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Em “First Cow”, o capitalismo é uma tragédia anunciada

Kelly Reichardt retorna ao período fundador dos Estados Unidos para falar sobre sistemas financeiros e a relação humana com o natural

por Matheus Fiore

Há cem anos o cinema norte-americano volta ao século XIX. Não por acaso, os famosos faroestes sempre foram populares não só pelo bangue-bangue mas também – e principalmente – pela possibilidade de olhar para o momento da fundação da América que hoje conhecemos como o grande império do mundo. O velho oeste, a corrida do ouro, o destino manifesto, todos são conceitos que fundaram os Estados Unidos não só constitucionalmente, mas mitologicamente. E em um gênero tão explorado ao longo da história, não surpreende que vez ou outra algum cineasta volte a esse período para falar do presente ou para melhor entender o passado, e é exatamente essa combinação que Kelly Reichardt busca com “First Cow”.

Reichardt vê a América do século XIX como um espaço intocado, sendo lentamente explorado e corrompido pelo homem. Tudo tem uma aura de pureza. A troca dos típicos desertos pela floresta se justificam primeiramente para que cada plano da luz do sol sendo projetada entre as árvores e ilumine a mata crie essa sensação de um espaço incólume, ainda não possuído pelo homem. É como se chegássemos ao momento exato em que os últimos inocentes existiram antes de o capitalismo simplesmente varrer esse “tipo” para sete palmos abaixo da terra.

Kelly Reichardt no set de filmagem (Crédito: Alysson Ryggs)

Um cozinheiro e um imigrante chinês criam uma amizade por acaso e começam a buscar meios de sobrevivência nesse lugar sem muitas projeções de futuro. Cookie (John Magaro) tem uma receita de bolo que pode fazer ele e King-Lu (Orion Lee) ficarem ricos. Seria leviano, todavia, apresentar essa como a premissa do filme, porque no fim das contas tudo ocorre de maneira tão natural em “First Cow” que a história está mesmo muito mais interessada em estudar a relação desses homens com a natureza, uma que hoje tentamos resgatar mas que parece ser impossível.

Esse sentimento de frescor, de que tudo é novo, é reafirmado a todo momento por Reichardt. A primeira vez que Cookie encontra King-Lu o imigrante está nu, encolhido entre as plantas embaixo de uma árvore, pedindo um pouco de comida. Como se tivesse acabado de nascer, como se sua existência só fosse validada a partir daquele momento.

Talvez seja justamente por Cookie ter essa relação tão forte com a natureza que identificar uma pessoa despida na mata pareça algo tão natural para o cozinheiro. O filme se desenvolve sempre a partir da relação entre a dupla, e cada novo acontecimento surge não como um fator novo que vai mudar tudo, mas como algo corriqueiro, não planejado, não imaginado – até porque Cookie nem parece ligar muito para o que acontece ao seu redor se não tiver a ver com plantas, animais ou a própria subsistência.

A história está mesmo muito mais interessada em estudar a relação desses homens com a natureza

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Se o trabalho (a produção e a venda dos bolinhos) é o que valida a posição de Cookie na sociedade em formação, para ele é tudo apenas sobrevivência. O que Reichardt extrai da narrativa é o isolamento do protagonista em meio a um mundo em constante mudança. Ele é, no bom sentido da palavra (se é que ainda é possível haver algum em 2021), um conservador, um sujeito que vive no seu próprio ritmo enquanto os Estados Unidos estão em constante mudança e transformação em virtude do avançado processo de exploração das terras de maneira desenfreada.

É curioso como Reichardt impõe inocência até aos personagens que mais representam o capitalismo que critica. Um dos ricões que querem usar o trabalho de Cookie comenta, em uma cena, que não há problema em caçar esquilos para vender sua pele, já que eles existirão infinitamente. Há uma clara intenção de destacar como a escala mastodôntica de exploração de recursos ainda é algo distante; ainda se trata de uma nação que vê em tudo uma oportunidade sem pensar muito no futuro e em qualquer coisa que não sejam duas moedas de prata.

Reichardt impõe inocência até aos personagens que mais representam o capitalismo que critica

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Por outro lado, a inocência do próprio Cookie, mesmo que permaneça, vai se tornando cada vez mais estranha conforme ele é integrado ao mundo. É bem nítido como o protagonista simplesmente não se encaixa nesse mundo e não tem o menor interesse em mudar isso. É algo que não é tão evidente pelo roteiro de Reichardt e Jonathan Raymond, mas que é sempre explicitado pela atuação memorável de Magaro, que além de economizar palavras usa sempre a postura corporal para mostrar sua ausência de tato social, sua timidez e pureza. Os únicos momentos em que Cookie parece mais solto são nos que o personagem está buscando recursos na mata para cozinhar.

Por mais que “First Cow” seja uma tragédia anunciada, Reichardt faz do filme uma viagem para homenagear a existência de uma figura que se perdeu no último século. Um homem que busca cogumelos e frutas em um mundo onde a bala e a prata são o que vale. Um mundo no qual o valor do indivíduo só existe se validado pelo trabalho e onde tirar leite de uma vaca pode custar a sua vida. Na corrida do ouro, um copo de leite vale mais do que um sem teto, e por isso “First Cow” nos leva à fundação da América: para mostrar como o inferno que vivemos já está anunciado há muito tempo. Não trabalhe ou morra, trabalhe e morra.

“First Cow – A Primeira Vaca da América” estreia nos cinemas e fica disponível para locação digital no Now, Vivo Play, Google Play, Oi Play, YouTube Filmes e iTunes a partir da próxima quinta, 10 de junho. O filme também será lançado no MUBI no dia 9 de julho.

nota do crítico

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