Easttown” tem o laço que nos prende mais forte. Para além do enredo psicológico da protagonista que agora se sente um fracasso na vida pessoal e profissional, a série é um thriller policial clássico: crimes sucessivos que podem ou não estar interligados, uma penca de suspeitos, pessoas que juram que vão conseguir esconder pistas de uma polícia empenhada em solucionar o caso, e muitas reviravoltas. Nada novo, é verdade, mas a forma como Ingelsby constrói, desenvolve e conecta os personagens é o grande trunfo da série. Ainda que o objetivo final seja voltado para o público, o showrunner parece realmente mais empenhado em surpreender os personagens, o que faz toda a diferença.

A morte de Erin McMenamin (Cailee Spaeny) é o grande condutor que interliga histórias e pessoas, incluindo Colin Zabel (Evan Peters), detetive que é enviado de uma cidade vizinha para ajudar Mare nas investigações. Ele é o contraponto interessante em meio ao “azedume” de Mare, tanto para o público, quanto para a própria personagem afrouxar um pouco de suas amarras. Richard Ryan (Guy Pearce) também tem seu papel de resgatar na protagonista a “vontade” de se interessar por alguém novamente, ainda que Richard seja um tanto indecifrável.

A forma como Brad Ingelsby constrói, desenvolve e conecta os personagens é o grande trunfo da série

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Nenhum dos dois, no entanto, funciona como escada para Mare sair do buraco emocional no qual se encontra. Eles fazem parte do caminho, mas não são seus salvadores. E isso é um alívio, já que a própria caracterização da personagem flerta com um perigoso estereótipo de que uma mulher com questões não resolvidas é uma mulher visualmente descuidada e masculinizada. O tom aqui, no entanto, é quase de igualdade na forma como homens e mulheres lidam com suas questões e nos hábitos que desenvolvem em um estilo de vida que está longe de ser equilibrado.

Em alguns pontos “Mare of Easttown” lembra “The Sinner”, especialmente pelo envolvimento descomedido dos investigadores nos casos a serem elucidados e na sucessão desenfreada de acontecimentos. Assim como Harry Ambrose na trama da produção distribuída pela Netflix, Mare mergulha na solução dos crimes mais como uma fuga de sua realidade desmoronante do que por “empenho”. E é essa disfunção que explica inúmeras abordagens equivocadas da investigadora, como vemos em seus interrogatórios um tanto acusadores.

“The Sinner” é uma série que também vem à memória por conta da opção pela polêmica da “criança culpada” – há quem abomine o recurso e quem não veja mal. A resolução da série da HBO, no entanto, é surpreendentemente crível, embora possa parecer mirabolante num primeiro momento: Ryan Ross, de 13 anos e filho da melhor amiga de Mare, Lori (Julianne Nicholson), descobre que seu pai tem um caso com a adolescente Erin e, tentando fazer os pais não se separarem novamente, rouba uma arma acessível para dar um susto na garota. A ideia obviamente dá errado, Erin morre, Ryan chama o pai, como qualquer adolescente que acabou de fazer uma grande merda, e o pai aumenta a cagada envolvendo o irmão Billy para tentar se livrar do corpo. Tudo errado, tudo possível.

Mare mergulha na solução dos crimes mais como uma fuga de sua realidade desmoronante do que por “empenho”

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O final de “Mare of Easttown” não decepciona com viradas e resoluções de uma história que nos manteve curiosos e conspiratórios até o fim, ainda que alguns momentos – não exatamente no episódio final – tenham sido corridos, como a grande revelação de quem mantinha Katie Bailey em cativeiro. Mas a série se destaca mesmo por aprofundar a construção de personagens por uma ótica de cumplicidade feminina de um jeito especial e muito. Mãe e filha, sogra e nora, melhores amigas, namoradas. São essas as fortes relações presentes ao longo de toda a série, e a forma como elas são construídas é fundamental para que a história tenha um encerramento radiante e dolorido.

O laço de amizade de Mare e Lori só pode se manter porque há cumplicidade na dor uma da outra, independente do que ou quem tenha causado essa dor. Nem sempre somos contemplados com esse cuidado na construção de personagens tão íntimos e reais, e que acabam abrilhantados com interpretações tão perfeitas como foram as de Winslet e Nicholson. “Mare of Easttown” já deixa saudade.

“Mare of Easttown” está disponível no HBO Go.

nota do crítico

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